sábado, 6 de agosto de 2011

Generais Investigados

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Marcelo Crivella

Ainda perduram os ecos da triste notícia de capa da edição do último domingo da Folha de São Paulo, envolvendo nas suas teias insidiosas oficiais do mais alto escalão do Exército. Dizia: Comando do Exército é alvo de investigação. Generais são suspeitos de desvios nos Transportes; Força diz desconhecer inquérito. O Comandante do Exército, general Enzo Martins Peri e mais sete generais viraram alvo de uma investigação da Procuradoria-Geral da Justiça Militar.

(¿) É justo indagar, que substanciais e indubitáveis provas foram obtidas para se estampar nas folhas de um jornal, que há pouco, para orgulho nosso, comemorou seus 70 anos no plenário desta casa e de alcance nacional, tão desalentadora e afrontosa notícia cujas consequências devastadoras são incalculáveis, no moral da Pátria, no espírito dos nossos cidadãos, na crença dos jovens oficiais, dos cadetes, dos praças, espalhados na vastidão do nosso território nessa instituição que se estrutura na hierarquia e na disciplina e se forja no exemplo de abnegação e sacrifício de seus líderes e finalmente na imagem que o Brasil procura construir diante do mundo?

E o leitor constata após o impacto tectônico do título, que se segue uma matéria cujo conteúdo não corresponde, não justifica, não é proporcional, não lastreia, nem sequer explica o tom gravíssimo que a chamada relampeja.

É que, além de algumas linhas dando conta do andamento do processo e o nome das autoras, duas senhoras procuradoras, o restante são meros indícios de uma suposta trama mirabolante envolvendo empresas, milhões de reais, e tantos generais que comandaram o Departamento de Engenharia e Construção do Exército e outros que foram diretores do prestigioso Instituto Militar de Engenharia, e, diga-se de passagem, pelo cargo que exerciam são obrigatoriamente possuidores de exemplar vida pública, nos longos anos de serviço prestados à Pátria, na árdua rotina de colégio, de academia, de escola de aperfeiçoamento e de estado maior, avaliados em cada prova, em cada exercício de campo, no rigor do esforço físico, na pontualidade, no trato com superiores e subordinados, nos atributos morais e intelectuais por diversos chefes em diversas ocasiões, e tudo isso superado com extraordinário sucesso. Pois bem, nessa investigada ilicitude esses generais estariam em conluio com um coronel e um major, que os induzem a todos a participar de uma quadrilha para assaltar o Brasil. E assim, num átimo, são lançados nas páginas apocalípticas do noticiário.

(¿) Que provas são essas tão graves e relevantes para se atirar uma instituição que devíamos proteger como patrimônio moral do povo brasileiro, cujo patriotismo jamais desmentido escreveu as páginas mais gloriosas de nossa história, num melancólico e oprobrioso descrédito?

Sim, porque se fosse um oficial, ou dois, podia se tratar de um caso isolado, mas uma geração de oficiais generais confere uma dimensão crônica ao problema e põe em dúvida os critérios, a seriedade, os princípios de formação e avaliação da Força como um todo.

Pois bem, as provas para incriminar os generais, sobretudo o comandante do Exército, e que justificaria a sua imagem colocada no topo do fantasioso infográfico que insinua o caminho da corrupção, são supostos desmandos de oficiais subalternos tão distantes da esfera de interferência e decisão do chefe do órgão, não apenas por organograma, mas pela natureza dos princípios da hierarquia.

É estranho supor, é até temerário admitir que à época o então Major Enzo Martins Peri quando encarregado de licitações nunca tenha sido questionado em suas decisões numa carreira absolutamente imaculada, se disporia agora a se envolver como General diretor do Departamento. Isso não faz sentido. No fanatismo de acusar, por vezes as pessoas se tornam energúmenos blindados aos apelos da razão.

Mas o fato concreto é que essa denúncia chegou antes ao Exército que, à época, não se eximiu de cortar na carne e mandar instaurar o IPM (inquérito policial militar) que encaminhou à justiça, que ouviu o Ministério Público e esse é o âmago da reportagem que perde muito da sua credibilidade, ao omitir que aquele a quem ela mais acusa foi o que, à época, a tempo e a hora, tomou as providências cabíveis para a punição dos supostos crimes.

Eu não defendo o arquivamento da investigação, pelo contrário, com a proporção conferida ao caso, a meu juízo precipitada e exagerada, mais do que nunca se deve investigar no fio da navalha e com o maior rigor da lei tudo que deva ser perscrutado, inquirido, desvendado, sondado, elucidado porque tenho a mais absoluta confiança de que em primeiro lugar, esses generais jamais se uniriam para assaltar o Estado, não possuem o perfil de quadrilheiros, suas vidas dizem o contrário, o mérito obtido na carreira militar, que só é possível pelo exercício constante da renúncia e do idealismo e que os credencia em dignidade e honradez grita aos céus e aos homens de boa-vontade o oposto, e segundo porque desgraçadamente é suportando as chagas dolorosas do mais irreverente e patético escárnio que se desmascaram as acusações afoitas para se obter finalmente a solene e derradeira revogação das injúrias, infâmias e calúnias.

