domingo, 21 de novembro de 2010

Bullying educacional: terror contra a sabedoria

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por João Vinhosa

Uma bomba de efeito retardado há muito anunciada está prestes a explodir: a gigantesca deficiência na educação inibirá o crescimento econômico do país.

Ninguém pode negar que temos problemas em todos os setores da educação: grande parte da população é analfabeta; outra parte substancial da população é analfabeta funcional; alunos completamente despreparados são aprovados para que não seja aumentada a evasão escolar; professores notoriamente incompetentes proliferam em todos os níveis; faculdades que não zelam pela qualidade do ensino admitem alunos sem a necessária capacitação, e despejam no mercado profissionais desqualificados.

E – para completar o desalentador cenário de nossa educação – até mesmo o diploma de mestre está sendo desmoralizado, pois, para garantir o emprego na área universitária, professores apresentam diplomas de mestre obtidos em entidades fajutas (no Paraguai, por exemplo, são produzidos diplomas de mestrado com o mesmo padrão de qualidade com que são produzidos uísques).

Mesmo que festejadas iniciativas como o Enem e o ProUni sejam bem sucedidas; mesmo que se cumpram as promessas de valorização do professor; mesmo que se concretize a propagada criação de dezenas de universidades e de escolas de nível técnico; mesmo que coloquem dois professores em sala de aula; mesmo que as escolas passem a funcionar em tempo integral... o País não se livrará de pagar um alto preço pelo fato de a sociedade brasileira estar impregnada de uma cultura de desleixo com a educação.

Deixando esses problemas “macro” para as autoridades que têm o poder de influenciar as decisões do setor, o presente artigo traz à discussão outro aspecto que em muito contribui para a caótica situação da educação no país: o procedimento de parcela considerável dos professores, que, por ação ou omissão, afugentam os alunos da escola.

O “bullying” dos professores

O presente artigo enfoca a violência psicológica praticada contra alunos por professores – profissionais cuja principal função deveria ser despertar o interesse do aluno no aprendizado.

Não há como ignorar a gravidade da situação: em certos casos, pode-se até mesmo dizer que ocorre um autêntico “bullying” praticado por professor contra aluno. E, para piorar, assim como no “bullying” tradicional, esses atos de violência psicológica são praticados, com maior frequência, contra crianças e jovens.

Objetivando comprovar a preocupante realidade, darei meu testemunho como pai, professor universitário de matemática e professor de matemática básica em cursos para concursos públicos e em minicursos promovidos por entidades sem fins lucrativos. È o que se segue.

A matemática traumatizante

Fazia pouco tempo que meu filho de cinco anos havia sido matriculado em uma escola. Tendo eu chegado a casa, ao final do expediente, minha mulher pediu-me que eu fosse ter uma conversa com o garoto, que estava completamente arrasado. E estava arrasado porque a professora havia falado na frente de toda a turma que “ele não dava para matemática”.

Dirigi-me a seu quarto e fiquei chocado por ver que meu filho estava com vergonha até mesmo de me encarar. Então, tivemos um diálogo mais ou menos assim:

– E aí, rapaz, por que você está chateado?

– Porque a professora falou que eu não dou para matemática.

– Não liga não, filho. O pai é engenheiro, vai lhe ensinar matemática, e você vai dar show na galera. Mas, por que a professora falou que você não dá para matemática?

– Porque eu não sei fazer conta de diminuir.

– Isso é fácil, filho. Eu vou lhe ensinar, e você nunca mais vai esquecer.

– Mas, é que eu não sei qual é o minuendo e qual é o subtraendo.

– Ora, filho, isso eu também não sei. Mas, isso não tem a menor importância. Você pode chegar em sala, e dizer à professora que seu pai é engenheiro, e mandou você lhe falar que quem não dá para matemática é ela.

Naturalmente, depois dessa conversa, meu filho se sentiu aliviado.

