domingo, 3 de julho de 2011

Canalhas e idiotas inconfessos

Artigo no Alerta Total – http://www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão

Nelson Rodrigues, cujo único pecado mortal era torcer fanaticamente pelo Fluminense, tinha definições perfeitas para coisas mundanas. Sabia escrever e descrever, sarcasticamente, a vida como ela é. Idiota da Objetividade autoproclamado, Nelson tinha um conceito exato para a expressão “canalha” (o xingamento máximo evocado por algum de seus críticos personagens em peças, contos e filmes).

Na definição Rodrigueana: “Canalha. O sujeito era tão canalha, mas tão canalha, que não perdoava nem a própria cunhada”. No caso, o verbo “perdoar” era sinônimo de “não poupar”. Ou seja, o canalha original, justo e perfeito trai a mulher até com a irmã dela. O canalha aceita até suportar a mesma sogra. O canalha não tem escrupulos. Nem limites para sua luxúria. É um egoísta avarento. Um guloso incurável. Um irado permanente. Um invejoso contumaz. Um soberbo de sua canalhice. E um preguiçoso negligente, sempre que lhe convém.

O canalha é a síntese dos sete pecados capitais: ira, gula, inveja, avareza, soberba, avareza e luxúria. O canalha é um pecador sistemático. A origem do seu pecado não é religiosa. Nem moral. Seu pecado é político-estratégico-tático. Pecar vem do latim pecare que significa "errar o alvo". O canalha faz pior ainda. Tem a ilusão pretensiosa de que “acerta no alvo”, quando, na realidade, erra. O canalha pratica o erro – opinião, ação ou omissão contrárias à verdade (que é a realidade universal permanente).

O canalha é parceiro do idiota. Ambos sobrevivem em torno da ilusão de poder. Canalhas e idiotas prosperam no Brasil. Ganham cada vez mais espaço, principalmente na vida pública. Motivo: a omissão, conivência ou leniência dos sujeitos corretos e inteligentes. Aqueles que têm algo prático e relevante a propor e realizar deixam brechas sociais para os canalhas e idiotas fazerem sua festinha. O resultado é um Brasil em que as inversões de valores e os conceitos falsos se propagam e se tornam hegemônicos. Eis o império da imbecilidade, da canalhice e da midiotice coletiva.

Semana passada, outro Nelson (o Genérico de Quatro Estrelas Jobim) resolveu aproveitar a festinha de 80 anos do Príncipe dos Sociólogos FHC para vender erudição citando Nelson Rodrigues. Nelson comentou o outro Nelson: “Ele dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento”. Leia, abaixo, o texto original rodrigueano: “Os idiotas confessos”.

Os demais idiotas entraram em convulsão com as palavras dos Nelsons – seja o Original ou o Genérico. A quem Nelson atacou? Dúvida cruel. Mas, no Palácio do Planalto, onde reina a Dilma, as palavras foram muito mal recebidas. Soaram como um réquiem a Nelson. A presidenta não gosta dele. A recíproca parece verdadeira. Assim que puder, Dilma troca o Ministro da Defesa. Falta pouco. De repente, estoura um providencial escândalo. Igual ao do Dnit, em que quatro da cúpula do Ministério dos Transportes foram detonados nos embalos de sábado à tarde...

Voltando aos canalhas e idiotas. A conjuntura brasileira é assustadora. A vida nacional parece uma novela das nove global. As negociações para a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour, com banqueiros, governo e os franceses do Casino no meio, são dignas de um roteiro folhetinesco de Gilberto Braga. A Odette Roitmman não trabalha no Palácio do Planalto. Mas falta pouco para isto. Dá medo o êxtase do respeitável público enaltecendo os vilões de novela. Não demora, do jeito que a coisa vai nas mentes e nos insensatos corações dos brasileiros incapazes de pensar corretamente, Léo e Norma viram casal presidencial.

Vamos deixar isso acontecer, sem reagir? Eis a questão...

Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos.


