domingo, 15 de novembro de 2009

O primeiro sempre fica com menos

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Alberto Carlos de Almeida

No dia 10, lancei na Câmara dos Deputados o livro "Erros nas Pesquisas Eleitorais e de Opinião" (Record). Fiquei impressionado com a expectativa de deputados e senadores. A maioria imaginava um livro com denúncias sobre erros de pesquisas que os tivessem prejudicado em eleições majoritárias, mas não apenas.

A expectativa dos parlamentares foi motivada por dois fatores. O título do livro é daqueles que, como ocorre na maioria de obras desse tipo, presta-se a mais de uma interpretação. Nesse caso, serve à interpretação técnica e também à política. Como bons políticos, a expectativa deles, em que pese o conteúdo técnico do livro, foi política.

Há muitos episódios nos quais as pesquisas ficaram distantes do resultado eleitoral - pesquisas, muitas delas, bem próximas do dia da eleição. Em alguns casos, o erro das pesquisas resultou em processos na Justiça. A maioria de tais processos é inócua. Os institutos processados alegam que houve mudança de voto no eleitorado. Mudança de última hora. Como argumentei em minha última coluna, há estatísticos que se especializaram em responsabilizar o eleitorado pelos erros das pesquisas.

Triste destino, o desses estatísticos. Foram treinados para lidar com amostras, margens de erro e análise de dados e, nessas ocasiões, têm de culpar o eleitorado pelo incompreensível. Há argumentos, sem base empírica, de que no nível municipal a mudança pode ocorrer da noite para o dia. Deve ser complementado que, em geral, isso ocorre nos casos em que o município é pouco visível nacionalmente.

Não vou tratar aqui do aspecto ético ou jurídico dos supostos erros das pesquisas. Se há alguma má-fé, isso significa que um instituto faz a pesquisa corretamente, mas divulga o resultado que convém a algum interessado. Isso ocorre? Ninguém sabe. Caso realmente ocorra, há um interessado que solicita ao instituto a mudança do dado, e há quem faça a mudança do dado, que é o instituto. Esse interessado, caso exista, pertence ao mundo político. A grande dificuldade dessa e de outras denúncias é que no Brasil não há políticos condenados por crime algum. Ou melhor, alguns poucos podem estar condenados, mas quase ninguém é e fica preso. É alegria de pobre, dura pouco. No caso dos políticos, há muitos processados, poucos condenados e nenhum preso.

Voltando à questão técnica das pesquisas, cumpre aqui fazer um breve resumo do conteúdo do primeiro capítulo do livro que acabei de lançar. Nele utilizei a noção de discrepância, com o intuito de comparar o desempenho das pesquisas. Discrepância não é erro amostral. Foram analisadas 562 pesquisas publicadas. Em cada uma delas foi medida a distância entre a pesquisa e o resultado eleitoral. Por exemplo, em 1998, no Ceará, um dia antes da eleição, uma pesquisa indicou que Tasso Jereissati teria 13 pontos percentuais a mais do que acabou tendo nas urnas.

Na pesquisa, o segundo colocado ficou 5 pontos percentuais acima e o terceiro colocado, 4 pontos percentuais abaixo. Os "sem candidato" - que na pesquisa incluem brancos, nulos e indecisos e nas urnas, apenas os brancos e nulos - ficaram muito diferentes: foram 9% na pesquisa e 24% nas urnas. Uma diferença de 15 pontos percentuais. Desprezando-se o sinal de positivo e negativo, e somando-se tudo, tem-se que a discrepância dessa pesquisa em relação ao resultado foi de 37 pontos percentuais.

A análise das mais de 500 pesquisas e os respectivos resultados eleitorais revelam importante descoberta: há um padrão de erro que é subestimar os brancos e nulos e superestimar o percentual do primeiro colocado, independentemente de sua coloração partidária. Por exemplo, na eleição em que o esquerdista Miguel Arraes disputou e venceu em Pernambuco, ele também foi superestimado pelas pesquisas. Os votos brancos e nulos, apesar de não serem considerados válidos pela legislação eleitoral, são importantes do ponto de vista científico. No jargão técnico: são um parâmetro a ser estimado por uma pesquisa, assim como são parâmetros as votações dos candidatos.