Dá para imaginar o que poderia acontecer com uma criança humilhada diante de toda a turma, e que não tivesse tido um amparo categórico como esse.

Eu, também, sofri terríveis pressões na escola primária. Lembro-me com clareza de uma professora que pegava no pé das crianças como se o Crivo de Eratóstenes e a Prova dos Nove fossem as coisas mais importantes da matemática. A única vantagem que tirei dessa sobrecarga emocional foi guardar para sempre o nome do antigo matemático.

Lembro-me, ainda, de outra professora que punia severamente os alunos que não dominavam o método de extração de raiz quadrada. Do alto de sua sabedoria, ela sentenciava ameaçadoramente: “quem não sabe extrair raiz quadrada, não sabe matemática”. Quanta estupidez, meu Deus!

O português atemorizante

Para não parecer que a matemática é a única matéria cujos professores afugentam alunos da escola, relatarei a incrível experiência que tive com o português.

Certa vez, aventurei-me a ajudar uma diarista que prestava serviço em minha residência a estudar português.

Prontifiquei-me a auxiliá-la a fazer um trabalho de português proposto pelo Colégio Estadual 10 de Maio, de Itaperuna (RJ), com o objetivo de cumprir as exigências para completar a 2ª série do ensino médio.

Pensava eu que poderia ser útil a uma pessoa que estava se esforçando para recuperar o tempo perdido.
Verifiquei que havia me enganado redondamente ao pensar que meus conhecimentos poderiam ser úteis na elaboração do trabalho. Na realidade, eu desconhecia a erudição de nossos “educadores” do ensino médio.

Logo que comecei a ler o trabalho proposto, tomei um susto. Entre outras coisas, ele destacava que “à socapa” significa “com disfarce, furtivamente” e que “comborça” significa “amante”.

O trabalho era todo de altíssimo nível. Porém, nada me impressionou tanto quanto a questão de múltipla escolha nº 02. Por considerá-la uma verdadeira pérola, permito-me transcrevê-la a seguir:

“O poema acima, do poeta José Paulo Paes, alude parodisticamente ao poema: a) Voz do poeta, de Fagundes Varela; b) As pombas, de Raimundo Correa; c) Circulo vicioso, de Machado de Assis; d) Canção do exílio, de Gonçalves Dias; e) Meus oito anos, de Casimiro de Abreu”.

Resumo da ópera: fui humilhado por ter negligenciado a erudição de nossos “educadores”, e a diarista abandonou os estudos.

Conclusão

Com toda a certeza, tal tipo de professor, que – em vez de estimular a satisfação do aluno com o aprendizado – inferniza a vida do coitado do aprendiz, provoca a aversão do estudante à escola.

Com toda a certeza, tal tipo de professor, que – em vez de incentivar a autoestima e o sadio orgulho decorrentes do aprendizado – é o maior responsável pela evasão escolar.

Diante da realidade acima exposta, o tema “bullying de professor contra aluno” tem que merecer o devido destaque nas discussões sobre os grandes problemas a serem enfrentados para melhorar a educação no país.

João Vinhosa é engenheiro e professor universitário - joaovinhosa@hotmail.com

9 comentários:

Anônimo disse...

Caro João Vinhosa,

Seu depoimento pessoal desperta também as lembranças do leitor.

Um dia, no portão de saída, meu filho de 8 anos afirmou, categoricamente, que jamais pisaria de novo naquela escola -uma cooperativa, super participativa, democrática, envolvente, enfim.

O motivo: diante da resposta de uma aluna que afirmou que seria professora quando crescesse, a professora não só humilhou a aluna perante toda a classe, como desqualificou completamente sua própria profissão - salário, reconhecimento profissional e social, incentivo pedagógico, etc.

Providências: pedi a meu filho sua compreensão quanto ao fato de que precisaríamos de alguns dias para encontrar outra escola; conversei com a orientadora pedagógica, que chamou a diretora, e juntas pediram-me que não conversasse com a professora nem na reunião dos pais naquele noite, mas que aguardasse a solução delas.

