domingo, 7 de janeiro de 2007

A vergonha da Mulher Gato

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Jorge Serrão

"O grande problema é que no Brasil o crime compensa". Foi comovente a sinceridade com que o presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL), proclamou tamanha verdade. O ilustre senador se referiu ao criminoso comum, aquele que mata apostando na impunidade. Mas a frase dele é justa e perfeita para os nossos políticos. Se atuasse em Brasília, e não na violenta Gotham City, o velho morcegão Batmam jamais diria ao seu fiel pupilo Robin que “o crime não compensa”.

O senador Renan, que é candidato a Ministro da Justiça neste segundo mandato de Lula (cargo que já ocupou nas Eras Collor e FHC), bem que poderia ser indicado para o lugar do comissário Gordon. Segundo o senador, a chance de a Polícia brasileira desvendar um crime de morte é de 2%, principalmente nos grandes centros urbanos. Por isso, Renan avalia que a segurança pública é um grande problema também por causa de leis superadas e deficiência no sistema penitenciário, além de falta de definição clara de financiamento de recursos para o combate. Calheiros acha que Lula terá de recorrer a várias alternativas para "destravar o nó da segurança pública".

Quem sabe, senador, não seria melhor convidar o Coringa ou Pingüim para assumir o Ministério da Justiça? Melhor seria nomear o Charada para a Polícia Federal. Ou a sedutora Mulher Gato para a Secretaria Nacional de Segurança Pública. O Senhor Gelo daria um bom servidor de Whisky no Palácio do Planalto. Pena que a realidade brasileira seja mais cruel que a ficção.

Aqui quem manda é o crime organizado – definido como que a associação, para fins delitivos, entre os três poderes da República, a classe política e criminosos de toda espécie, visando a assaltar o Estado e seus recursos. Agora, o crime assim organizado ainda ajuda a patrocinar o terrorismo – que é um ato político radical com objetivos claros ou dissimulados, visando à ampliação de espaços políticos ou à tomada do poder. A quem interessa, politicamente, a atual onde de violência?

Dramático é o teatrinho montado pelos políticos e “especialistas” em segurança para resolver, magicamente, os problemas do setor, com promessas e atitudes de marketing. O governo do Rio, por exemplo, promete desencadear ações planejadas na área de inteligência para combater o crime organizado no Rio. A antiga Secretaria de Segurança Pública — SSP — vai se tornar Secretaria de Estado de Segurança — Seseg. A nova sigla é um “passo institucional” para que o órgão se transforme num “grande centro de planejamento e análise estratégica de Segurança das comunidades de inteligência”, trocando informações com as polícias.

Outra piada séria é o emprego da Força Nacional de Segurança. O Exército de Brancaleone, talvez, fosse mais indicado para enxugar o gelo no pretenso combate a uma faceta do crime organizado. Pressionado pelo governador Sérgio Cabral (PMDB), o presidente Lula autorizou o uso das tropas das Forças Armadas no Rio no combate à violência no estado do Rio. Pedido parecido fará o governador paulista. José Serra (PSDB) criou um 'decálogo para a segurança' que prevê o aumento do efetivo da Polícia Federal no Estado, cooperação das forças armadas na área de inteligência e agilidade nas liberações de repasses do Fundo Penitenciário Nacional e do Fundo Nacional de Segurança. Serra acha essencial fortalecer o combate ao que ele considera raiz e essência do crime organizado: o tráfico de armas e drogas e o contrabando. E os políticos, onde entram nisso? Deixa para lá...

Ainda no infernal campo das boas intenções e promessas, a Polícia Federal criará este ano dois novos centros de inteligência para concentrar informações para combater o crime organizado no Rio e em São Paulo. Nos próximos meses, a PF fará obras nas duas superintendências para a criação do Centro de Informação Compartilhada sobre Crime Organizado (Cicor).

A intenção é aumentar a produção de informação sobre quadrilhas e diminuir as chances de as duas maiores cidades brasileiras serem surpreendidas novamente por “ataques desencadeados por facções criminosas”. O resultado será o mesmo que combater um câncer usando água com açúcar como remédio. Não se combate o efeito, atacando a causa errada. Os ataques no RJ, SP, ES, MG e adjacências são ações terroristas do crime organizado (o crime organizado do conceito já exposto, e não bandidinhos pé de chinelo, que a ficção nos leva a crer que eles controlam tudo aqui fora, estando dentro de nossas cadeias).

Apenas para reforçar a tese, um argumento do criminalista Cezar Roberto Bitencourt, na revista Veja deste final de semana: “O crime organizado está hoje nos Palácios – já não está mais nem nos porões dos palácios como antes – e o que está aí nas ruas é o crime desorganizado comandando a sociedade organizada”.

Voltando à ficção quase real, falemos de crime sem castigo. Só um morcegão com a estatura moral de Batmam poderia dar um jeito no nosso Congresso. Neste mês de recesso parlamentar, 23 deputados assumem vagas deixadas por titulares, recebendo um total de R$ 85 mil, entre subsídios de R$ 12,8 mil, R$ 3 mil de auxílio-moradia, R$ 15 mil para despesas, verbas de gabinete e passagens de ida e volta para Brasília.

Além dos 13 deputados que ficarão um mês no cargo, outros 11 suplentes também tomam posse este mês, mas seguirão nos cargos em fevereiro. A maioria dos suplentes substituirá deputados que foram eleitos governadores e vice-governadores ou nomeados secretários nos Estados. Mesmo com o Congresso em recesso, os deputados empossados receberão todos os benefícios de um parlamentar. Suas excelências vão ganhar sem fazer nada. O crime compensa...

