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Por Jorge Serrão
“A Pobreza da Pobreza”. Daria um belo título de livro. Se algum idiota da objetividade encarasse a missão de escrevê-lo. Daria um “besta-seller” ou um “bosta-seller”. O problema é que a obra sobre a ignorância escatológica do enfoque econômico seria lida com dificuldade. Os analfabetos políticos e econômicos, que povoam o mundo em maioria absoluta, impediriam a interpretação correta sobre a fonte real da geração de cada vez mais pobreza: o monetarismo.
Sobrevivemos sob as regras de um dogma ideológico, no campo econômico, que nega e inviabiliza o próprio capitalismo. Somos dependentes de um dinheiro virtual. Uma moeda quase única controlada por meia dúzia de banqueiros. A escravidão ideológica monetarista é imposta pelos fabricantes do capital sobre os homens que dele dependem. O modelo só produz concentração de renda, cada vez mais desigualdades e crises crônicas - como a que enfrentamos agora.
O capital no centro gravitacional da economia não gera estabilidade. Só produz especulação e esculhambação dos valores éticos e humanos. O monetarismo é uma fábrica de miséria humana. Na verdade, é uma usina de moer gente, enquanto fabrica mais capital virtual. Um dinheiro que lota de zeros os registros contábeis de fortunas acumuladas e concentradas nas mãos de pouquíssimos. Tal pretensa riqueza, que não gera bem-estar e felicidade para a maioria, é mera ilusão.
Se existe uma pobreza que precisa realmente ser combatida com urgência é essa indigência ideológica que toma conta, facilmente, dos neurônios de nossos economistas, administradores ou gestores, sejam públicos ou privados. Atualmente assistimos a um abismo entre o mundo real, do trabalho produtivo, gerador de renda e emprego, e um mundo artificial - que toma conta da realidade - baseado na especulação e no consumismo. Quem opera neste mundo virtual só se preocupa com a pobreza quando algum “pobre” lhe cria um problema real.
Existem muitas definições de pobreza. Genericamente, define-se pobreza como a situação na qual as necessidades não são atendidas de forma adequada. Na prática, ser pobre significa não dispor dos meios para operar, adequadamente, no grupo social em que se (sobre)vive. Fica evidente que o sentimento de pobreza se relaciona à capacidade ou incapacidade de consumir. No fim das contas, o acesso ao consumo dita, na realidade, quem se sente rico ou pobre. Mas ser pobre é um problema de fato? Eis a questão.
Um economista brasileiro chamado Ricardo Neves, que já trabalhou como consultor da ONU e do BID, quebrou o paradigma da eterna discussão sobre pobreza. Seu livro “Pegando no tranco: o Brasil do jeito que você nunca pensou” (Editora Senac Rio) tinha de ser leitura obrigatória para iniciados ou não em economia. Ricardo Neves destaca que não basta entender hoje o problema das carências sociais no Brasil usando a palavra “pobreza”. É necessário evoluir para um novo conceito, onde se entenda que devemos procurar a vulnerabilidade social.
Ricardo Neves acrescenta: “A miséria e a desigualdade não são os grandes problemas brasileiros. Muito menos são a causa da crescente violência. Violência é oriunda da impunidade. Se fosse assim, quanto menor a renda no País, maior seria a criminalidade, e isso não é verdade. A questão é que hoje o Estado brasileiro não colocou como prioridade o controle da criminalidade. Não temos um paradigma que dê conta da nova realidade, de que o crime não tem fronteiras. O crime está globalizado”.
Além de globalizado, o crime organizado hoje se consolida como um gerador de vulnerabilidades, instabilidades, violências e terrorismo. O crime organizado combina bandidos de toda espécie, agentes econômicos e membros dos três poderes do Estado. Todos unidos com fins delitivos. E sem a presença estatal, o crime globalizado não se organiza. Sem a lógica do modelo monetarista o crime não prospera.
Então, se quisermos realmente combater o crime, precisamos secar suas fontes e origens ideológicas. A presente crise mundial comprovou como um sistema financeiro especulativo se desmancha no ar. A Oligarquia Financeira Transnacional, mantenedora do governo ideológico do crime organizado, teve de gastar trilhões de dólares em socorro próprio. Lógico, o dinheiro real foi gerado por quem trabalha e produz. Agora, será desviado para salvar quem especula e manipula o fluxo da moeda, ditando as regras da economia globalitária. Dá para aceitar, passivamente, essa miséria da economia?
