domingo, 12 de dezembro de 2010

Combate à Inflação ou ao Desenvolvimento?

Artigo no Alerta Total – http://www.alertatotal.net/


Por Thomas Korontai

A pergunta é importante. A resposta pode orientar para o crescimento real ou para a estagnação geral, provocada por atos governamentais. Quando a imprensa noticia que a “inflação da semana foi influenciada pela alta da carne ou do tomate” deveria perceber o fato como aumento temporário de custos por oportunidade dentro da velha regra de mercado, que trata da oferta e da demanda.

Quando um país passa a ter crescimento econômico, mesmo que artificial, como é, em parte, o caso brasileiro, é óbvio que diversos setores serão motivados a produzirem mais, requerendo mais insumos e serviços. Alteram-se a oferta e a demanda e com isso os preços da oportunidade.
Exemplo: se a safra de bananas sofre um ataque de uma nova cepa de fungos, dizimando 80% de todas as culturas nacionais, o que você acha que vai acontecer com o preço? Se não houver a importação imediata de cargas e mais cargas da fruta pelo mesmo preço ou menores do que os preços que vigoravam antes da quebra da safra, certamente o preço da oportunidade de quem tem a fruta para vender vai ser bem mais alto. E subirá até o ponto em que o mercado esteja disposto a pagar.

As regras de mercado vivem sofrendo interferências das autoridades governamentais, e dizer que isso combate a inflação é uma inverdade. Inflação só ocorre se o governo emitisse e disponibilizasse muito mais moeda do que o mercado “está acostumado” em dado momento, provocando desvalorização da mesma diante dos produtos. Quanto mais moeda é necessária para se adquirir um produto, pela desvalorização da mesma, certamente maior será a inflação.

O problema é que ambos os efeitos são, em um primeiro momento, parecidos, e fica difícil identificar o que realmente está acontecendo, se não se souber o que ocorre na política monetária. Por enquanto, o Brasil tem sido salvo da inflação pela emissão de títulos e o compulsório bancário. Este ponto, sem dúvida, merece preocupação, pois inflacionar moeda ou títulos tem limite.

O país começou a crescer por conta dos efeitos gerados pelas medidas artificiais de crédito promovidas pelo governo, associados ao aquecimento dos demais países do RIC (sim, sem o “B”), em especial a China, que continua sendo o motor do crescimento planetário, mesmo com a crise de 2008. Com o crescimento da atividade econômica, graças ao volume de crédito que aumenta o meio circulante – mais moeda no mercado – a falta de determinados insumos provoca aumentos temporários de custos por oportunidade, não por inflação.

E este tipo de problema costuma gerar um tipo de benefício que arrasta outros, a oportunidade de novos investimentos, considerando principalmente, um mercado ainda “verde”, com muito a crescer. Sempre existem empreendedores dispostos a aproveitar lacunas mercadológicas e demandas não atendidas.

Estancar o crescimento alegando inflação é disfarçar o problema real: a inflação represada pela demanda dos custos do Estado mastodôntico. Resultado: o Brasil está proibido de crescer pelo próprio modelo mantido pelas autoridades, políticos, dependentes que integram o círculo de poder nos três níveis, todos focados unicamente na manutenção do status quo. Atirar na inflação é atingir o crescimento. Uma coisa não tem nada a ver com outra,

O crescimento do PIB acima dos 5% anuais reais provoca muitos problemas a governos que não tomaram providências para atender a demanda por infra-estrutura. Faltam portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, navegação fluvial e por cabotagem, mão de obra especializada, enfim...

Como o modelo concentrado de poderes deste país cada vez mais se amarra em interesses – e desinteresses – de toda sorte (ou azar nosso), ninguém se acerta para desemPACar as obras que apenas serviram à pirotecnia governamental, com quase nenhum resultado objetivo. E todo mundo põe a culpa em todo mundo.

Ou é o Ibama, ou é o Judiciário, ou é o TCU, ou é uma comissão de deputados da oposição, ou empresas descontentes com resultados de licitações, ou o governo que atrasa pagamentos, ou alguma interferência dos ETs, ou seja, nada acontece.

Tudo porque se insiste em que tudo seja “público” ou seja, “patrimônio do Povo”, responsabilidade do Estado, não se abrindo possibilidades de a iniciativa dos empreendedores, brasileiros ou estrangeiros, fazer acontecer, por sua conta e risco. Ninguém quem assumir risco sozinho em um país que não oferece segurança jurídica e institucional. Salve portanto, o BNDS, que, com dinheiro público, substitui esse risco. Mas isso também tem limite...

Desta forma, não há outra saída para quem governa este modelo de país senão pisar no freio (ao invés de fazer o que seria certo – reformar o Estado). Começou com o aumento do compulsório dos depósitos à vista nos bancos, tornando o dinheiro mais caro pela escassez. Inflação dos juros ou aumento de custo pela escassez? Muita gente poderá quebrar no ano que vem, por conta da crença de que “agora vai!”, talvez em função da Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. Mas será que é possível chegar até lá pisando no freio? O problema é que o tempo não para.

A futura presidente, se quiser arrumar as contas do País para cessar imprimir títulos e evitar imprimir dinheiro (e vem moeda nova, estranho, estava nos planos?) vai ter que cortar em muitos lugares e a conta dos investimentos sempre é a primeira, já que vai ficar complicado mandar “companheiro” embora, reformar a previdência, cortar gastos supérfluos. Talvez o novo avião seja necessário, mas o momento é muito ruim para o “façam o que digo, mas não o que faço”.

O crescimento sério, constante, sustentável e confiável do País só será possível com a reorganização do modelo, focado em uma nova federação de estados autônomos, desconcentrando o poder e multiplicando as oportunidades de criatividade e vontade indômata de crescimento e prosperidade por todo o Brasil, não há saída. Mas isso, ainda poucos enxergaram. Afinal, é mais fácil acreditar na volta de D. Sebastião...

Thomas Korontai é fundador e líder do Movimento Federalista – www.movimentofederalista.org.br

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