sábado, 15 de outubro de 2011

Os BRICS e a descolonização inconclusa

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Geraldo Luís Lino

Em uma reunião realizada em Moscou, no domingo 4 de setembro, os chanceleres russo e brasileiro, Sergei Lavrov e Antonio Patriota, discutiram vários temas de grande relevância não apenas para as relações bilaterais, mas também para o tormentoso cenário global. Segundo o sítio Diário da Rússia (4/09/2011), o convite para a visita teria partido de Lavrov. Como a visita não foi comentada no sítio do Itamaraty, foi preciso recorrer a várias fontes para se conhecer os assuntos nela tratados.

Na reunião, realizada em meio a um boicote russo às importações de carne suína brasileira, que já dura um mês, Lavrov e Patriota preferiram deixar o problema para as repartições especializadas dos dois governos e se concentraram em temas mais amplos. Entre eles, na área comercial, o estabelecimento de um sistema de pagamentos bilaterais com o uso das respectivas moedas nacionais, que poderá proporcionar uma importante alternativa ao uso do dólar estadunidense nas transações bilaterais.

Sem dar detalhes, Lavrov afirmou que os entendimentos para a criação do mecanismo estão em andamento e completou: "Nós compartilhamos o entendimento sobre a necessidade de diversificar as nossas parcerias econômicas. Concordamos sobre a necessidade de maior ênfase em projetos promissores na área de alta tecnologia. Estamos falando de áreas como espaço, energia, incluindo a atômica, setor de gás e petróleo, nanotecnologias, biotecnologias e agricultura (Diário da Rússia, 5/09/2011)".

Na entrevista coletiva após a reunião, Lavrov deixou claro que os dois países estão articulando uma posição comum para a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde deverão ser tratados temas espinhosos como o pedido de reconhecimento do Estado Palestino, ao qual tanto Moscou como Brasília já manifestaram apoio.

Igualmente, o chanceler russo manifestou que os países do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) não pretendem deixar que o cenário da Líbia se repita com a Síria. "Se os países do BRICS tiverem algo a ver com isso, o cenário líbio não será posto em prática na Síria. afirmou (Russia Today, 5/09/2011).

O mesmo recado já havia sido transmitido anteriormente pela Rússia e a China, os dois membros mais poderosos do BRICS, que anunciaram a intenção de vetar quaisquer sanções adicionais que sejam apresentadas ao Conselho de Segurança da ONU, como pretendem países europeus, como a França e o Reino Unido, e os EUA. Mas os outros três integrantes do grupo não têm sido menos ativos, tendo enviado no mês passado uma delegação tripartite a Damasco e manobrado ativamente no Conselho para impedir ações mais agressivas contra o regime de Bashar al-Assad.

Aliás, a presença simultânea de todos os membros do BRICS no Conselho de Segurança (com África do Sul, Índia e Brasil, nos assentos rotativos) tem proporcionado ao grupo uma importante oportunidade para demonstrar o seu peso crescente no cenário global. Alguns observadores chegam a ver o grupo como um importante contrapeso a agenda hegemônica das grandes potências ocidentais. Um deles é o Dr. Sreeram Chaulia, professor da Escola Jindal de Assuntos Internacionais indiana, para quem o BRICS extraiu as devidas lições da crise na Líbia: “É importante que as nações do BRICS mantenham essa atitude, uma frente unificada, e tentem evitar as resoluções da OUN, bem como sanções multilaterais que possam ser a avalanche que provoque uma nova guerra de grandes proporções e outro grande imbróglio no Oriente Médio... Precisamos evitar isto e a única maneira de fazê-lo é se os BRICS mantiverem uma frente unida. É necessário contestar as ambições hegemônicas (Russia Today, 5/09/2011).”

Chaulia acredita que, devido ao importante papel desempenhado pelo Irã junto ao regime sírio, seria fundamental que o BRICS se articulasse com Teerã, para que houvesse uma "transição pacífica de poder" e uma guinada democrática, que, segundo ele, é a mensagem que o grupo está transmitindo. "E, de fato, esta é uma mensagem melhor que a do 'método do porretão', de impor sanções imediatas para 'salvar vidas', de que os europeus e estadunidenses estão falando", disse ele.

Para o analista indiano, o exemplo da Líbia sugere o cenário de uma "nova era neocolonial", que precisa ser evitado, e o BRICS representa um microcosmo do movimento rumo a um genuíno mundo multipolar. E isto "não é uma questão de projeção de poder no terreno", mas de atitudes construtivas como a que o grupo vem demonstrando, em especial, negociações de bastidores.

Como seria previsível, a movimentação do grupo está incomodando bastante as capitais da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), principalmente, Washington. Em entrevista à agência Bloomberg (13/09/2011), a embaixadora estadunidense nas Nações Unidas, Susan Rice, não escondeu a irritação com as manobras contrárias ao reforço das sanções contra Damasco, no contexto do fato de o Brasil, Índia e África do Sul serem candidatos a membros permanentes do Conselho de Segurança. Sem meias palavras, disse ela: “Tem sido uma oportunidade muito interessante de ver como eles respondem aos assuntos do dia, como se relacionam conosco e com os outros, como agem ou não agem de forma consistente com as suas próprias instituições democráticas e valores declarados. Deixe-me apenas dizer, temos aprendido bastante e, francamente, nem tudo é animador.”

Rice é contestada por Fabienne Hara, vice-presidente de Assuntos Multilaterais do International Crisis Group, que considera a crítica simplista e afirma que os três países "ficaram bastante surpresos com o fato de que isso acabou se tornando uma operação liderada pela OTAN, com uma campanha de bombardeios a uma variedade de alvos, inclusive Trípoli". Por isso, "eles ficaram extremamente relutantes em autorizar qualquer tipo de resolução que pudesse ser o primeiro passo para outra intervenção ocidental".

A despeito de suas grandes diferenças e agendas não raro conflitantes, o BRICS parece estar "tomando gosto" pela atuação em conjunto. Outro exemplo é a reunião dos ministros da Fazenda e presidentes dos bancos centrais do grupo, que será realizada em Washington, em 22 de setembro, na qual pretendem avaliar uma ação conjunta de apoio à cambaleante economia global, em particular, da União Europeia. Segundo o Valor Econômico de 13 de setembro, uma das medidas em estudo é a utilização de parte das reservas internacionais do grupo para a aquisição de títulos denominados em euros. Evidentemente, o papel maior de uma tal iniciativa caberia à China, com suas colossais reservas superiores a 3 trilhões de dólares, mas uma ação do gênero, como ressaltou o correspondente Assis Moreira, ilustra as mudanças em curso no cenário mundial.

Iniciativas como essa têm um grande potencial para reforçar a disposição do BRICS para atuar como uma força positiva para a superação da crise sistêmica global, contribuindo poderosamente para a construção de uma agenda cooperativa para a reconstrução da economia mundial e o enterro definitivo do processo de descolonização que ficou inconcluso.

Geraldo Luís Lino, Geólogo, é diretor do Movimento de Solidariedade Ibero-americana e autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial (Capax Dei Editora).

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