A análise revela três erros não amostrais sistemáticos. O primeiro é que o candidato primeiro colocado é superestimado pelas pesquisas. Em 65% das pesquisas, o candidato primeiro colocado ficou com um percentual mais elevado do que nas urnas. Foi, portanto, superestimado pelas pesquisas. Em 28% das pesquisas, o primeiro colocado foi subestimado. E em 7% das pesquisas, o percentual do primeiro cravou o percentual de votos.

O segundo erro sistemático é que o segundo colocado é subestimado pelas pesquisas. Em 50% das pesquisas, o segundo colocado ficou com um percentual menor do que o obtido nas urnas. Em 40% das pesquisas, o segundo colocado foi superestimado e, em 10% das pesquisas, o percentual do segundo cravou o percentual de votos.

O terceiro erro sistemático é que a proporção de brancos e nulos é subestimada pelas pesquisas. Em 49% das pesquisas, a proporção de votos brancos e nulos encontrada nas urnas foi subestimada pelos resultados das pesquisas. Em 46% das pesquisas, essa proporção foi superestimada e 5% das pesquisas cravaram o branco e nulo das urnas.

Por que esse padrão de erro? Por que o candidato que fica em primeiro tem - sistematicamente - um percentual mais elevado nas pesquisas do que nas eleições? A explicação é politicamente incorreta: as pesquisas estão mais certas do que as urnas. Os erros são maiores nos Estados e cidades onde a escolaridade é mais baixa. Isso indica algo muito simples: as pessoas de escolaridade mais baixa, ao responder a uma pesquisa de opinião, declaram, em sua maioria, preferência pelo primeiro colocado. No momento de votar, porém, erram e acabam anulando o voto ou votando em branco.

O Nordeste é a região onde os institutos de pesquisas têm mais problemas. Na média, pesquisas feitas em cidades ou Estados nordestinos apresentam discrepância de 22 pontos percentuais. Essa discrepância cai para 16 pontos no Sudeste e no Norte e para 15 pontos no Centro-Oeste e no Sul. É no Nordeste que estão os mais pobres e os menos escolarizados. É também no Nordeste que o PIB é menor e os votos brancos e nulos são maiores.

A informação acerca dos Estados somente reforça essa conclusão. Dos dez Estados com maior discrepância, sete são do Nordeste e os outros são Tocantins, Pará e Rondônia. Em 2006, no primeiro turno no Maranhão, Roseana Sarney teve mais votos nas pesquisas de prognóstico do que nas eleições. Ela era, na ocasião, a candidata primeira colocada.

Quando as pesquisas são avaliadas no passar do tempo, nota-se que ficaram mais precisas. Isso vale tanto nas eleições para senador e governador como nas eleições municipais. Entre 1990 e 1998, a discrepância das pesquisas que tinham como área geográfica de realização os estados, variou em torno de 20 pontos percentuais. Essa discrepância caiu para 14 em 2002. Nas eleições municipais, essa melhora foi de 17 em 1996 para 14 pontos percentuais em 2000.

As discrepâncias diminuíram em função da informatização do voto. Em que pese a indignação dos opositores da urna eletrônica, ela contribuiu para que voto na urna ficasse mais próximo do voto declarado na pesquisa. Veja-se que foi exatamente o que ocorreu. Nas eleições que antecederam a completa informatização, a discrepância das pesquisas foi de 18 ou de 22 pontos percentuais. Já sob o total uso da máquina de votar, as pesquisas passaram a apresentar uma discrepância bem menor, de 15 pontos percentuais.

O grande feito da urna eletrônica foi contribuir para diminuir a proporção de votos brancos e nulos. As pessoas de pouca escolaridade que tiveram a chance de escrever seu voto no papel sabem como isso era difícil. Os fiscais de apuração de todos os partidos cansaram de ver votos anulados por que o eleitor escrevia o voto no lugar errado: o nome do deputado estadual no lugar de um xis para governador, um xis para presidente ou governador no lugar em que deveria haver o nome ou número do deputado federal, e assim por diante.

A urna eletrônica, e a "colinha" com o número dos candidatos, reduziram de maneira significativa a proporção de brancos e nulos. A redução do erro não amostral não foi, portanto, mérito dos institutos de pesquisa, mas consequência não antecipada da adoção da urna eletrônica.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record). E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.com - www.twitter.com/albertoalmeida Artigo originalmente publicado no caderno Eu & Fim de Semana do Valor Econômico de 13, 14 e 15 de novembro de 2009.

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