terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Guernica da roubalheira

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Sérgio da Costa Ramos

Nunca se viu verbo tão conjugado a um só tempo, como se roubar pertencesse a uma vocação natural deste país chamado Brasil.

Vivo fosse, Pablo Picasso pintaria uma Guernica da roubalheira, retratando o horror sentido pelo povo brasileiro, coitado, bombardeado todos os dias pelo inestancável noticiário dos escândalos e das profanações da carteira popular.

O famoso quadro do gênio espanhol refletiu o absurdo da guerra de extermínio, a pequena cidade da Espanha bombardeada pelos aviões nazistas, que “treinavam” para a II Guerra Mundial. Animais e construções pulverizados pelas bombas, bois e cavalos fragmentados, o mundo feito em pedaços, o horror irracional revogando a civilização.

Sim, a civilização corre sério risco neste Brasil assaltado por uma ladroagem de casaca, o “horror” da pilhagem transformado em programa partidário.

Vamos eleger nosso Picasso para levar ao mundo o estandarte do protesto, nosso manifesto contra o Estado doentio, tirano, homicida.

Sim, homicida, porque o dinheiro roubado é subtraído à educação, à segurança, à saúde de um povo depauperado, vítima de gente que não sabe o que é honra.

O Brasil clama pelo espírito de Picasso, roga por uma Guernica moral. O povo pede um manifesto contra a roubalheira – e se recusa a aceitar essa “nova ordem” como se ela fosse natural. Mas as “bombas” não param de cair sobre o telhado da cidadania. É roubalheira todo dia, toda hora.

Nunca se viu tanto ladrão poderoso em todos – todos os partidos. Perderam o contato com a realidade. Líderes partidários vêm a público reclamar que estão sendo “maltratados”. Porque seus ladrões foram demitidos... Ministros de Estado, rindo, sustentam que a culpa é de porteiros “acolhedores”. Outros, como o chefe do “partido maior”, reclamam que os seus desonestos estão sendo tratados com maior rigor do que os desonestos dos outros.

Guernica. O Brasil transformado em mula sem cabeça da roubalheira institucionalizada. Políticos avisam ao governo, numa linguagem quase direta:

– Demitam nossos desonestos e vocês vão ver o que vai acontecer com o governo: não se vota mais nada no Congresso!

Guernica. Horror. Espanto. O voto parlamentar brandido como ameaça para assegurar a continuação da roubalheira. Já tinha visto ladrão confesso, ladrão preso, ladrão arrependido, ladrão cabisbaixo. Mas ladrão declarar-se “injustiçado” por não poder mais roubar é a primeira vez.

Ladrão é uma palavra interessante, nascida no latim arcaico. Latro, latronis designava aquele soldado do príncipe que ficava “ao lado”, para guarnecer o poderoso. Hoje eles estão por toda a parte, no Congresso, no governo, nos ministérios, no turismo, na agricultura, nas prefeituras, nas câmaras municipais – que desejam ampliar as bancadas dos seus “soldados”. Estão todos “inticando” com o povo brasileiro, debochando da moral social.

Já não fingem mais: ameaçam garantir o saque ao Tesouro com a “desestabilização” institucional. É a Guernica brasileira, em que o horror é o estelionato, a fraude, o “avanço” nos recursos do Estado.

É a besta fera da roubalheira querendo se apresentar como ”o regime oficial” – e democrático...

Guernica. A cidadania indefesa, esgarçada e exterminada pela cupidez da bandidagem. São prefeitos roubando recursos para socorrer flagelados de enchentes, são mandatários roubando a merenda escolar, ministros admitindo que toleram a roubalheira porque “respeitam os vínculos familiares e não querem criar constrangimentos”.

Nesta Guernica da roubalheira, os cavalos estilhaçados somos nós, os pagadores de impostos. A “aviação” dos ladrões não se cansa de jogar bombas nas reservas morais da nação ultrajada.

Vamos pintar e expor esta Guernica – mas também vamos cobri-la com o luto com o qual se costuma vedar a imagem do Senhor dos Passos durante o sacrifício do Calvário.

Um dia, voltaremos a descerrá-la, para comemorar a resistência

Sérgio da Costa Ramos é Cronista. Originalmente publicado no “Diário Catarinense” de 15 de agosto de 2011.

Um comentário:

Jairo Pessoa Guimarães disse...

Este artigo ou comentário do Sergio da Costa Ramos, deveria merecer o mais amplo compartilhamento e difusão. pois expressa o grande sentimento da maioria dos brasileiros. Escreveu por nós, com a arte precisa das palavras. A ampliação deste sentimento, precisa ser divulgada ao máximo, com a esperança que sejamos ouvidos.