segunda-feira, 14 de maio de 2007

Os Perigos da Ideocracia

Edição de Artigos de Segunda-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com/

Por Jorge Serrão

Habituado a criticar a influência do marxismo sobre a doutrina da Igreja Católica, desde os tempos em que comandava a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição), o papa Bento 16 aproveitou sua viagem ao Brasil para ampliar seu foco de ataque. O sempre teólogo Joseph Ratzinger chamou a atenção para os perigos da ideologia por trás do próprio capitalismo e da globalização. E soltou o verbo: "Igreja não é ideologia, nem um movimento social ou um sistema econômico. É fé em Deus”.

No discurso de abertura da Conferência Episcopal Latino Americana (Celam), Bento 16 analisou que as ideologias fracassaram na tentativa de reduzir a desigualdade social dos povos. O papa demonstrou preocupação com formas de governos autoritárias “sujeitas a certas ideologias que se acreditavam superadas e que não correspondem com a visão cristã da sociedade”. Bento 16 foi claro: “Essa promessa ideológica tem se mostrado falsa”. Foi mexer neste vespeiro das ideologias, as bestas amestradas e apocalípticas de nossa mídia, contaminadas por ideologias e ideocracias fora do lugar, já saíram metendo o pau na visita do papa, classificando-a de um fracasso

Sem aprofundar nos objetivos estratégicos e religiosos do discurso do papa, o problema da ideologia merece um amplo debate. Sobretudo, uma discussão baseada em um novo conceito. Vamos refletir sobre a “ideocracia”. Tal conceito vai muito além da conhecida, mas indevidamente estudada “ideologia”. Ideocracia é a aplicação prática dos modelos ideológicos para a conquista e manutenção do poder.

Governado por “ideologias ou ideocracias fora do lugar”, o mundo parece um espaço reprodutor de erros e vícios, em que o ser nasce condenado, cresce sufocado e reprimido. Nele, o próprio ser violentado pratica a violência e reproduz a opressão do sistema. O ser se destrói existencialmente. Enfim, condena-se à morte em vida. E o ciclo de opressão e violência parece se perpetuar – como se fosse intrínseco ao ser humano. Será que é? Eis a questão.

As ideocracias nos fazem perder a noção da realidade objetiva. As verdades subjetivas distorcem as coisas, explicam falsamente a realidade e alimentam os conflitos individuais e coletivos. As ideocracias e suas ideologias, sempre com o intuito de “salvar o ser humano”, nascem e evoluem neste cenário de controle, dominação e manipulação. No fim das contas, as ideocracias e suas ideologias querem o poder. Não necessariamente o poder para a felicidade humana.

Para que servem as Ideocracias? As ideologias (conjunto de idéias) são usadas como mecanismos políticos de dominação, controle e manipulação das massas, através da padronização e simplificação das idéias. Já as ideocracias são os modelos ideológicos aplicados para a conquista e manutenção do poder.

As ideocracias e suas idéias influenciam o meio “bio-psicossocial”. Atuam sobre a “vida” e a mente dos seres organizados socialmente. Ideologia é "um conjunto de idéias, pensamentos, doutrinas e visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas". O conceito de ideologia precisa ficar bem claro, para que seja compreendido seu emprego ideocrático.

Muitos autores definem ideologia como sinônimo de “visão de mundo”. Mas isto nem sempre é exato. Costuma-se conceituar visão de mundo como a perspectiva com a qual um indivíduo, uma comunidade ou uma sociedade enxergam o mundo e seus problemas, em um dado momento da história, reunindo em si uma série de valores culturais e o conhecimento acumulado daquele período histórico em questão. Mas as ideologias vão além da visão, sobretudo em um mundo controlado por oligarquias financeiras e seus restritos “clubes” de poder.

A ideologia é um fenômeno histórico-social decorrente do modo de produção. Karl Marx desenvolveu uma teoria da ideologia concebendo-a como uma forma de falsa consciência cuja origem histórica ocorre com a emergência da divisão entre trabalho intelectual e manual. É a partir deste momento, desta alienação, segundo Marx, que surge a ideologia. Ela é derivada de agentes sociais concretos (os ideólogos ou intelectuais), que tornaram autônomo o mundo das idéias. Desta forma, os ideólogos ou intelectuais teriam invertido a realidade.

De linha marxista, a filósofa Marilena Chauí caracteriza a ideologia como um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação. “Por intermédio dela, tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo”. Marx acreditava que a ideologia cria uma “falsa consciência” sobre a realidade que visa a reforçar e perpetuar a dominação.

