domingo, 2 de abril de 2006

As ideologias fora do lugar contra a cidadania

Por Jorge Serrão

O Brasil é um País pródigo em discutir e colocar em pratica idéias fora do lugar, e ideologias mais deslocadas ainda da realidade. De novo esta doença mental ficou evidente no dia 31 de março, véspera do dia da mentira – data celebrada, todo dia, pela maioria da classe política tupiniquim.

Mais uma vez, ressurge na mídia um falso debate estéril sobre o que aconteceu no Brasil depois de 1964. Apenas para ilustrar como tal discussão nada contribui para o Brasil, vamos à imagem mais perfeita e radical dessa “guerra” para mostrar que ela parece a “Batalha de Itararé” – aquela que não existiu e deu nome a um dos mais irônicos personagens do jornalismo brasileiro, o famoso Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly.

Ontem de manhã, no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, o general da reserva Oswaldo Muniz Oliva, ex-comandante da Escola Superior de Guerra (ESG) participou da solenidade de comemoração dos 42 anos do Movimento Militar de 64, junto com centenas de cidadãos presentes. Na mesma hora, o famoso filho do militar, ninguém menos que o senador Aloizio Mercadante, do PT, deu uma entrevista criticando “o golpe de 64” de forma politicamente oportunista, como pré-candidato ao governo paulista. Mercadante criticou seus adversários Geraldo Alckmin e José Serra de também “estarem dando um golpe”, ao renunciarem aos seus cargos, por coincidência, “no dia 31 de março da redentora”.

Vida que segue... Agora, depois da ironia histórica desse embate familiar recente, vamos ao ponto exato da questão. Defensores e opositores de 64 tem o direito pleno de defender publicamente e manifestar suas idéias. Proibir isso, aí sim, é autoritarismo puro. Cada um que assuma a posição que sua consciência objetiva ou subjetiva achar melhor.

Na realidade, é preciso discutir e lembrar 1964 olhando para o futuro. No presente, a tarefa de cada cidadão brasileiro é trabalhar para a consolidação da democracia. Do contrário, o que vem pela frente será nada bom para a cidadania. Qualquer outra discussão, neste momento, é inútil e fora de propósito. Precisamos pensar e agir historicamente.

Nossa oligarquia tradicional tem muita dificuldade em agir assim. Não consegue perceber a exata dimensão histórica dos fatos. Mesmo procedimento equivocado vem sendo adotado pela chamada “nova Nomenklatura”, que se traveste com o terninho de grife rotulada de esquerda e que proclama ter o monopólio da ética, da virtude política e das idéias progressistas. Os novos bolcheviques se consideram donos da verdade.

Devagar com o andor, para os dois lados, que insistem em se antagonizar burramente. Nunca chegam a uma conclusão. Olham e trabalham apenas por seus interesses imediatos e pessoais (ou de seus grupinhos). No fim das contas, os dois lados se locupletam do poder que têm, e assaltam o Estado sempre que o povo permite que cheguem ao poder. Os dois lados estão errados, quando radicalizam ao extremo. Precisam ser superados historicamente. Eis a missão política da cidadania.

Perder tempo discutindo ideologias, “a favor do movimento militar de 64” ou “contra o golpe militar de 64”, não leva ninguém a lugar algum. Cada vez mais fica claro que as ideologias são formas primárias de dominação. Os dogmas nelas contidos nos transformam em prisioneiros, nas trevas de “idéias fora do lugar”. Tal estrabismo, miopia e astigmatismo ideológicos nos impedem de enxergar a verdadeira luz da realidade histórica, dentro de uma justa e perfeita dimensão humana.

O atual governo – pelo despreparo da maior parte de seus dirigentes – não tem contribuído para a evolução democrática. Muito pelo contrário. O caso do caseiro Francenildo é o emblema do mais vil autoritarismo, no mais escroto modelo stalinista redesenhado por meia dúzia de deformados ideológicos. O Estado de Direito foi estuprado pelos cafetões do poder, que manipulam suas prostitutas inocentes inúteis a trabalharem forma maniqueísta contra a democracia. A cidadania não é um bordel!

Trata-se de uma obra fascista, que trata adversários políticos como se fossem “inimigos mortais a serem desmoralizados, aniquilados e banidos da face da terra política". Quem age assim atua de modo tão ou muito mais condenável que os torturadores do regime de exceção.

É sempre curioso como os ocupantes eventuais do poder sempre tendem a confundir suas razões pessoais ou de seu grupo com a razão de Estado... Tal fenômeno acaba sempre gerando violência contra a cidadania e seus princípios básicos. Eis o problema histórico que nossa natureza humana não consegue superar com sabedoria.

Radicalismos pueris e violência exacerbada não nos levam a nada. Precisamos, no Brasil, cada vez mais, de equilíbrio. Temos de defender o interesse nacional voltado para a felicidade de cada um de nós, brasileiros.

Não conseguimos avançar como nação por causa da preguiça mental da nossa oligarquia, e devido ao “mau caratismo” ideológico dos eternos rebeldes, cuja causa é se dar bem, usando e abusando do aparelho estatal de que são mestres em criticar. Os dois lados não conseguem enxergar a verdadeira perspectiva histórica.

Todo ano eleitoral, vemos que uma mesma “história – mal escrita - se repete como farsa” (apenas para usar uma expressão de Karl Marx, odiado pelos que não leram seus escritos incompletos, não tiraram lições de seus erros e acertos, ou que só o citam para dar verniz falsamente progressista ao seu analfabetismo político e ideológico). Todos brigam, batem boca, e ninguém tem razão na casa rica onde só falta pão por falta de vergonha na cara de cada cidadão, alienado e conivente com as perpétuas canalhices do poder governamental vigente.

Precisamos pensar e repensar o Brasil, Acima de Tudo. Qual deve ser o nosso projeto nacional, com dimensão humana, para a felicidade dos brasileiros, o povo mais fantástico do mundo? Este é o caminho. Não tem outro. Chega de perder tempo. A inércia atual é criminosa do ponto de vista civilizatório. Polêmicas idiotas, sobre idéias fora do lugar, nos levam a lugar algum. Mais que nunca, é urgente pensar e agir. Vamos trabalhar pelo Brasil e pelos brasileiros.

E é bom lembrar: para isso, ninguém precisa ser candidato a nada, a nenhum empregão bem remunerado de parlamentar ou chefe do executivo no poder público. Basta cada um cumprir a sua parte como cidadão, respeitando e praticando a liberdade, a responsabilidade e a humanidade em favor do bem comum, para a felicidade geral.

Utopia agir assim? Por que não tentar, antes de atentar contra esta proposta política e cidadã? Eis o desafio de cada um dos 184 milhões e 184 mil brasileiros e brasileiras.

O jornalista Jorge Serrão é Editor do blog e podcast Alerta Total. Especialista em Administração Pública e Assuntos Estratégicos. O objetivo deste artigo é mostrar que nós, brasileiros, não precisamos concordar com todos os argumentos do outro. No entanto, podemos e devemos ter objetivos comuns em favor do Brasil e do bem comum.

3 comentários:

Marco Aurélio disse...

Jorge

Que tal fazer uma enquête com o nome destes candidatos, com votos brancos e nulos e com algum candidato de gozação ?

Um abraço

Marco Aurélio

sandra disse...

Olá, sou estudante de jornalismo e, lendo seu artigo fiquei encantada com a maneira firme e coerente que você escreve. Serei sua fã, quem sabe um dia eu aprendo.....
Um abraço,
Sandra.

Anônimo disse...

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