É triste constatar que no Brasil de hoje um sacerdote, um leigo, um general, um civil, um parlamentar, um eleitor, um juiz, um promotor, um cidadão qualquer, ninguém é digno de contar com o beneplácito da presunção de inocência diante da fúria avassaladora das rotativas em busca do lucro a qualquer preço. Entretanto, por mais que deva nessa hora sombria defender, desta tribuna, a cidadania, não quero me deter no drama pessoal desses homens. São soldados. São bravos. Saberão superar suas adversidades, mesmo que ainda no vértice da insanidade, por um tempo, só lhes reste o aplauso da própria consciência.

Quero falar sobre o meu País e sobre a nossa gente. Quero falar sobre os valores maiores da Pátria que em última análise repousa sobre o ânimo de seus cidadãos e a esperança que os acalenta no sucesso do seu próprio destino. Como é duro ver o desalento que noticiários irresponsáveis trazem à dona de casa desprevenida, ao cidadão comum das ruas, ao estudante e ao trabalhador, que surpreendidos diante de uma notícia que levianamente levanta suspeitas e denuncia o que seria talvez a pior das nossas desgraças, que é o desmoronamento moral de uma instituição sem a qual nem sequer existiria o Brasil e assim nossa gente se sente traída, desconfia da índole da brasilidade, perde sua auto estima e passa a ver com malícia as iniciativas de seus governantes. (¿) Quem será capaz de dimensionar com precisão o estrago no espírito da Nação?

Aquelas sociedades que não cultivam o respeito aos seus líderes, aos seus quadros históricos e às suas autoridades legalmente constituídas, para ao menos garantir a eles o mais elementar dos Direitos do Homem, que é a sua honra, aqueles que sentam à roda dos escarnecedores para vilipendiar a dignidade alheia, que são rápidos para concluir, para generalizar e propagar de maneira direta ou indireta o desprezo às instituições e aos homens que deram o tempo de sua existência para construí-las, poderão constituir um ajuntamento de pessoas, um amontoado, mas jamais serão uma nação rica, poderosa, culta, justa e humana que se engrandece na prática das virtudes a serviço da humanidade.

Quase todos os dias lemos denúncias nos jornais. Prezamos uma imprensa livre como patrimônio da democracia e baluarte da liberdade. Mas o que parece é que essas notícias que são eminentemente tristes e que devem ser tratadas sempre com pesar, posto que nos envergonham a todos, são na verdade publicadas com um certo sadismo, como no afã incontrolável e insaciável de um vício, numa orgia histérica de júbilo neurótico onde se busca, passada uma, logo outra que lhe supere o horror, como uma dose mais forte para consagrar como troféu a ambição de supostos justiceiros. No ímpeto desse estranho rancor, desse ódio invencível, dessa incansável atividade de cultivar no coração do povo o desprezo pelos seus líderes, é que se acabam cometendo excessos de graves consequências e retrocessos de custosas recuperações.

Ontem à noite, quando escrevia essas linhas, me chegou às mãos uma nota de esclarecimento da Procuradoria-Geral de Justiça Militar que passo a ler no seu primeiro parágrafo:

“Em razão de matéria publicada na edição de domingo, dia 31 de julho de 2011, do jornal Folha de São Paulo, a Procuradoria Geral de Justiça Militar esclarece que o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, não é alvo de investigação do Ministério Público Militar…”

Será que essa nota terá a mesma repercussão de uma manchete de primeira página no jornal mais lido do País na sua edição de domingo? Será que chegará aos quartéis, aos lares, aos sindicatos, às escolas e às igrejas como um bálsamo a recobrar a exatidão dos fatos e redimir a injustiça cruel dos excessos?

Meus senhores e minhas senhoras, cabe alertar que foi na overdose de uma suposta liberdade de imprensa que o empresário naturalizado americano Rupert Murdoch, há poucos dias, viu sucumbir seu antes prestigioso jornal num obscuro e melancólico crepúsculo e se encontrou na contingência vexatória de não só pedir desculpas ao povo britânico, mas como eram tão irrecuperáveis e viciadas as editorias tresloucadas de suas redações, num ato expiatório dramático, adotar o único caminho que lhe restou que foi liquidar para sempre aquele infame jornal.

Queira Deus que a imprensa brasileira se engrandeça na pujança da nossa cultura e na inegociável defesa dos princípios sagrados da nossa cidadania, mas sem jamais esquecer que a eles o antecedem e sobrepõem o respeito à honra de cada cidadão brasileiro.

Marcelo Crivella é senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro e Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Texto é cópia de seu pronunciamento na tribuna do Senado.

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