segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Nem ordem nem progresso

Edição de Artigos de Segunda-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Acusada da prática de vários ilícitos, a governadora do Pará, Ana Júlia Carepa (PT), deve ser considerada pessoa de muita sorte. Pelo menos, ainda não foi condenada a cumprir qualquer período de prisão numa das celas imundas de delegacias do estado que supostamente administra.

Ali, todos os dias surgem novas denúncias de que mulheres paraenses dividem celas prisionais com homens, sob os auspícios do Estado. A própria governadora admitiu o fato, em nota postada no site oficial do governo, afirmando ser “prática lamentável que, infelizmente, já acontece há algum tempo”.

Sua excelência também garantiu que “o sistema de segurança vai investigar com rigor todas as denúncias”, tranqüilizando cidadãs e cidadãos. Todos sabemos, depois de declaração desse porte, como os envolvidos serão presos e punidos na forma da lei.

Para quem não se lembra, diante da enxurrada de acusações, desvios e patifaria que engloba parte considerável de nossas autoridades, Ana Júlia Carepa é aquela mesma acusada de “improbidade administrativa e enriquecimento ilícito”, em ação ajuizada na Justiça Federal de Marabá, no Pará.

Além disso, sua excelência foi flagrada na CPI da Biopirataria num esquema abarcando o Ibama, em que filiados e parlamentares petistas ligados àquele órgão “facilitavam a extração de madeira ilegal do Pará, em troca de doações de madeireiros para campanhas de candidatos do PT”.

Descobriu-se, por exemplo, que uma assessora da senadora, Maria Joana da Rocha Pessoa, recebia parte da propina em depósitos nas suas contas bancárias. Por lá, passaram valores “dezesseis vezes mais alto do que a renda anual que Maria Joana declarou à Receita Federal”.

Os valores aumentavam à medida que as eleições se aproximavam. O fato é que a assessora de Ana Júlia movimentou, em duas contas bancárias, “uma quantia superior a dois milhões de reais”, quando possuía renda anual de 124 mil e 800 reais.

O chefe do “esquema de desmatamento ilegal no Pará”, segundo denúncia da revista Veja à época, era Marcílio Monteiro que foi casado com a hoje governadora e por ela indicado para a gerência executiva do Ibama no Estado. Tudo em casa!

Numa costura de bastidores efetuada dentro da CPI, impediu-se o indiciamento da então senadora e de seu ex-marido (apesar dos indícios), para que não fosse derrubado o relatório final.

Por tudo isso, espera-se que a governadora não utilize o mesmo “rigor” do relatório final da CPI da Biopirataria que excluiu seu nome. Nem adote procedimento posto em prática, depois que assumiu o governo, quando nomeou sete parentes em 70 dias, inclusive o ex-marido Marcílio Monteiro, embrulhado na citada CPI.

O fato é que não existe referência no comportamento de nossas “autoridades”, a maioria cometendo os mesmos delitos que deveria combater. São péssimos exemplos os oferecidos, transmitindo à população claros sinais de que a roubalheira está liberada e que tudo é permitido.

Se for verdade que estamos caminhando para confronto de graves proporções, em função desses desmandos, a explosão será sem precedentes, tendo em vista absoluto descompasso. Não se sabe mais o que é certo nem errado. Existe, sim, a certeza de que a impunidade entre os detentores do poder é absoluta e sem regras.

A criminalidade crescente nas ruas deveria servir de alerta aos que transgridem todas as regras, impondo as próprias vontades. Mas ninguém parece enxergar nada.

Márcio Accioly é Jornalista.

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