domingo, 1 de maio de 2011

Jeitinho e Capitalismo

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Peter Elbling

Às portas de ser ratificado como a sétima maior economia e depois de sua performance na superação da crise mundial, superior à da maioria dos países, o Brasil não pode continuar autoalimentando dogmas pejorativos à sua cultura, seus costumes e valores humanos. O mais grave desses estigmas, às vezes até motivo de chacotas no Exterior, é o relacionado ao “jeitinho brasileiro”.

Ao contrário do que se consagrou pelo mau uso da expressão, ela revela virtudes pouco encontradas em outras nações, como alta criatividade, imenso poder de superação e adequação às mudanças da economia e do mundo, reação eficaz às mais inóspitas adversidades, encontro de soluções para os mais intrincados problemas e demandas, agilidade e capacidade de reação. Assim, é premente reconstruir o conceito, aplicando-o como um dos grandes diferenciais positivos do País.

Exemplo de como as qualidades e valores do “jeitinho” manifestam-se em termos práticos foi a eficiência com a qual indústria de equipamentos de controle de ponto atendeu à Portaria 1.510 do Ministério do Trabalho, que estabeleceu regulamentou o uso de ponto eletrônico. Editada em 21 de agosto de 2009, a medida deveria entrar em vigor em agosto de 2010.

Num primeiro momento, as empresas mostraram-se preocupadas e, trazendo emoção humana aos negócios, tentaram de achar um culpado para essa portaria no rol dos próprios competidores da época, que estava em volta de 15 fabricantes. Para estes, a edição da portaria foi um golpe direto nas suas vendas e faturamento – afinal, quem iria comprar relógio de ponto quando o requisito básico mudou de maneira tão radical?

Uma vez digerido o fato de que a portaria surgiu de um processo interno ao Ministério do Trabalho, com auxilio da Justiça de Trabalho, a turma dos “relojoeiros” começou a desenvolver seus primeiros produtos em novembro e 2009. Identifico três fatores que motivaram as empresas a investirem num novo rol de produtos:

• Redução dramática do mercado devido a novas exigências técnicas editadas na Portaria 1510 – ou “O mercado parou - precisamos vender!!!”

• Perguntas pela base de clientes de quando iria ter equipamentos para atender à Portaria 1510 – ou “Parece que tem um mercado potencial”

• Definição das primeiras certificadoras técnicas no final de 2009, indicando que o M.T.E. - ou “Parece que o Governo está fazendo a sua parte”

• Nenhuma movimentação pelas várias partes da sociedade contra a portaria. A movimentação contra a Portaria 1510 começou a se apresentar somente em junho de 2010, dois meses antes da entrada em vigor em agosto de 2010 – ou “parece que a sociedade digeriu bem esta nova legislação”

As empresas tradicionais lançaram seus primeiros produtos em março de 2010. O mais interessante é que surgiram novos competidores de uma maneira muito rápida. O rol de 15 empresas “relojoeiras” aumentou para mais de 30, oferecendo ao mercado centenas de modelos diferentes. O mercado possui mais concorrência e mais variedade de equipamentos e preços – ou seja, é muito mais competitivo. É interessante notar que o primeiro REP homologado foi de uma pequena empresa do interior de Minas Gerais, até então pouco conhecida.

Algumas empresas “relojoeiras” podem ser consideradas como sendo de médio porte – não há nenhuma de grande porte - sendo a esmagadora maioria de pequeno porte. Ambas empreenderam e investiram de maneira pesada para os seus tamanhos em desenvolvimento do produto, certificação de equipamentos, nas suas linhas de produção, no marketing e na área comercial. Muitas “investiram a casa” nesta visão de mercado.

Mas tudo não é rosas no mundo do empreendedor. As vésperas de entrada da necessidade de REP, a “turma do contra” começou a se movimentar e exercer uma pressão contra a portaria. Isto quase 10 meses após a sua publicação! O ministério cedeu e com o adiamento para março de 2011 provocou mais uma descida vertiginosa nas vendas, com a concomitante preocupação do que fazer com os estoques, as linhas de produção, o pessoal contratado e os clientes querendo adiar ou cancelar pedidos. O mercado que todos se prepararam em atender virou novamente “potencial”. E com a recente publicação da Portaria 373, causou mais um susto, não somente para quem fabrica, mas também para as mais de 200 mil empresas que acreditaram e compraram REPs para se ajustar à legislação.

O mercado é realmente mágico. Mais empresas continuam a se candidataram a oferecer produtos para este novo mercado! Tem até firmas estrangeiras oferecendo produtos através dos seus distribuidores.

Como se observa, nada há de improviso no “jeitinho brasileiro”. A rigor, essa peculiaridade de uma população que soma virtudes de tantas etnias, culturas, credos e povos credencia nosso país e nossa economia a ir além, mesmo quando se depara com alguns vícios antigos na relação entre Estado e sociedade, como os que se manifestam nesses vários adiamentos de uma medida governamental –adiamentos estes que geram incerteza para empreededores e consumidores. Este sim é um problema a ser extirpado de nossa cultura.

Peter Elbling é diretor da Abrep (Associação Brasileira das Empresas Fabricantes de Equipamentos de Registro Eletrônico de Ponto).

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