Enquanto isso, nós, mães e pais, preparávamos uma maquete para ilustar numa festa que faríamos na escola, e ouvi de uma mãe a cereja desse bolo indigesto:

- Imagina que minha filha chegou ontem em casa dizendo que a professora achou ruim sua decisão de tornar-se professora.

E ela emendou:

- Eu disse a ela que podia tirar o cavalinho da chuva, porque, se ela continuasse com essa idéia absurda, eu não precisaria gastar tanto dinheiro com sua formação e a colocaria numa escola pública.

E eu, muda de tanto espanto, compreendi que aquela escola não servia para mim e muito menos para os meus filhos.

Anônimo disse...

João Vinhosa,
Na minha escola tem um professor que é realmente democrata e incentivador - principalmente -, quando estava ainda na quinta série- a alguns anos pois hoje estou na oitava- ele me incentivou a criar um caderno onde eu pudesse escrever meus textos e auto-avaliar meu processo de escrita. Esse ano - após a sexta e a sétima série com outras professoras - este professor voltou a me dar aula na disciplina de LPT ( leitura e produção de textos, disciplina obrigatória em São Paulo) esse ano ele está incentivando os alunos a lerem. Certa vez ele estava comentando o quanto os professores de poruguês são ignorantes, é comum eles mandarem você ler um livro clássico mas que você não goste, e isto é muito comum realmente.É muito triste perceber que os incentivo-professores estão sumindo enquanto os bully-professores aparecem tão facilmente.
Abraços.

Lux Ferre disse...

Meu filho, 17 anos, aluno da 3ª série Ensino Médio, está sendo vítima de uma professora de redação. Por conta da "didática" desta professora, ele ficou em recuperação e entrou em depressão. Está, conforme diz o médico, com sentimento de ruína, sentimento de desrealização. Ou seja, perdeu toda perspectiva de futuro.
A direção da escola disse-me que isso é coisa de adolescente, para tratar com "floral".
Só eu sei como ficou meu filho, o choro convulsivo, as formas que ele descreve sobre morrer, as questões que levanta do para que viver... e eu devo tratar com floral....
Como não tive retorno mais conciso por parte da direção da escola, Colégio parceiro do Sistema COC de ensino, vou entrar com queixa junto a Diretoria de Ensino local.
Caso não tenha retorno ou providência, vou entrar na justiça com assédio moral.
Só espero que a justiça, caso nada seja feito também pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, venha a ser feita num tribunal.
Só não o tiro dessa escola por faltarem 4 meses para ele conseguir o diploma do Segundo Grau e por entender que essa atitude seria para ele como uma punição pelo comportamento inadequado dessa professora.

Lux Ferre disse...

Meu filho de 17 anos, que está na 3º série do Ensino Médio, está sendo vítima por parte da professora de redação, que o deixou de recuperação novamente. Esta alega que ele não entrega as propostas para sua avaliação, mas não assume que ela aplica prova em 26/05 e só entrega as notas em 04/08, consequentemente vetando o acesso a meu filho da ciência que necessitaria fazer algum tipo de trabalho a mais para conseguir recuperar sua nota. Desnecessário dizer que, quando meu filho viu sua média, pleno mês de julho, férias, ele surtou. Chorou copiosamente, falando somente em suicídio. Estou fazendo minha parte, ele já está com acompanhamento psicológico e psiquiatrico, tendo sido diagnosticado com depressão, sentimento de ruína, desrealização.
A escola? não tem orientador pedagógico e a diretora disse-me que isso é normal de adolescente, para que eu o tratasse com "floral".... dispenso comentários.
Como a escola não se posicionou perante minha argumentação, vou levar ao conhecimento da Diretoria de Ensino local. Caso não venha a receber também desta qualquer tipo de posicionamento ou orientação, vou à justiça por assédio moral.
Só não tiro meu filho dessa escola por faltarem 4 meses para a conclusão do ensino médio e por não encontrar vaga em outras escolas, inclusive públicas...
O ensino no país está realmente muito triste, decepcionante.
Obrigada pelo espaço para o desabafo.

