domingo, 9 de outubro de 2011

Tráfico de drogas, municípios e prevenção

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Cesar Maia

Na sessão inaugural da ONU, Obama tratou do Afeganistão, Iraque, Palestina, Líbia, Tunísia, Egito, Síria, Iêmen, Costa do Marfim e outros conflitos, só não tratou da tragédia latino-americana do tráfico de drogas. Ban Ki-moon, simultaneamente, publicou artigo em vários jornais do mundo. Tratou da agenda global em 5 etapas: desenvolvimento sustentável, prevenção para a paz, defesa da democracia, apoiar transição nos países árabes e apoio as mulheres e jovens. Só não tratou de nossa tragédia. Dilma, presidente do Brasil, tratou de um novo Estado Palestino, da falta de coragem política dos governantes para enfrentar a crise europeia. Só não tratou de nossa tragédia.

São 420 mil homicídios por ano no mundo. 130 mil na América Latina. 9% da população mundial e 31% dos homicídios. No Brasil são 44 mil, fica na média da AL de 23 homicídios por 100 mil habitantes. Honduras 82, El Salvador 66, Venezuela 49, Belize 42, Colômbia 33, México 18... O crime é cada vez mais juvenil. No Brasil, entre 15 e 24 anos (18% da população), 40% das mortes nesta faixa de idade são homicídios. Nas demais idades 1,8%.

No Sudeste do Brasil os homicídios caíram pela metade nos últimos 10 anos. No Nordeste, mais pobre, mais que duplicou, cresceram 110%. A razão: o corredor de exportação de cocaína para a Europa é agora pela África ocidental, frontal ao Nordeste. A taxa de homicídios de jovens em Alagoas -nordeste- é de 125/100 mil jovens. Em Maceió, sua capital, é de 250.

Nas comunidades onde a violência criou uma situação de anomia, a equação inverteu. Não é a pobreza que induz a criminalidade, mas é a criminalidade que induz a pobreza. Isso se mede pelo desemprego e pela evasão escolar. Um jovem - quando se incorpora ao tráfico de drogas, que no caso do Brasil se caracteriza pelo varejo, - muito dificilmente se reintegra.

Nesse sentido, as ações dos governos municipais devem ser preventivas. Prevenção primária, secundária e terciária. Primária é a retenção do jovem na escola, tornando-a mais atrativa e menos seletiva. Destaco Paulo Freire e Darcy Ribeiro com o sistema de ciclos. Destaco também a importância da pré-escola (4 e 5 anos), que insere a criança no mundo da disciplina e da ordem e desenvolve sua atenção a comunicação oral. Isso eleva a escolaridade posterior. Prevenção Secundária são os programas voltados para o grupo de risco, os jovens, através do esporte e das artes que provocam a sensação de mobilidade social. E a volta à escola para os que se evadiram, com cursos curtos de formação.

A prevenção terciária é a prevenção às drogas nas escolas, nas comunidades, incluindo a família, com dados que permitam identificar sinais iniciais. A mãe, especialmente. No Rio, em mais da metade das famílias pobres o chefe da família é a mulher. E, finalmente, ordem urbana em relação às posturas municipais na ocupação das ruas, incluindo o trânsito.

Claro, cabendo às autoridades nacionais e estaduais/provinciais a repressão eficaz ao crime organizado. Bogotá e Medellín mostraram isso: a sinergia entre uma ação policial eficaz contra o crime organizado e as políticas sociais preventivas e inclusivas. A eficácia e simultaneidade de ambas reduziu e reduzirá os prazos para que essa tragédia saia progressivamente de nossos palcos.

O esquecimento da Dilma

A ansiedade em se parecer com os presidentes dos países do G-8 levou a presidente do Brasil a tratar dos assuntos que aqueles tratam e de estimular aplausos para seu próprio ego. O champanhe aberto depois do discurso, no hotel, sublinha isso. Opinou sobre a complexa questão do Oriente Médio, deu um "puxão de orelha" nos presidentes dos países centrais que não demonstram capacidade política para enfrentar a crise.

Mas se "esqueceu" do flagelo que afeta a América Latina: o tráfico de drogas e o crime organizado. E suas consequências entre os jovens brasileiros: 35 milhões de jovens entre 15 e 24 anos, ou 18% da população. Entre os nossos jovens, os homicídios são responsáveis por 37% das mortes naquela faixa de idade. Nas demais faixas de idade (não jovens) são 1,8% das mortes. Em números absolutos são 18 mil, sendo 50% nas regiões metropolitanas só das 10 principais capitais.

Entre os jovens de 15 a 24 anos a taxa de homicídios é de 53 por 100 mil jovens nesta faixa de idade. Entre 19 e 23 anos esse número sobe para 60 por 100 mil. Essas taxas dobraram em 20 anos. Nas demais idades (não jovens) a taxa permaneceu estática. O total de homicídios no Brasil alcança 50 mil por ano. A taxa brasileira é de 27 por 100 mil. Nas capitais, 37 por 100 mil. Entre os jovens, em Alagoas 125 e em Maceió 250 por 100 mil jovens.

Todos sabem que tais taxas bélicas de homicídios se devem ao tráfico de drogas. No Nordeste, o número de homicídios de jovens cresceu 110% em 10 anos. No Sudeste, caiu a menos da metade do que era 10 anos atrás. As razões são conhecidas: o corredor brasileiro de entrada de cocaína na Europa passou a ser feito pela África Ocidental. Guiné é hoje um narco-Estado. O tráfico Brasil-África mudou de nome e de tragédia.

Mas Dilma preferiu tratar do Oriente Médio e da aptidão política dos líderes mundiais. No Iraque, a partir do momento do início da guerra, em 2003, até hoje foram 600 mil mortos. Se usarmos o número de mortes pelos confrontos que em 2010 foram 3.500 e projetarmos em mais 4 anos, o número de homicídios no Brasil terá ultrapassado todas as mortes de guerra e de confrontos no Iraque no mesmo período, de 2003 para a data. No Brasil, naquele período (2003-2011), foram 450 mil, sem aviões, mísseis, tropas, atentados ou carros bomba.

Dilma não estava só na ONU. Obama e Ban-Ki-Moon, secretário geral da ONU, não ficaram atrás.

Cesar Maia, Economista, foi Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro. Apresentação na cidade do México, em reunião da ODCA (no último dia 5 de outubro de 2011).

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