quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O mundo é como é

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net


Por Arlindo Montenegro

A ilha tinha uma casa de pedra rodeada de coqueiros, cajueiros e mangueiras. Empregava uma dezena de nativos que juntavam os cocos e os arrumavam no lombo dos jegues, em caçuás (grandes cestos feitos com cipós) para o transporte até o local onde se processava a descasca. Muitas vezes ajudei na contagem, marcando cada cento com um tracinho no caderno. O calor era compensado pela aragem marinha e pelas conversas que acabavam em risos dos caboclos.

Os cocos descascados eram arrumados em grandes canoas e cobertos com palhas, para a viagem até a fábrica que os transformava em leite de côco e gordura vegetal, conhecida como banha de côco. O dono da ilha era austero, metódico e padrinho de tudo quanto era criança das redondezas, para as quais mantinha uma escola, com professora contratada, que também atuava como assistente social, visitando as cabanas onde residiam os trabalhadores, cobertas com palhas dos coqueiros.

O que fascinava o menino e o adolescente que passou férias na ilha em sucessivos anos, era o mar límpido, a vegetação dos manguezais que bordeavam a areia branca, a coleta de sirís ao amanhecer percorrendo a faixa da praia com um pequeno tridente e uma sacola. Quando a onda voltava, os sirís eram visíveis e bastava prendê-los na areia com o tridente e colocar na sacola.

A liberdade primitiva fascinava e desenvolvia um sentimento de ligação com alguma coisa maior, uma conexão com o mesmo universo que mexia com coisas interiores. A brisa brincando com as folhas dos coqueiros imitava o canto do mar nas noites em que o ceu aparecia como um manto azul profundo com tanta estrela, que mais não caberia.

O silêncio facilitava as leituras no maior cômodo da casa de pedra: a biblioteca com grandes janelas envidraçadas sobre as aberturas de ventilação feitas com madeira de lei trançada e recobertas com gaze para impedir a entrada de insetos. A biblioteca! Um santuário onde o padrinho Barreto passava a maior parte do tempo buscando entender o mundo descrito nos livros que chegavam embalados em caixotes.

Ali o menino viajou na coleção do Tesouro da Juventude, conheceu aventuras e narrativas em lugares que poderiam ser reais ou ilusórios, mas aguçavam a curiosidade para saber mais da mente universal, daquele mecanismo atemporal que equilibrava os astros e a terra.

Aquela infinitude era nosso porto de partida e nosso destino, nossa casa, com as camas, mesas, cadeiras, coqueiros, gente, jegues, mar e astros... manifestando a presença de um Deus vivido, sentido em cada coração, falando com a gente de moral, caridade, compaixão e respeito por todos e para com tudo que ajudava cada um a viver em liberdade.

Ali comecei a compreender o bom, o belo, o justo, o verdadeiro que entre a juventude e maturidade foi sendo esquecido e substituído, como se as prioridades da vida se restringissem ao material. Foi assim como passar de um templo de sabedoria, para um vale assustador, que requeria atitudes agressivas, competitivas, fazendo com que o espírito se recolhesse encolhido como um caracol na concha.

Aquele Deus silencioso que preenchera minha alma, parecia olhar distante, enquanto nos sonhos o menino ou adolescente indagava triste e crítico enquanto me apontava com a mão espalmada: - isto sou eu? Na rotina esquizofrênica o rosto pálido conservava um sorriso, fingindo felicidade incompleta, repetindo vícios que jamais preencheriam o vazio do espaço espiritual.

A reconciliação foi lenta. Foi necessário afastar-me da solidão povoada por uma multidão vitimada pela heresia que afastava uns dos outros, afastando cada um da caridade essencial, do exercício de estender a mão para enxugar as lágrimas e amparar os mais velhos na travessia. Nem mesmo a natureza outrora fascinante, era percebida como continuidade integrante de mim mesmo e merecedora de ajuda.

Isto durou até o dia em que você nasceu, meu filho. Naquele ato criador percebi que o mundo dos sentidos exclui a essência espiritual da vida da gente. Os homens tendem a plantar alucinações que se confundem com a realidade essencial e na busca do poder temporal multiplicam atos de crueldade, apagando a chama interior que revela a presença de Deus em cada ser.

Por estas e outras razões, o mundo é como é.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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