Nelson F. Bonfim disse...

Engraçado, só estão nas salas de aula anjos. Os professores são demônios. Me expliquem por que teremos um apagão de professores, que já está acontecendo em algumas disciplinas, pois não estão aguentando a falta de educação desses anjos.

Anônimo disse...

sou professora e sofro com a perseguição quase desumana de uma aluna de 16 anos. Sou desmoralizada perante toda a turma. como se nao bastasse ela me desvaloriza com meus próprios colegas. Estou com depressão, tenho vontade de morrer, sou doutora formada, tenho uma filha pra criar. Nunca passei por isso em toda a minha vida. Não sei o que fazer e a escola encobre a tudo e diz que ela é apenas uma adolescente frágil e carente. E eu? e minha vida? e minha reputação? nao sei o que fazer...cada dia que entro na sala de aula dela eu peço a Deus pra me ajudar que ela não olhe pra mim. Mas, ela olha, e eu vejo ódio, sarcasmo, cinismo e sadismo em seu olhar. Tb ja penso em recorrer à justiça e entrar com um processo por danos à minha imagem, pq sinto me um lixo perante a turma inteira, tudo causado por uma garota de 16 anos, que deve ser mto mimada, malvada e vai dar uma pessima pessoa adulta.

Maria Knaretasp disse...

Boa Tarde, sofri muito tempo com a maioria dos alunos de uma Escola, e depois passou a ser uma das Professoras, depois as duas do Curso de duração de um ano, fiz de tudo para não regredir nos estudos, pois quando era a maioria dos Alunos, eu tentei deixar para lá e até falei o q estava acontecendo com uma dessas Professoras pensando que ela iría me ajudar, p que eu pudesse estudar em paz, pois n poderia sair dessa Escola, a única com aulas nesta Cidade, e para n me atrasar, e me prejudicar por outros motivos que me fizeram continuar na mesma Escola, então dizia que eu tinha problemas Psicológicos... 'terrível, fiquei realmente doente, e eu não queria voltar mais lá, mas recebi uma carta, que tenho que estudar mais, então procurei outras Escolas, e nada...muita humilhação, eu regredi na aprendizagem e mal conseguia falar, mesmo quando ela fingia está me ajudando, para alguns, mas quando ela percebeu que a maioria se juntou aos agressores, ela também, e depois a outra Professora, todos os dias eu chegava em casa, e n conseguia comer, isso tudo me fez tão mal... eu não consegui passar no teste escrito e também n tive o direito de saber o que errei, até hoje eu não sei pq me escolheram? Pq? Eles queriam, destruir minha Vida? O que essas Pessoas ganham com isso? As vezes fico pensando, vale a pena, ficar doente, por nada? Pq para mim, eu só ganhei perda de saúde, fiz de tudo para esquecer, mas juro eu não consigo, as coisas eram graves, as Professoras tentavam passar a impressão que todos aprendiam e eu n, e havia aqueles que sabiam, mas não ficavam do meu lado, eram covardes, queriam apenas se dar bem e sair dali, ouvi alguns dizerem eu não aguento ver o que essas Professoras fazem com ela... era triste, e eu estava sozinha, nem a Própria Escola, estava do meu lado, e os Alunos agressores eu não podia denunciá-los, eles tinham o apoio das duas Professoras...

Unknown disse...

Ta faltando preparo de sua parte né? Uma garota de 16 anos??? Me poupe

Edneia Santana Holsbach disse...

Ta faltando preparo de sua parte né? Uma garota de 16 anos??? Me poupe