domingo, 17 de setembro de 2006

Sofrimento interminável

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Em março de 1985, quando o país emergiu de longa noite de autoritarismo (iniciada no movimento militar de 64), acreditava-se que o poder civil iria implantar verdadeiro sistema democrático, oferecendo exemplo de retidão e honradez. O que aconteceu foi justamente o contrário: caímos na anarquia, na ladroagem e na desordem.

Ironicamente, os que passaram a dominar a cena foram os mesmos viciados políticos que tanto se serviram do regime militar (1964-85), travestidos de democratas de última hora. Falsários não arrependidos de podres e reprováveis pecados.

A montagem do quadro que iria dominar a paisagem do poder político-administrativo, realizada pelo então candidato Tancredo Neves (ao transpor barreiras do Colégio Eleitoral), deixava à mostra um ajuntamento de oportunistas e salafrários, todos jurando seriedade e compromisso com o País.

Foi assim que o então senador José Sarney saiu da presidência do partido de sustentação do regime militar e embarcou na canoa das oposições. Terminou como vice de Tancredo Neves, que morreria sem assumir o cargo, frustrando o país inteiro.

Foi assim também que o senador ACM (PFL-BA), que tantos cargos ocupara em todas as fases daquele período militar, continuou seu domínio no Ministério das Comunicações e sua influência nefasta nos demais governos que se seguiriam (com breve exceção na gestão Itamar Franco, sucessor de Fernando Collor de Mello).

Na Presidência da República, o maranhense José Sarney (hoje no PMDB do Amapá), geriu governo dos mais corruptos de que se tem registro na nossa história. Distribuiu, aos parlamentares federais, emissoras de rádio e de TV em profusão, em troca da garantia de um mandato de cinco anos.

Naquela época, o mandato presidencial era de seis anos. Foi esse o espaço de tempo conferido ao último presidente militar, general João Batista Figueiredo, o qual ficou entediado e entediando no Palácio do Planalto, de 1979 a 85.

Ao longo da campanha indireta de 84, Tancredo e Sarney não se cansaram de defender um mandato presidencial de quatro anos, sem direito à reeleição. Asseguravam ser este o tempo adequado e condizente com a tradição brasileira.

Questionado mais tarde sobre os motivos de sua permanência por cinco anos (já que defendera abertamente apenas quatro), Sarney responderia cinicamente ter sido tão liberal que, na realidade, “reduzira seu mandato” em um ano. Que farsante!

Pois bem: depois de Sarney, Collor, Itamar, FHC e, agora, Lula, estamos numa encruzilhada, sem saída visível, vivendo situação na qual pontificam desvios intermináveis de recursos financeiros públicos e a desmoralização da atividade política.

A cada dia surgem novos escândalos com provas irrespondíveis, como o que ora aponta o ex-ministro da Saúde José Serra (PSDB), atual candidato ao governo de São Paulo, como responsável pela quadrilha que carregava o dinheiro público no escândalo da compra das ambulâncias.

Na disputa eleitoral, as denúncias lançadas pelos candidatos, uns contra os outros, atestam o envolvimento da maioria e o grau de impotência da sociedade brasileira que não dispõe de proteção contra malfeitores investidos de mandatos eletivos. A desordem se avoluma e assusta.

Vivêssemos num país sério, o presidente da República já teria sido afastado de suas funções. Os que fraudaram a confiança da população, cometendo inomináveis crimes, estariam cumprindo pena de prisão, respondendo por incontáveis transgressões. No ritmo em que os fatos se encaminham, a revolta social será inevitável.

Márcio Accioly é Jornalista.

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