Não dá. Por isso, temos de combatê-la. Só que é preciso muito cuidado. Afinal, combater pobreza com riqueza artificial é o mesmo que enxugar gelo com panos quentes. O mundo só terá condições de evoluir, de verdade, se for combatida, primeiro, a pobreza ou miséria do pensamento econômico, que é a base do governo ideológico do crime organizado do globalitarismo.
O desafio é do tamanho do Brasil: Vamos dar um basta a esta pobreza ideológica, gerencial e metodológica, cujo combate ainda está ao nosso alcance, antes que seja tarde demais?
Jorge Serrão, jornalista radialista e publicitário, é Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. http://alertatotal.blogspot.com/ e http://podcast.br.inter.net/podcast/alertatotal
© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 15 de Outubro de 2008.
6 comentários:
Peguei o telefone e digitei o número. Dou outro lado a voz eletrônica: "Se quiser saber quanto você tem, disque 2..." Segui as instruções com paciência de Jó. No final veio a sentença: "A informação está indisponível..." Os bancários estão em greve. Fiquei pensando que devíamos ter moeda local para o escambo de cada dia. De criança aprendí que o ouro era o lastro da moeda. Deixou de ser. E agora sei menos do que há tempo acreditava saber. Confio menos do que antes confiava. Espero menos do que antes esperava. Consumo o que não sei se faz bem à saúde. Respiro um ar podre. Bebo água de esgoto urbano tratada com cloro. Há tempo não vejo uma orquestra sinfônica, nem uma boa representação teatral, nem compro um livro, nem viajo. Férias? Já era! Isto é a civilização monetarista e consumista. Conclusão: passei a vida inteira, induzido como um mané gostoso, prá ajudar a construir esta merda.
Serrão, o mundo só vai entrar em uma espiral virtuosa quando a questão da cobrança de juros for equacionada.
Esta sim é a verdadeira causa do problema. A cobrança de juros concentrada nas mãos da Oligarquia Financeira somente provoca o acúmulo de riquezas, seguindo aquela máxima: "o rico torna-se mais rico, o pobre mais pobre". Este acúmulo distorce todo o ciclo econômico e acaba em crises como a atual.
Na minha opinião, o Estado deve ser a única entidade com permissão para cobrar juros. A pessoa jurídica "Banco", "Financeira" etc, provoca distorções na economia. O Estado poderia então combater a pobreza com os recursos provenientes dos juros. Acabar-se-ia, num piscar de olhos, com toda a força que manipula os políticos por detrás das cortinas.
Parabéns Serrão pela profundidade em que aborda um tema tão complexo na precisão de poucas palavras.
Isto aqui realmente é um grande moedor de carne. Um sistema global de idiotização.
Hoje, pessoas com posições de pensamento estão condenadas ao isolacionismo frente a grande massa disposta a aceitar apenas "aquilo que tá virando".
Ainda me recordo das palavras de um governador que teve o RJ, a respeito das ambições octagenárias de Roberto Marinho ... dizia o governador: O que pode ainda ambicionar uma pessoa com mais de 80 anos (essa era a idade na época de Roberto Marinho), senão a realização de uma grande obra enquanto vivo... e continuava o governador ... fosse eu, com toda essa fortuna, investiria num grande projeto voltado ao desenvolvimento de nossas crianças....
Bem, aqui não cabe a discussão sobre a sinceridade das palavras do governador, mas sim ao meu ver, um grandioso pensamento em que principalmente os vencedores deveriam se despojar de ambições apenas pessoais.
Juca/Sp
parabéns a maria lucia, como sempre, a verdade..
sim !!!! alguem precisa dizer a verdade !!!!
Lindo discurso.
Agora diz aí como é que faz pra gente achar a tal "terceira via".
Como já dizia o "velho deitado": "Na prática a teoria é diferente..."
Existe um autor que escreveu um livro, que por sinal é muito bom, cujo título é Pobreza da pobreza. Esse autor é o prof. Pedro Demo. Editora Vozes, 2003.
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