domingo, 7 de janeiro de 2007

Pacto com o Diabo

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Ernesto Caruso

Sem pretender entrar em considerações religiosas da existência ou não do capeta, a expressão sintetiza de modo contundente a coalizão que de há muito vem conduzindo “esse país”, como repete o reeleito, ao atoleiro fedido do inferno — parte pior não deve existir — destinada aos grandes pecadores. Prevalece mais o acordo bilateral com melhores resultados almejados, mas que, quando não cumpridos por uma das partes, a coisa fede.

Não há contrato escrito, nem nota fiscal ou recibo, mas bandido não é bobo e encontra um outro meio de cobrar a fatura; filma ou grava de forma oculta e as fitas chegam a quem de direito para divulgá-las. Poucas são as prisões resultantes das picaretagens, mas servem para afastamentos temporários de cargos e relacionamentos, enquanto a opinião pública é domada por outras chicotadas, turbulências, ameaças e balas perdidas.

Tal entendimento se dá em várias atividades, como também nas relações entre os maus policiais e os bandidos, entre os maus policiais e a parte transgressora da sociedade, embora desta, muitos por constrangimento sejam compelidos a um acordo que não pretendiam, como os donos de pequenos comércios, um bar, um açougue, uma padaria, que lhes servem. Pão, refrigerante, um quilo de carne. Não gostam, pois já pagam os salários dos servidores e ainda têm que dar esse agrado. No salve-se quem puder, alguns adotam o método, no anseio de uma proteção complementar, como acontece até nos condomínios, quando o agrado visa uma atenção especial.

No trânsito, a multa do guarda sai mais em conta do que a do Estado, não importando se faróis e lanternas queimados vão matar condutores e pedestres adiante; se a estrada danificada pela ambição de transportar uma carga além do limite vai provocar o acidente fatal, trazendo o choro e a tristeza às famílias de quem deu e recebeu o agrado. Mãe, pais e filhos são lembrados e rezados, mas o pacto, não. Assinou, vai pagar por ele. Mas, a estrada pode não ter sido construída nos padrões contratados; licitação fraudulenta; material de segunda; fiscal da obra sabido e empreiteiro esperto; saco de cimento desviado e alguém o compra pela metade do preço. É isso. Ninguém se dá conta que pode morrer na estrada que ajudou a construir. A gaze, o esparadrapo e a seringa desviados vão faltar quando o agente da desgraça der entrada em coma em outro hospital como ilustre desconhecido, pois mais um colega esperto fez o mesmo.

Quem trabalha, o faz pelo lucro ou pelo salário, mesmo o bandido, traficante que conquistou com sangue dos outros um ponto de venda e o risco de perder o próprio sangue, mais adiante no confronto com um criminoso mais forte. Os bandidos não gostam de ser extorquidos, nem enganados; cobram caro nas vinganças. Filmam ou gravam; são os recibos que os maus servidores públicos não lhes dão e assim garantem os compromissos, quando possível; se não, trucidam impiedosamente o faltoso, torturam e queimam. Da mesma forma agem nos pactos para filmagens e entrevistas, quando entendem não atendidos fielmente, por cenas além das permitidas, ou demais cláusulas, pagamentos, etc.

A autoridade mor recentemente classificou de terrorismo a ação de incendiar ônibus, matando inocentes no seu interior, esquecendo que nesse país, como alude com freqüência, o líder da invasão e vandalismo do Congresso Nacional estava abrilhantando as comemorações da sua posse. Ou é uma questão de facção? Brigadiano degolado por gente do MST, o vandalismo nos laboratórios e experimentos botânicos, gado reprodutor de elevado valor virando churrasco, mais e mais. Aí pode.

Deputado que chama sindicalista de vendido e acha o reajuste por mais de 90% dos seus subsídios muito justo, como a gente da justiça que já pretendia elevar os seus para 35.000 reais; realinhando os seus vencimentos pela inflação a cada ano.

Por tudo isso preferem manter o inferno nos moldes brasileiros, à semelhança deles; severo na lei e fraco na execução. Cuidam-se para no futuro, se apesar de tudo, não forem para o paraíso. Duas taças de excremento por dia que nunca vêm; falta a taça, o entregador se atrasou, a pá foi roubada; o produto sempre existe, pois é o que mais fazem, mas a logística...

Em outros infernos mais sérios, de melhor qualidade, é uma taça, mas, servida regularmente, todo dia. Embora mereçam, não querem.

Ernesto Caruso é coronel da reserva do Exército Brasileiro

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