terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sementes da Vida

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arlindo Montenegro

O sujeito acordava fora de hora, os miolos pulsando, a cabeça doendo com tantos sons e vozes desencontradas que deveriam ser expulsas como corrimento nasal ou diarréia. Lembrava aquele primeiro carnaval no Rio de Janeiro, no meio barulhento da Avenida Rio Branco, onde haviam instalado um alto falante em cada poste. A fantasia, apenas um short e uma toalha de rosto amarrada à cintura. A maratona festiva, melhor cansativa, incluía cheirar num lenço o lança perfume dourado da Rodhia, sentindo a língua grossa e o tum tum do samba preso na cabeça, querendo sair pelos ouvidos, pelo nariz e pelos olhos.

O cheiro de suor era fedor incômodo da micção de entranhas decompostas através dos poros e não adiantava querer esconder com leite de rosas ou alfazema. Cheiro bom era da cozinha da fazenda. Melhor ainda quando a gorda e andarilha comadre Totó chegava com a filha para “se arranchar e descansar uns dias” não se sabe de quem ou de que. O descanso mais parecia maratona de invencionices culinárias ao redor do fogão de lenha. Gulodices como aproveitar tomates para fazer doce. Doce de tomate! Já viu uma coisa dessas? E no fim era cheiroso e bom. Tachos de cobre brilhando, facas afiadas, abóboras e batatas, mangas e cajus, até quiabo virava doce.

Facas como aquelas também serviam para matar bois, porcos, galinhas e de vez em quando matavam gente, um bicho muito complicado e imprevisível! Quando acariciava ou lambia carregava sempre uma intenção secreta para reduzir, dominar, submeter o outro. Palavras e ações conduzindo para ringues, campos de batalha ou para as jaulas de cativeiro. Era um nó entender ou aceitar a opinião do outro. Pai e mãe regulavam o que fazer, como dizer, como sentar-se à mesa e empunhar os talheres ou mastigar de boca fechada.

Criança sentiu a liberdade correndo pelo pasto os pés descalços, observando vacas, passarinhos e cores da mata, enchendo as ventas com o ar sutil. Velho apenas podia reviver o passado, como num filme, observar os movimentos dos circunstantes e reconhecer as intenções por trás dos gestos e palavras de ignorantes ou de eruditos. Tudo farinha do mesmo saco! Aquela mesma gente que Deus se havia arrependido de ter criado, mandando um dilúvio. A próxima vez seria com fogo porque os descendentes de Noé continuavam na busca de controle e redução do outro à escala de servidão utilitária. Usavam de manha ou melindre, desprezo ou gesto amoroso, escondendo maioria das vezes uma porrada ou deboche.

O padrinho era carpina. Um homem moreno e silencioso de mãos grosseiras e músculos marcados, cobertos de pele lisa e brilhante, incapaz de matar uma mosca. Parecia conversar com vozes invisíveis que ensinavam o que fazer com a madeira bruta, como descobrir a beleza dos veios e dar formas retas ou curvas mais convenientes para montar a mesa, a cadeira, a cama, o berço. Abria o sorriso quando as pessoas admiravam o resultado final. Falava manso. Recebia o pagamento pelo trabalho e agradecia. Foi um homem livre e seu local de trabalho cheirava a cedro, angico e mel das abelhas que abrigadas nos troncos ocos pendurados no beiral da oficina.
A necessidade de ter sempre alguém por perto para ajudar a viver a vida foi reconhecida desde cedo. As pessoas tinham habilidades diferentes e tarefas repartidas para cozinhar, lavar, construir casas, tocar boiadas, tirar leite, fazer a manteiga, cuidar da roça e parir novas vidas. Cada um complementando a necessidade do outro. Tarefas compartidas. O pai mandava em tudo e em todos, mas também catava feijão, debulhava milho, selava o próprio cavalo e parecia sábio no exercício do poder que harmonizava os que fazeres. Tinha a resposta para todas as perguntas. Olhava para o céu e dizia: “amanhã vai chover!” e no amanhã, chovia.

A complicação do radio, carros, geladeira e bem mais tarde televisão que ele não conheceu, chegou bem antes dos computadores e celulares, satélites, haarp e. dependência do dinheiro do mundo todo açambarcado pelos banqueiros. O pai conheceu apenas o trabalho e a conseqüente dignidade afirmativa, que o distinguia como pessoa poderosa e confiável para meia dúzia de agregados, menos letrados e menos informados para lidar com os compradores de leite, vacas, burros, farinha, milho, feijão e produtos da roça, riquezas necessárias a todos.

O trabalho mantinha aquelas poucas famílias que viviam na “Floresta”, uma fazendinha tranqüila e bucólica que só registrou uma invasão de ladrões famintos. Na madrugada arrombaram a parede da sala, passaram para a despensa, comeram o que encontraram e deixaram as marcas da passagem no pátio cimentado: seis montinhos de excrementos, indicando a passagem de seis visitantes. De maldade ou gozação ainda despejaram um saco de farinha nos tambores de água que abasteciam a cozinha deixando um grande pirão que os pintos e galinhas aproveitaram.

O sono depois de um dia de trabalho era pesado. Somente a mãe notou um barulhinho que associou a ratos, talvez enchendo a pança com os papeis do escritório. Virou para o lado e continuou dormindo. Nada havia a fazer, nem ia matar ratos na madrugada, pois acabariam dizendo que ela tinha perdido o juízo. Severa com a organização da casa animava o dia com gargalhadas em meio aos fuxicos da mãe de Cícero, mulher do vaqueiro, ali na varanda na fresca da tarde.

No mais passava as horas na sala de costura, cuidando das rosas no jardim, futucando os canteiros da horta, caçando ninhos de galinhas, guinés e perus pelo pasto para recolher ovos. Um dia uma cobra ameaçadora levantou-se, que nem ficando de pé, dançando diante dela. E não havia ninguém por perto para acudir. Só Deus! Tacou a cesta com os ovos na cara da cobra e saiu correndo sem olhar pra trás.

O mesmo Deus invisível e presente em todas as coisas e em todos os pensamentos, para frear a perversidade do diabo solto que nem moleque traquino, mexendo e bagunçando a cabeça da gente, já deve estar preparando a chuva de fogo, que a terra parece uma arapuca. Um terreno inóspito para as sementes da vida e da alegria.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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