sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Crescimento dos homicídios no Nordeste e suas causas

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por Cesar Maia

A terapia será sempre equivocada quando o diagnóstico é equivocado. O crescimento da taxa de homicídios no Nordeste tem relação direta com o deslocamento do corredor de exportação de cocaína em direção a Europa, para a África Ocidental. Guiné Bissau, o exemplo mais eloquente, é hoje um narco-estado. As altas taxas de homicídios dolosos, onde quer que ocorram, vêm associadas ao crime organizado.

A queda da taxa de homicídios no Rio e em SP é um processo que acompanha esse deslocamento do corredor de exportação. Desde o fim da década dos 70 que os corredores de exportação de cocaína sul-americana, para a Europa, eram principalmente os portos e aeroportos internacionais. Com isso, a curva das taxas de homicídios empinou nas capitais com essas características.

A partir da metade dos anos 90, no Rio e em SP, a taxa de homicídios começa seu declínio, de forma sustentada, paralelamente à intensidade do deslocamento para o Nordeste do corredor de exportação de cocaína para a Europa, via África. As distâncias à África permitem o uso de avionetas e de barcos de pequeno porte. A cocaína é recepcionada na costa ocidental da África, quase sem controles. E é fácil a saída dessas avionetas e barcos de vários pontos do Nordeste, especialmente dos mais próximos da África, tanto nas áreas metropolitanas como no interior.

A criação de um mercado interno, de consumo de cocaína, de um varejo, é um subproduto do corredor de exportação. É natural, pois os grandes contatos são feitos nas áreas de produção de cocaína.

As taxas de homicídios em SP tiveram um declínio mais rápido em função da unificação das facções em torno do PCC. No Rio, as taxas declinantes foram menos acentuadas. Mas a curva de roubos e furtos, nos dois casos, praticamente não sofreu qualquer declínio sensível, o que mostra que não é a violência que declina, mas os homicídios pela associação ao crime organizado.

AS UPPs, no Rio, têm sido de enorme importância, ao retomar o controle dos territórios controlados por traficantes. Mas -como exaltam as autoridades- sem trocar um tiro. Portanto, o varejo de drogas se desloca para outros locais. Mas a taxa de homicídios nesses outros locais, na periferia metropolitana do Rio, também declinaram, comprovando que as razões estão no deslocamento da exportação de cocaína. Seria estranho que, se essa fosse a razão, não crescessem também na periferia do Rio.

Dois exemplos. O número de homicídios dolosos na Baixada Fluminense que, no último ano do governo anterior, 2006, alcançou 1824, em 2010 alcançou 1464, numa queda de 20%. Um segundo exemplo é comparar a curva ascendente de homicídios dolosos em Alagoas e a descendente no RJ, entre 1999 e 2008, antes da entrada das UPPs no Rio. E, especialmente, entre 2005 e 2008, quando o corredor nordestino de exportação de cocaína amadureceu.

Portanto, a ação federal no Nordeste, associada às polícias estaduais, quebrando a coluna vertebral desses corredores, se faz urgente. Conheça as duas curvas citadas.

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.

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