domingo, 30 de janeiro de 2011

Promessa é dívida

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por Arlindo Montenegro

Vez em quando, a solidão abraça a gente, isolando e revolvendo folhas de momentos de vida compartilhada, ensinando criança a andar, contando lorotas e esperando que os cheiros vindos da cozinha se revelem em cores e sabores, aprovados com louvor à maestria de quem os elabora pensando em nossa satisfação. A mente está povoada das cenas e lugares que reuniam pessoas no bem estar do plantio e colheita dos frutos maduros, no aprendizado, perdão, contemplação do ocaso e alvorecer. Agradecimento às pessoas e a Deus.

Agradecimento é um hábito banido. Deus está sendo ensinado como ideia controvertida, com a face dos homens que dizem ser seus representantes na terra. Na “origem de todos os cultos”, em todos os códigos simbólicos das religiões, encontram-se os mesmos traços da memória de uma inteligência universal que por momentos revelou-se aos habitantes deste fragmento do universo, terra, cujos ocupantes passaram a venerar. Deus ou os deuses foram banidos dos corações e são expulsos das mentes.

Deuses procriavam com humanos e uma estirpe de homens-deuses atuava na direção das hordas apaixonadas, homens que encarnavam as normas e tinham poder de vida e morte sobre os grupos humanos. Homens e salvadores divinos estão presentes na memória de todas as histórias, em todas as épocas, em todas as organizações religiosas que fundamentaram a organização de tribos, cidades e depois estados e civilizações. Todos e cada um dos deuses revestidos da toga de juízes supremos e finais, presentes para conter os impulsos e paixões, aproximando os homens de ambientes “civilizados”.

Hoje os homens que tomaram a direção dos estados gigantes, pretendem ser deuses e procedem como tal, acima das leis humanas e acima das leis da natureza, prometem tudo quanto jamais cumprem. E parece que o exemplo dos poderosos está contaminando todos os grupos sociais: promessas como para ganhar tempo diante do desconhecido que no passado mobilizava para grandes e heróicas realizações. Agora o caminho é inverso.

Vez em quando vem à lembrança promessas amigas, compromissos assumidos e esquecidos entre centenas de ocupações prioritárias. Os velhos que de algum modo são dependentes crônicos da ação dos mais jovens, guardam “hematomas-porrada” das promessas esquecidas. Talvez pela pressa e pouco tempo que lhes resta, desejando uma realização afirmativa, com o sabor de uma taça de vinho e o sentimento de gratidão brilhando no olhar obscurecido.

A gente vai aprendendo a arquivar os impulsos de assumir compromissos-tarefa para os quais falta a habilitação, a competência e os enlaces necessários para realizar. Saindo do casulo, ligamos o computador,  quase uma obrigação, para ler mensagens de pessoas que não conhecemos pessoalmente, mas com as quais concordamos sobre princípios e valores, buscas e coerências libertárias. Vamos repassando aos familiares distantes e aos amigos mais significativos. E estes raramente respondem.

As pessoas andam muito ocupadas, os roteiros dos pensamentos dos velhos e sua manias vão perdendo significado. Talvez até pela ansiedade da solidão, pela facilidade de vislumbrar as consequências dos atos insanos, por serem refratários aos usos e costumes “progressitas”, pelas tímidas cobranças do “como vai você”, os velhos-passado, são descartáveis. Pouco ou nada têm a oferecer aos jovens-futuro. Vivem à margem das atividades estressantes e profícuas da vida dos que fazem acontecer e "nasceram sabendo" como fazer, melhor que os velhos que nada têm que fazer.

Vez por outra dá pra pensar que os amigos procedem como políticos: prometem, prometem e prometem tanto, que com tanto que fazer vão deixando para depois, um depois que dificilmente vai chegar. O depois dos amigos, muitas vezes carrega outras dependências. O depois dos políticos sempre obedece prioritariamente aos compromissos da economia globalizada e aos financiadores de suas campanhas. O dentro de quatro ou cinco anos dos políticos se desdobra num tempo imensurável.

Esta é uma sociedade de solitários, bem diferente do que ainda se conserva nos pequenos povoados onde todos se conhecem e de alguma maneira se sentem responsáveis uns pelos outros. Uma cultura em extinção acelerada. A gente nem vê, nem liga para o vizinho.

A responsabilidade de uns ara com os outros começa a falhar mesmo no âmbito familiar, à medida que o estado direciona a educação dos filhos contra a tradição cultural e crenças religiosas da mesma família, introduzindo o hedonismo e “direitos” contrários à evolução natural, contrários à liberdade individual, formando zumbis a serviço da ideologia.

Neste panorama as notícias confirmam a tendência impositiva dos estados que engordam e se agigantam exigindo mais e mais trabalho das “bestas” humanas, adestradas para carregar cada dia pesos maiores por caminhos desconhecidos, em que os prazeres simples são substituído por drogas e competitividade alucinada de uns contra os outros, cada inconformado querendo ocupar o lugar do outro.

Poucos homens revelam a coragem de um Alejandro Peña Esclusa que por exigir o cumprimento das leis, por denunciar em foros internacionais a implantação da nova ordem mundial socialista em seu país, por exibir os crimes do ditador-melhor-democrata que aterroriza a Venezuela e incomoda os vizinhos, foi arrebatado de sua casa na calada da noite e está preso numa cela minúscula, onde o sol só é permitido a cada 15 dias. Detalhes no blog http://notalatina.blogspot.com/.

Aqui seguimos num caminho paralelo para o mesmo terreno obscuro da violência do Estado contra o indivíduo. Do Estado acima das leis. De um partido controlando toda a máquina do Estado. De uma pessoa investida com todo o poder determinando quem pode fazer, quem pode pensar, quem pode falar o quê. É o progresso revolucionário: as hordas invadem nossas casas, nossas cidades, nosso território e vão designando os currais.

O Estado deve, a sociedade paga. Promessas não pagam dívidas ancestrais. A gente velha só pode esperar com certeza o cumprimento de uma promessa: a eternidade no seio do Universo, o descanso na rede paradisíaca. Nem precisa aquele harém de virgens... ou um batalhão de anjos viris para as mulheres. Basta uma musiquinha... (que não seja rap! Funk!...)

Arlindo Montenegro é Apicultor.

2 comentários:

Anônimo disse...

E o que nobre colega tem contra "rap"? Quer que eu lhe de uma aula sobre os valores da cultura hip hop para vc não falar mais besteira? Escreve um texto desses para falar besteira no final? Creio que vc não conheça nada de rap além do que é mais popular... com certeza desconheçe o "underground" nacional, onde são produzias as músicas mais inteligentes na atualidade do cenário musical nacional... as mais politizadas com certeza absoluta, posso lhe mostrar... melhor não falar do que não sabe para não demostrar ignorância. abraços

Montenegro disse...

Me ilustra Anônimo! Pode mandar umas trilhas para o endereço viverdenovo@uol.com.br
Prometo publicar com comentários. E fico feliz por saber que há uma juventude criando peças musicais politizadas.
O ignorantão aqui aguarda sua ajuda.