domingo, 23 de outubro de 2011

Comissão da Hipocrisia

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Marco Antonio Esteves Balbi

No final do dia 19 de outubro de 2011, repassei aos meus correspondentes o link de uma notícia da página do Senado Federal, relatando a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça, do projeto de lei da Comissão da Verdade, de autoria do Executivo e já aprovado na Câmara dos Deputados.

Disse naquela oportunidade que a luta continuava, embora não soubesse bem como. Será que é possível sustar a votação em caráter de urgência/urgentíssima no plenário do Senado na próxima semana? Será que, em sendo aprovado e depois de sancionado pelo Executivo, poder-se-á apresentar alguma medida judicial que impeça o seu funcionamento?

Enquanto divagava nos meus pensamentos, eis que um antigo e experiente chefe militar, respondeu a minha mensagem e me chamou a atenção para o largo sorriso que estampava o rosto do relator, o Senador Aloysio Nunes Ferreira, na fotografia que ilustrava a matéria. E lembrava um pequeno detalhe do currículo do Senador: o assalto ao trem-pagador da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

O Brasil é mesmo o país da piada pronta. Não se passa um dia sequer sem que se comprove a assertiva. Acolhemos todo o tipo de bandido e deportamos outros nem tão culpados assim, dependendo da ideologia.

Lembram-se de Ronald Biggs que chegou a ter vida de celebridade aqui entre nós, sendo um renomado assaltante de trem?

Bom, fiz esta digressão no parágrafo acima para dizer que o Senador Aloysio Nunes Ferreira foi elogiado pelos seus pares, de acordo com a matéria a qual me referi, por "ter sido vítima da repressão, tendo sido perseguido por sua militância política e obrigado a sair do país".

Vejamos como se deram estes fatos, em especial para conhecimento dos jovens. E para eles vou citar que as fontes estão disponíveis em qualquer site de buscas. Começou a militância política em 1963 quando entrou na Faculdade do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Logo depois da revolução de março de 1964, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) que atuava na clandestinidade.

Como o PCB se opunha à luta armada Aloysio Nunes, assim como vários jovens da época que tinham ideais esquerdistas, ingressou na ALN -Aliança Libertadora Nacional, organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo.

Assumiu na clandestinidade o pseudônimo Mateus. Durante muito tempo foi motorista e guarda-costas de Marighella. As ações da Aliança Libertadora Nacional incluíram assaltos para angariar fundos que sustentariam a luta armada. Em agosto de 1968, Aloysio Nunes participou do assalto ao trem pagador da antiga Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Segundo relatos da imprensa da época, a ação ocorreu sem que houvesse o disparo de qualquer tiro.

Aloysio Nunes foi o motorista do carro no qual os assaltantes fugiram do local com os malotes que continham NCr$ 108 milhões(US$ 21.600), dinheiro suficiente para o pagamento de todos os funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Em outubro do mesmo ano, participou do assalto ao carro-pagador da Massey-Ferguson, interceptando o veículo na Praça Benedito Calixto, no bairro paulistano de Pinheiros.

Sofrendo um processo penal em que já havia um pedido de prisão preventiva e com a possibilidade de que descobrissem algo sobre suas ações armadas, foi enviado a Paris por Marighella utilizando um passaporte falso. Foi posteriormente identificado como guerrilheiro e condenado com base na extinta Lei de Segurança Nacional. Tornou-se representante da Ação Libertadora Nacional no exterior e coordenou as ligações desta com movimentos de esquerda de todo o mundo. Filiou-se ao Partido Comunista Francês em 1971 e negociou com o presidente Boumedienne, da Argélia para que brasileiros recebessem treinamento militar de guerrilha naquele país.

Pôde, finalmente em 1979, regressar ao Brasil devido à promulgação da Lei de Anistia, a qual beneficiou todos que cometeram crimes políticos de qualquer tipo.

Agora me respondam: as assertivas dos atuais pares do Senador Aloysio Nunes Ferreira, colocadas entre aspas alguns parágrafos acima, guardam alguma relação com o que aconteceu?

A organização que o Senador pertenceu, chefiada por Marighella e Toledo, foi uma das mais violentas das que atuaram no país e contra a qual as Forças de Segurança tiveram que se contrapor. Notem que em 1968 nem mesmo o "famigerado" AI-5 havia sido promulgado. O Minimanual do Guerrilheiro Urbano de autoria de Marighella foi obra de referência para organizações terroristas do mundo inteiro.

Para finalizar eu pergunto: como acreditar na lisura do trabalho de uma comissão umbilicalmente ligada à Casa Civil, cujos membros serão todos indicados pelo Executivo? Por mais que as declarações sejam concedidas de que só querem conhecer a verdade, como acreditar se até o que já está sobejamente comprovado é deturpado? Será, na melhor das hipóteses, uma comissão da hipocrisia!

http://www.senado.gov.br/noticias/comissao-da-verdade-e-aprovadapela-ccj-e-segue-para-plenario.aspx

Marco Antonio Esteves Balbi é Coronel na Reserva do EB.

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