domingo, 3 de julho de 2011

O outro Chavez

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Emilio J. Cárdenas

Há mais de duas semanas, Hugo Chávez foi operado em Havana, Cuba, para – como foi dito – drenar um abscesso na pelve com alguma complicação colateral. Lá ele permanece ainda convalescente, apesar de, de quando em vez, aparecer sorridente em fotos com os dois irmãos Castro.

Não obstante, na Venezuela, há toda sorte de especulações e suspeitas oriundas do seu nebuloso estado de saúde. O certo é que, com sua popularidade substancialmente diminuída, a ausência de Hugo Chávez não o ajuda em nada perante o processo eleitoral que se aproxima, através do qual pretende o mandatário continuar se ‘eternizando’ no poder, que já ocupa desde 1998.

Assim como Fidel Castro foi sucedido no poder de Cuba por seu irmão Raúl Castro, não parece provável que, na Venezuela, de pronto ocorra algo parecido. Neste sentido, os olhares convergem sobre seu irmão Adán, físico de profissão e de pensamentos ainda mais radicais que os de Hugo Chávez.

Adán não tem o carisma de seu irmão Hugo. De resto, a situação se parece com a de Raúl Castro, quando comparado com Fidel. Mas tem uma importante experiência acumulada no movimento encabeçado por seu irmão. Nos últimos dias tem viajado constantemente entre Caracas e Havana e a cada regresso se refere publicamente – com otimismo – à situação de saúde do presidente da Venezuela.

Adán foi Secretário da Presidência, embaixador em Cuba e Ministro da Educação. Aos 58 anos, é agora governador do Estado de Barinas, onde a família de Chávez, como uma dinastia, ocupa - com total descaramento – as principais posições políticas e governamentais. Nesse cargo ele foi sucessor do próprio pai. Para os ‘Chávez’ o nepotismo não é um limite, nem um empecilho. Como ex-professor universitário, Adán é não só mais ideológico que seu irmão Hugo, mas claramente mais radical, agregando à visão marxista do mundo um forte componente de nacionalismo. É tido como o homem de confiança de Hugo, seu companheiro mais íntimo, de uma lealdade indiscutível, acima de qualquer suspeita.

Alguns especulam que caso a saúde de Hugo Chávez no se recupere, Adán poderá sucedê-lo no poder. Não é a toa que Adán tem sido o eixo da relação bilateral entre Cuba e Venezuela, o que deu origem a uma crescente e preocupante intimidade entre ambos os países.

Como em todos os regimes totalitários, na Venezuela de Chávez cuida-se de eliminar sistematicamente do seu entorno todo aquele que, de algum modo, possa fazer-lhe sombra. Seja no mundo da política, seja no universo militar. Por isso existe a possibilidade de que seu irmão Adán Coromoto Chávez o suceda.

Há, sem dúvida, os que especulam que por trás da ausência de Hugo Chávez poderá haver uma manobra midiática, para reverter a constante perda de popularidade que Chávez tem sofrido nos últimos meses, mediante a qual ele estaria preparando um "regresso triunfal à pátria", após ter "enfrentado de perto" a morte e terminar triunfando sobre ela.

Não obstante, os que não acreditam nessa possibilidade têm os olhos fixos sobre Adán Chávez que - nas atuais circunstancias - pareceria apresentar-se como eventual sucessor de seu irmão Hugo sob a suposição de que o atual mandatário não possa ampliar, uma vez mais, os doze anos nos quais tem estado a manobrar o timão de seu país.

O certo é que, a julgar pelas pesquisas, hoje cerca de 60% dos venezuelanos não apoiariam que Adán Chávez, sem o endosso das urnas, de imediato suceda o irmão Hugo, inabilitado pela doença, no poder apenas por ser o irmão mais velho do Presidente. Seria um ato de autoritarismo próprio de uma ópera bufa, não de uma nação moderna - que alguns esquerdistas ainda chamam de ‘democracia’.

Todavia, o regime chavezista poderá fazer cair sobre a Venezuela uma longa noite escura.

Emilio J. Cárdenas foi Embaixador da República Argentina na ONU. Artigo originalmente publicado em lanacion.com em 30 de junho de 2011(http://www.lanacion.com.ar/1385641-el-otro-chavez). Tradução de Francisco Vianna.

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