© Jorge Serrão 2006-2011. Edição do Blog Alerta Total de 3 de Julho de 2011. A transcrição ou copia deste texto é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas.

3 comentários:

Anônimo disse...

"Semana passada, outro Nelson (o Genérico de Quatro Estrelas Jobim) resolveu aproveitar a festinha de 80 anos do Príncipe dos Sociólogos FHC para vender erudição citando Nelson Rodrigues. Nelson comentou o outro Nelson: “Ele dizia que, no seu tempo, os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje, Fernando, é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas, que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento”."

... e depois, foi lamber a sola dos coturnos da dilma, enquanto esta, lhe dava a maior bronca da sua vida, mesmo superior áquela quando ele ameaçou os nossos generais melancias, imbecis e covardes, se refilassem por causa do livro, levavam uma surra.

Quando um civil se veste de camuflado e coloca 4 ou 5 estrelas de comissario vermelho bolchevique para querer impor respeito aos autênticos generias melancias ou não, è um COVARDE, tão covarde como os generais que se calam e consentem.

Somos governados por doentes e protegidos por covardes.

A munição 7,62, não è guloseima, não, muito menos supositório!

Razumikhin disse...

"..Sabia escrever e descrever, sarcasticamente, a vida como ela é. Idiota da Objetividade autoproclamado, Nelson tinha um conceito exato para a expressão “canalha” (o xingamento máximo evocado por algum de seus críticos personagens em peças, contos e filmes).."
Aqui há um grande equívoco. Nelson Rodrigues costumava chamar os outros de "idiotas da objetividade", quando esses assim mereciam. Jamais se autoproclamou dessa maneira, isso seria estupidez.
Você está desculpado pela idade: não viu Nelson ao vivo; e se viu, não ouviu ele dizer isso.

Anônimo disse...

Serrão;

Três mentes, três penas, três artigos, três definições consistentes em retratar o “status quo” brasileiro. Assim, Serrão, me permita uma, digamos, “composição síntese”, misturando alguns parágrafos “pinçados” dos excelentes textos (publicados aqui mesmo, em sequência, no “Alerta Total”): do Accioly (Um homem a quem se podia chamar de correto), do Nelson — o Rodrigues não o outro, bem entendido! — (Os idiotas confessos) e do Serrão (Canalhas e idiotas inconfessos)!

Segue, abaixo, o resultado deste pretenso e pequeno “ensaio”, que é um libelo à Nação. E que, por esta composição, os autores citados possam me perdoar:

“Não quero entrar no mérito de questões econômicas, pois figuras exponenciais do naipe do professor Adriano Benayon têm dissecado à exaustão, de maneira competente e convincente, as causas de nossa miséria. Entendo não existir nada fixo no mundo, as coisas se alternam ad infinintum. Temos de nos adequar às necessidades. Os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão.

Entendo também que leis devem ser mudadas, pois fatos e conveniências se alternam e, como também é facílimo perceber, a roubalheira no Brasil não pára e não há como reprimir nem que seja parcialmente tantos desmandos, sem punição exemplar dos culpados.

A revista Veja mostrou que funcionários do Ministério (Transportes) e de órgãos vinculados à pasta “montaram um esquema de superfaturamento de obras e recebimento de propina por empreiteiros”. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. A Odette Roitmman não trabalha no Palácio do Planalto. Mas falta pouco para isto. Dá medo o êxtase do respeitável público enaltecendo os vilões de novela. Não demora, do jeito que a coisa vai nas mentes e nos insensatos corações dos brasileiros incapazes de pensar corretamente.

Num país como o nosso, de analfabetos e desinformados, é em tal esquema que somos todos reféns, trabalhando para pagar impostos e sustentar príncipes que vivem à custa do erário. Por isso que se pretende calar a imprensa, os blogueiros e censurar a internet. O pai do mensalão mineiro, Eduardo Azeredo (PSDB), que num país sério estaria na cadeia, tem projeto de lei que proíbe tudo ou quase tudo em termos de divulgação de roubalheira.”


Com um fraterno abraço deste seu amigo amazônida,

Roberto Santiago