domingo, 6 de fevereiro de 2011

EUREKA! EUREKA! O transporte aquaviário...

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por Roberto Gama e Silva

ARQUIMEDES de Siracusa, nascido no ano 287 a.C. e falecido no ano 212 a.C. foi uma das mentes mais brilhantes da Humanidade. Distinguiu-se na Matemática, na Física e como inventor. No campo da Física, contribuiu para o desenvolvimento da “HIDROSTÁTICA”, tendo introduzido, entre outras inovações, o famoso princípio que leva o seu nome.

Diz a História que Hierão, rei de Siracusa, pediu a ajuda de Arquimedes para descobrir, sem danificar a peça, se um ourives o enganara na pureza de uma jóia de ouro. Estava Arquimedes pensando na solução do problema apresentado pelo rei, quando notou que uma quantidade de água correspondente ao seu próprio volume, transbordava da banheira quando nela entrava.

Imediatamente o sábio vislumbrou a solução do problema, pela comparação entre a quantidade de líquido derramado com o mergulho da jóia num recipiente cheio de água, e a quantidade de líquido derramado pelo mergulho de iguais pesos de prata e ouro, colocados no mesmo recipiente. Tão entusiasmado ficou com a descoberta que saiu à rua nu, gritando EUREKA! EUREKA! (Achei! Achei!).

Daí surgiu a definição do Princípio de Arquimedes, por ele mesmo incluído no “Tratado dos Corpos Flutuantes”: “Todo corpo mergulhado total ou parcialmente em um fluido sofre uma impulsão vertical, dirigida de baixo para cima, igual ao peso do volume do fluido deslocado, e aplicado no centro de impulsão.”

Traduzindo em miúdos, para um objeto, que pode ser um navio, flutuar, o peso da água deslocada tem que ser maior do que o peso do próprio objeto. O objeto que flutua, então, apresentará um peso aparente bem menor do que o real, por conta da impulsão vertical, dirigida de baixo para cima.

O navio,quando flutua, apresenta, pois, um peso bem menor do que o seu peso total, incluindo o da carga que transporta.

É com base no “Princípio de Arquimedes” que o transporte aquaviário é o mais barato dentre os sistemas modais de movimentação de pesos, além de consumir menos energia para movimentação de cargas.

A comparação normal de custos obedece à série: 1 para as aquavias, 4 para as ferrovias e 10 para as rodovias.

Tudo o que foi descrito tem como objetivo adiar, “sine die”, uma sangria desnecessária do dinheiro dos contribuintes, em momento de crise, para asfaltar a rodovia BR-319, que promoveria a ligação terrestre entre Porto Velho e Manaus.

A dita rodovia tem um traçado paralelo ao curso do rio Madeira, aquavia francamente navegável entre os seus dois pontos terminais. .

Não se deve, “a priori”, condenar a abertura de uma rodovia paralela ao curso de um rio navegável, eis que o ideal seria a existência de vários sistemas modais, para conceder o direito de escolha aos usuários.

Entretanto, há que se considerar que a Amazônia não apresenta características continentais, mas a de um gigantesco arquipélago, tantos são os rios que a dividem em ilhas.

Já para deixar PortoVelho surge o primeiro obstáculo: a travessia de balsa do próprio Madeira, para alcançar a sua margem esquerda.

Os planejadores governamentais intentam suprimir esse obstáculo lançando uma ponte com 966,33 metros de comprimento e 13,40 metros de largura, com um custo estimado em R$181.800.000,00, segundo dados do DNIT divulgados em 1º de setembro de 2008.

Daí, até a margem direita do rio Amazonas são 885 quilômetros de estrada.

Depois da travessia do Madeira faz-se necessário transpor nada menos do que 30 igarapés, capazes de serem ultrapassados por pontilhões. No caminho até margem direita do Rio Amazonas, entretanto, há três rios, o Castanho, o Igapó-Açú e o Tupanã, que exigem travessias por balsas. Os três obstáculos, porém, poderão ser eliminados com o lançamento das três pontes citadas, que custariam R$117.612.500,00, segundo avaliação do Comitê Gestor do PAC (2008)

Depois disso, os veículos precisarão ainda embarcar em balsas, para duas outras pernadas longas: o rio Amazonas, até a ilha do Careiro, e ainda o trecho entre a ilha do Careiro até a margem esquerda do rio Negro, onde se localiza a capital do Amazonas.

Com o fator condicionante dos horários das balsas, na hipótese de faltarem os recursos para as pontes, a travessia dos 885 quilômetros da BR-319 poderá demorar uns dois dias para carros de passeio e uns três dias para caminhões e ônibus.

Outrossim, devido às exigências ambientais, que custarão R$653,5 milhões, a recuperação da estrada, orçada em R$467.831.257,00, e o lançamento das quatro pontes, de custo total igual a R$209.412.500,00, a recuperação da estrada acabará custando a bagatela de R$1,33 bilhão, despesa essa perfeitamente adiável. Além disso, num prazo máximo de 6 anos, seria necessário recapear a estrada, ao custo estimado de R$166.000.000,00.

O sistema modal que deve ser utilizado, prioritariamente, para manter a ligação entre Porto Velho e Manaus é, sem dúvida, o aquaviário.

Seria muito mais econômico e duradouro, investir em empresas de transporte fluvial dotadas de empurradores e balsas para transporte de granéis, balsas com propulsão própria para transporte de carretas carregadas e, também, balsas com autopropulsão e camarotes para transporte de automóveis de passeio e respectivos passageiros.

Ora, se até no igarapé chamado “Reno”, na Alemanha boa parte do transporte para o interior usa a aquavia, por que não fazer o mesmo no caudaloso “Madeira”?

A duração da travessia até Manaus, para as balsas com autopropulsão seria apenas um pouco mais demorada do que pela rodovia asfaltada (sem o lançamento das pontes), pois navegando a 10 nós (1 nó equivale a 1852 metros por hora), gastar-se-ia umas 45 horas rio abaixo.

A opção aquaviária, ademais, poluiria menos o ambiente, pois gastaria menor quantidade de combustível do que no transporte rodoviário e, além disso, protegeria a cobertura vegetal primitiva existente às margens da projetada rodovia asfaltada, ponto muito importante para a manutenção do equilíbrio ecológico local..

Como muito bem observou o cientista Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), “conectar Manaus com o arco de desmatamento de Rondônia abriria repentinamente as comportas para a Amazônia central e uma série de estradas laterais planejadas estimularia a migração e o desmatamento do último grande bloco de floresta intacta na metade ocidental do estado do Amazonas”.

Entretanto, acreditem que para convencer os responsáveis pelo projeto de asfaltamento da BR-319 a mudá-lo para a versão aquaviária, talvez fosse necessário muito mais do que ARQUIMEDES desfilar nu pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, bradando num potente megafone “EUREKA! EUREKA!”.

É que lá, centro do poder, campeia a alienação e, também, a predominância flagrante de interesses pessoais, muitos deles de uma só personalidade, em detrimento do bem comum.

Deus acuda o BRASIL!

Roberto Gama e Silva é Almirante Reformado.

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