domingo, 28 de janeiro de 2007

RCTV: um crime continuado contra o direito à informação

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Pedro Porfírio

"A TV domina o espaço público (ou a esfera pública) de tal forma que, sem ela, ou sem a representação que ela propõe do país, torna-se quase impraticável a comunicação - e quase impossível o entendimento nacional. (...) O espaço público começa e termina nos limites postos pela televisão". (Professora Rita Marisa Ribes Pereira, da Uerj)

Antes de tudo, é preciso definir o papel dessa poderosa máquina eletrônica, diante da qual crianças e adolescentes passam mais tempo do que na escola. Se não considerarmos os efeitos do seu uso, para além da própria transmissão de informações - a que dedica em geral espaço mínimo -, estaremos vivendo o mesmo cenário de quem "dorme com o inimigo".

A televisão ainda é uma arma de alcance mortífero, capaz de influir no comportamento da sociedade humana. Portanto, todo e qualquer posicionamento corporativo patronalista nos meios de comunicação expõe o desprezo pela responsabilidade social e institucional da programação de TV.

Nos países em que essas emissoras integram complexos de comunicação a sua força vai além do razoável, correndo o risco de forjar um poder paralelo semelhante ao das igrejas católicas no seu apogeu.

Onde o poder econômico tem origem externa, esses complexos de comunicação transcendem os valores nacionais e assumem sem limites posturas direcionadas a atender tão-somente a esses interesses.

Na Venezuela, mais do que em qualquer outro país, as redes privadas de televisão funcionam como ferramentas de uma aliança político-econômica, que, até o governo do presidente Hugo Chávez, ditava as cartas, manipulando os órgãos oficiais de controle, nomeando ministros e impunha decisões que beneficiavam seus interesses.

Imprensa de interesses

É da Venezuela o grande magnata Gustavo Cisneros, descrito como o Murdoch deste lado do equador pelo jornalista Richard Gott, em artigo substancioso no número 39 da "New Left Review" (maio-junho de 2006). Operando em praticamente todos os setores da economia, de supermercados à Directv, Cisneros é o dono das redes de maior audiência da Venezuela (Venevisión), da Colômbia (TV Caracol) e ainda da Chilevisión.

Sua fortuna de 4 bilhões de dólares engordou nas quatro décadas mais corruptas da Venezuela, particularmente no período do presidente Carlos Andrés Perez, destituído como ladrão em 1993, quando Cisneros nomeava o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central.
Foi ele quem, junto com as outras três redes privadas de televisão, monitorou e ofereceu combustível para a tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, numa empreitada que envolveu as empresas petroleiras e gerou um caos com prejuízos superiores a 6 bilhões de dólares.

A rigor, as quatro redes de TV foram peças físicas do golpe e, portanto, cometeram violações inaceitáveis num regime de direito. No documentário dos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O'Briain, que estavam na Venezuela naquele abril de 2002, fica claro que os canais privados serviram como "diários oficiais", através dos quais o "presidente" do golpe, empresário Pedro Carmona, transmitiu seu decreto de fechamento do Congresso e do Poder Judiciário.
Foi tal o envolvimento, que o jornalista Andrés Izarra, gerente de produção do jornal da RCTV, com passagem pela CNN, pediu demissão do cargo em plena crise, alegando "dever de consciência profissional".

Ele não agüentou a sua própria transformação num agente de um complô que se valia da televisão para enganar o povo. Foi estabelecido um blecaute com a sabotagem no canal 8, a TV Estatal, e a adoção de diretrizes que privavam o povo da informação.

"Nenhuma informação sobre Chavez, seus seguidores, seus ministros ou qualquer outra pessoa que de alguma forma possa ser relacionada a ele" podia ser divulgada - narrou Izarra. "Nós tínhamos um repórter em Miraflores e sabíamos que o palácio havia sido reconquistado por chavistas - diz -, mas o blecaute de informações foi mantido. Foi quando decidi dar um basta e fui embora".

Ainda sobre o envolvimento das redes de TV na violação constitucional, Naonmi Klein escreveu em "The Nacion", dos EUA: "O que ajuda a explicar porque, nos dias que precederam o golpe de abril, a Venevision, a RCTV, a Globovision e a Televen trocaram a programação regular por insistentes discursos antichavistas, interrompidos apenas por comerciais convocando os telespectadores a ocupar as ruas: "Nenhum passo atrás. Saia! Saia agora!".
Os anúncios eram patrocinados pela indústria do petróleo, mas as emissoras colocavam no ar como se fossem "de interesse público". E foram além.

Na noite do golpe, a emissora de Cisneros serviu de lugar de reunião para os conspiradores, inclusive Carmona. O presidente do Conselho de Radiodifusão da Venezuela foi co-signatário do decreto que dissolveu a Assembléia Nacional, eleita democraticamente.

E enquanto as emissoras celebravam abertamente a "renúncia" de Chávez, quando forças pró-Chávez se mobilizaram para trazê-lo de volta, houve um blecaute completo de notícias". Essas estações de TV fizeram até montagens sobre os conflitos que incitaram na Praça Altamira, numa insidiosa campanha que justificaria a cassação de todas elas, como hoje reclama Andrés Izarra: "Eu acho que as concessões deveriam ser revogadas".

Livres, mesmo após o golpe

No entanto, o governo limitou-se a aplicar uma multa de 3,1 milhões de dólares, que elas se recusaram a pagar. Diante do quadro em que se recusou a caça às bruxas e "perdoou" a maioria dos golpistas, Chávez veio tolerando as quatro emissoras, que não mudaram em matéria de envolvimento político-partidário e se associaram diretamente aos partidos de oposição no último pleito. Na campanha, exibiam propaganda terrorista, num desesperado esforço para derrotar Chávez nas urnas. E não foram nem um pouco democráticas na transmissão das informações.

Agora, vencem os vinte anos de prorrogação da concessão que a RCTV obteve em 1987 do presidente Jaime Lushinsi, em troca da demissão do jornalista Luiz Herrera, chefe de redação do "El Nacional", do mesmo grupo, que hoje vive em Miami. Como disse o ministro de Comunicações, William Lara, o governo venezuelano está apenas fazendo administrativamente o que lhe cabe legalmente, diante de um crime continuado contra o direito de informação. Esse caminho não tem contestação. Mas, a meu ver, já chega tarde, considerando o que me ocorreria, no Brasil ou em qualquer regime de direito, se eu tivesse feito o mesmo.

A convite de Solange Guimarães, escrevi este artigo para o jornal da ABI a respeito das medidas do presidente Hugo Chávez em relação à Venezuela. A minha contribuição integra um painel (http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=1844) Por sua transcendência para além dos profissionais da comunicação, estou trazendo minha opinião a você, através da nossa coluna.

Pedro Porfírio é jornalista, escritor e teatrólogo. Artigo originalmente publicado em sua coluna da Tribuna da Imprensa em 27 de janeiro.

Um comentário:

fernando disse...

ALGUMA DÚVIDA DE QUE O GOVERNO BOLIVARIANO É A SAÍDA PARA UM NOVO SISTEMA NESTE MUNDO PESTILENTO E INJUSTO?

PRA MIM, NÃO.

ESTOY COM CHAVÉZ, HASTA LA VITORIA, O HASTA LA MUERTE!