sábado, 1 de abril de 2006

Mergulhando de escafandro

Por Márcio Accioly

Encontra-se mais ou menos desenhado, nas 26 unidades federativas (mais o Distrito Federal), o complexo cenário eleitoral para outubro próximo. As alternativas são pobres. O que se percebe é uma visível progressão no nível de desencanto da população, na repetição de mazelas e veiculação de nomes que só acrescentam dissabor.

Com os péssimos exemplos que vêm de cima (principalmente os gerados no núcleo petista que se instalou no Palácio do Planalto), o Brasil que irá às urnas imagina soluções que apenas traduzem gestos desesperados de quem não tem a quem recorrer.

Na internet, os apelos se confundem: vão desde a pregação do voto nulo até a defesa da necessidade de renovação absoluta, votando-se tão somente naqueles que não sejam detentores de mandatos eletivos. Mas a decisão ainda está muito distante!

No caldeirão dos horrores, cuja ebulição é alimentada pelo cinismo de classe dirigente sem nenhum pudor, o perigo de convulsão social é perceptível, num clima sensivelmente tenso e de absoluto desentendimento. A organização social fermenta num perigoso estado de sobrecarga física e mental.

O relatório final da CPI dos Correios (contendo mais de 1800 páginas) confirma a existência de um mensalão, ramificando-se a partir de coluna mestra erigida na Presidência da República e que se distribui por toda a Federação.

A luta agora é pela sua aprovação, embora se pretenda dar-lhe destino inglório, semelhante àquele vivido pelo produzido na CPI do Banestado. De que adianta negar fatos? Recusar a aprovação do documento, a menos que se lhe retirem determinada quantidade de nomes, quando se sabe que toda a estrutura está apodrecida?

O relatório explica o envolvimento de Zé Dirceu (PT-SP), ex-chefe da Casa Civil e deputado federal cassado pelo plenário da Câmara, Luís Gushiken (PT-SP), chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos, José Genoíno, ex-presidente nacional do PT e Delúbio Soares, ex-tesoureiro da legenda. Os apontados são aos magotes.

Na citação que se fez do presidente da República, Dom Luiz Inácio, nosso amável beberrão, pisou-se em ovos: ali é dito que ele tomou conhecimento da denúncia (mensalão), “pediu providências e não há fato que permita dizer que se omitiu”.

O filho do presidente, Fábio Lula da Silva, o Lulinha, também é citado. Como se sabe, a Telemar fez aporte de 15 milhões de reais na empresa que lhe pertence. Agora, a CPI quer uma investigação “para saber se Petros e Previ (fundos de pensão) foram lesados nos negócios da Telemar com a empresa do filho do presidente”.

Nunca se imaginou que o governo chamado da “esperança” iria terminar nas páginas policiais, com seus principais membros circulando em delegacias. E como tudo é fingimento, o ex-todo-poderoso ministro Antônio Palocci (Fazenda) está negociando de forma desesperada para não ser preso. Atestado médico à mão, alega estresse.

Insubstituível”, louvado por todos os setores, encontra-se agora quase que abandonado, entregue à própria sorte. Prova de que qualquer um que assumir dá conta do recado, pois as ações são tomadas e administradas a partir de Washington, dispensando nossos serviçais dirigentes. Eles só servem para dizer “amém”.

Muita coisa deverá ainda vir à tona, pois a CPI dos Bingos irá acarear Paulo Okamotto (que pagava dívidas da família presidencial) e Paulo de Tarso Venceslau. Este último foi o primeiro a denunciar esquema de propinas dentro de prefeituras do PT, sendo expulso da legenda por ordem de Dom Luiz Inácio.

Diante de tal pavoroso quadro, só nos resta esperar uma campanha em que se esclareça o eleitor nos mínimos detalhes. É um lodaçal capaz de afogar bons nadadores.

Márcio Accioly é jornalista