E como os bandidos andam sm ética. Na quinta-feira passada, por volta das 21 horas, o deputado federal Vanderlei Assis de Souza (PP-RJ) foi rendido por três homens armados, na porta de casa dele, na Rua Bandeira de Melo, em Jardim Guanabara, na Ilha do Governador, Zona Norte do RJ. Os bandidos obrigaram o parlamentar a descer de sua Hillux prata e fugiram com o carro. Os margiranhas chegaram a fazer ameaças, mas não agrediram o deputado.

Mesmo susto levou o vice-governador do Rio Grande do Sul. Paulo Feijó (PFL) foi assaltado, na noite de quinta-feira, dentro de seu carro, em um semáforo da Avenida Nilo Peçanha, em Porto Alegre. Dois eleitores armados levaram o celular e o relógio de sua excelência. Só não levaram o carro porque foram atrapalhados por um taxista que começou a buzinar. Os bandidos não respeitam mais os políticos. A falta de ética é realmente criminosa.

Enquanto isso, em Kassab City, o Ministério Público Federal apertou o cerco a um grupo de 100 doadores de campanha e descobriu que o caixa 2 e o financiamento ilegal foram usados em larga escala nas últimas eleições em São Paulo. Há casos de pessoas físicas que contribuíram com mais do que sua renda bruta de 2005 e de pessoas jurídicas que doaram total muito maior do que o faturamento bruto declarado. Uma coisa é certa. Tanto dinheiro só pode ter vindo dos cofres públicos. “Santa roubalheira” – gritaria o histérico Robin, se fosse eleitor no Brasil. Ele não é. E o eleitor daqui também não reclama. Prefere sorrir como as hienas do Coringa.

Na mesma pacata Cidadezinha, que agora tem uma ameaça diária de bomba no Metrô (ato terrorista), algum bandido afanou a Bandeira Oficial do Brasil hasteada no Parque da Independência, no Ipiranga. O lindo pendão da esperança, símbolo augusto da paz, que tem 7 m de comprimento por 6 m de largura, vale cerca de R$ 800. Não dá para acreditar que o criminoso seja um patriota.

Ainda em Kassab City, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo determinou, por liminar, que o site de vídeos YouTube se tornasse inacessível para os internautas brasileiros. A radical decisão do desembargador Ênio Santarelli Zuliani teve como objetivo punir a empresa por não respeitar a decisão da Justiça de retirar do ar o mundialmente famoso vídeo da modelo e apresentadora Daniella Cicarelli.

Diante da repercussão negativa da censura judicial, a assessoria do TJ alegou que a decisão do desembargador era apenas para impedir o acesso ao vídeo. O despacho do desembargador pediu a “colocação do filtro na solicitação de acesso ou na entrada da resposta no website norte-americano, de forma a inviabilizar, por meio completo, o acesso, pelos brasileiros, ao filme do casal”.

A bela Daniela foi filmada com o namorado Renato Malzoni Filho em uma praia de Cádiz, na Espanha, no ano passado. O vídeo começava com carícias na areia e acabava numa suposta cena de sexo no mar. As cenas calientes foram divulgadas no YouTube e se espalharam pela internet. O casal entrou, na 25ª Vara Civil de São Paulo, com pedido de indenização por “danos morais”. E tem tudo para se dar bem...

A ação tem pelo menos duas conclusões morais. A primeira é que os usuários brasileiros do YouTube, que não fazem amor nas ondas marinhas, serão “entubados” com a censura judicial. A segunda lição é que entrar na vara (judicial) faz bem para o bolso dos ricos e famosos. E vida que segue na ficção, porque até a Mulher Gato ficou com vergonha do que acabou de ler agora, e promete nunca mais assediar sexualmente seu amado Morcegão. Nem este crime compensa mais...

Jorge Serrão é jornalista, radialista e publicitário, especialista em Administração Pública e Assuntos Estratégicos. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total (http://alertatotal.blogspot.com)

3 comentários:

Anônimo disse...

E uma conhecida disse-me, outro dia, que não tinha nada a reclamar desse governo porque até a banana havia baixado de preço. Sim, claro!

Anônimo disse...

Prezado articulista.

Penso que estamos diante de um problema de difícil solução. Sempre ouço falar que para combater o crime organizado é necessária uma central de inteligência. Aceito esse fato a pergunta seguinte é: haverá inteligência disponível para esse propósito? Sabemos pela experiência de vivermos nesse país que a esperteza grassa como mosquito na beira do lago. Mas encontrar inteligência que queira participar do jogo político, aí já é ser otimista demais. É possível que existam pessoas probas que procurem, através da política, a melhora das condições de vida da população, mas eu pediria ao prezado articulista, com as informações que tem, citar alguns desses notáveis. Dou-lhe a chance de usar as duas mãos coms seus respectivos dedos. Está difícil imaginar que o Estado, com sua natural letargia, se proponha a fazer algo pela população, ainda que em nosso pavilhão nacional esteja gravado "Ordem e Progresso".

Anônimo disse...

Não é correto afirmar que a bandidagem não respeita mais os nossos políticos!...
"Eles descobriram o provérbio popular que afirma:
Ladrão que rouba de Ladrão tem cem anos de perdão!.....