Já Antônio Gramsci conceitua que a ideologia não é enganosa ou negativa em si, constituindo qualquer ideário de um grupo de indivíduos. Não é à toa que os modelos de pensamento gramscianos se mostram tão adequados aos diferentes sistemas ideocráticos aplicados no mundo atual. Por sua vez, Louis Althusser retoma a linha original de Marx, definindo que a ideologia é materializada nas práticas das instituições. Desta forma, o discurso, como prática social, seria a “ideologia materializada” na prática.

Também de linha marxista, o psicólogo e sociólogo Erich Fromm sempre se mostrou profundamente impressionado pelo que ele via como uma poda da liberdade humana, pelo modo como as pessoas se submetiam, inconscientemente, a desempenhar papeis mecânicos dentro da sociedade exclusivista estruturada na ideologia do capitalismo. Vale conferir o conceito de Erich Fromm, exposto em seu livro "A revolução da esperança por uma tecnologia humanizada” (Círculo do Livro, São Paulo s/data. 190p.)":

"As ideologias são idéias formuladas para consumo público, satisfazendo a necessidade que todos têm de aliviar sua consciência culpada, na crença de que elas agem em favor de algo que lhes parece bom ou conveniente. As ideologias são mercadorias de pensamento já prontas, divulgadas pela imprensa , oradores e ideologistas a fim de manipular a massa do povo para finalidades que nada têm a ver com a ideologia, e que muitas vezes são exatamente o oposto”.

Erich Fromm pega na veia: “Essas ideologias são muitas vezes manufaturadas "ad hoc". Por exemplo, quando uma guerra é popularizada sendo descrita como guerra de libertação ou quando ideologias religiosas são usadas para racionalizar o status quo político”.

A Oligarquia Financeira Transnacional, que controla o mundo, usa as ideologias do capitalismo, do socialismo, da globalização ou da “pqp” como melhor lhe convém para dominar as nações e exercer o poder do dinheiro. O grande desafio do mundo contemporâneo é entender os mecanismos ideocráticos e sua influência sobre os indivíduos e as sociedades. Quem ignorar a ideocracia será uma presa fácil de seus modelos ideológicos. É bom ficar esperto, para não ser devorado pelas “ideocracias fora do lugar”.

Jorge Serrão, jornalista radialista e publicitário, é Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. http://alertatotal.blogspot.com e http://podcast.br.inter.net/podcast/alertatotal

3 comentários:

CANALHAS disse...

É muita roubalheira e descaso, sabe. Por isso gostaria de oferecer uma singela música para a classe política e tenho certeza que ela vai se identificar com a terna interpretação da voz do Walter Franco.


http://serjaocomentadoceu.blogspot.com/

GRUPO GUARARAPES disse...

Sessenta milhões de dólares.Esse é o novo prejuízo que o molusco FDP impõe ao Brasil.A justificativa é que o valor é pequeno e não vale a pena brigar por isso.
Deve ter enriquecido muito este bastardo para considerar US$ 60.000.000,00 uma quantia pequena. De origem humilde, operário do setor metalúrgico, sindicalista e “político”,sua ignorância e má fé impingem tamanho prejuízo a uma empresa nacional .
Em estado letárgico, nossas FFAA, tudo vêm,tudo ouvem e nem ao menos se manifestam sobre os descalabros que esse m... nos impõe todos os dias.
Não sei mais de onde os homens de bem e patriotas tirarão uma fagulha de esperança que algum dia se dará um basta nesta bandalheira.

Anônimo disse...

“SÓ QUEREMOS O CUMPRIMENTO DA CONSTITUIÇÃO”


Os idosos Ex Cabos da Força Aérea Brasileira só querem do Presidente Lula, o respeito do juramento feito por vossa Excelência em cumprir e defender a nossa Constituição brasileira. Com descumprimento da Lei da Anistia Política 10.559/2002, e dezenas de Leis descumpridas pela Administração Pública Federal, onde a nossa Constituição de 1988 foi totalmente desrespeitada comparada as Constituições de 1946 e 1967 pisoteadas pelo o Governo do Regime Militar.

É uma vergonha um governante democrático que no ínicio do seu mandato jurou defender a nossa Constituição, e hoje quebra o juramento dando continuidade à repressão ocorrida nos tempos da Ditadura. O Grupo dos idosos Ex-militares da Força Aérea Brasileira, só quer do Senhor Presidente da República Luis Ignácio Lula, o cumprimento da Lei de ANISTIA POLÍTICA 10559/2002, desrespeitada há quatro anos e três meses pela administração do seu Governo.