Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Romano Allegro
O Óbvio Ululante (personagem evocado pelo centenário imortal Nelson Rodrigues) nem sempre é ouvido e praticado corretamente no mercado. Certas coisas que deveriam ser óbvias acabam dando margem a discussões e interpretações absolutamente sem sentido, sempre de acordo com agendas (mal) escondidas. É o caso da discussão sobre a atuação do BNDES e dos fundos de pensão de empresas estatais na assembleia de empresas controladas pelo governo.
Fundos de pensão de estatais podem ser considerados minoritários de empresas ligadas ao governo? Primeiramente, a resposta já foi dada pelo regulador, e é NÃO. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) se manifestou nos casos Mendesprev e Sergus, no sentido de que uma entidade fechada de previdência privada não pode ser considerada minoritária na assembleia de sua patrocinadora, se restar comprovado que a governança daquela tem influência desta. O primeiro caso, inclusive, foi plenamente ratificado pelo “Conselhinho”, encerrando assim a discussão na esfera administrativa.
Os maiores fundos de pensão de estatais têm virtualmente a mesma estrutura de governança: um conselho deliberativo de 6 membros, com representação paritária entre participantes e patrocinadora, mas com a presidência cabendo a esta última. Com a presidência vai o voto de minerva, que garante à patrocinadora a prevalência nas decisões. Ou seja, no final das contas, quem manda é o governo.
Mas essa discussão formal, embora cristalina, deveria ser irrelevante frente a um argumento ainda mais forte. Como dizia Doutor Ulysses Guimarães - “ Sua Excelência, o Fato”.
E o fato é que até mesmo as areias do Mourisco, as pedras da Rua do Ouvidor e as janelas espelhadas de Brasilia sabem exatamente quem dá as cartas nos fundos de pensão de estatais: é o Governo Federal ! Alegar o contrário é insultar a inteligência da contraparte – e não precisamos ir além da última sucessão na Previ para termos prova disso. Isto é o que alguns redatores neste site Alerta Total chamam de “Capimunismo”: o Estado e seu governo interferindo sempre e diretamente nas decisões econômicas, principalmente das grandes empresas privadas ou de economia mista.
No caso da Petrobrás, é sabido que os conselheiros eleitos pelos fundos estatais foram convidados para esta função diretamente pelo governo. E embora sejam brasileiros de ilibada reputação, não podem ser considerados independentes na função de conselheiros da Petrobrás. Antes terem deveres fiduciários em relação a esta, devem fidelidade às suas respectivas organizações – que também são empresas abertas com acionistas minoritários. Não é por outra razão que os conselheiros ditos independentes aprovaram a capitalização da Petrobrás, que tantos prejuízos gerou a seus acionistas.
No mais, alegam-se factoides para sugerir que os fundos poderiam votar como minoritários – subtraindo assim dos minoritários legítimos – inclusive eu e você – a prerrogativa de eleger administradores verdadeiramente independentes.
Factoide 1: a natureza de direito privado dos fundos de pensão – fato pacificado, que provavelmente é alegado na página aí ao lado. Trata-se de discussão absolutamente irrelevante para a determinação da natureza dos fundos de pensão como minoritários. São entidades de direito privado sim, mas têm seus desígnios determinados nos gabinetes de Brasilia.
Factoide 2: a abstenção, mandatória ou voluntária, de conselheiros eleitos pela patrocinadora. A abstenção dos administradores não afasta a ligação estrutural entre os fundos de pensão, estatais e, consequentemente, governo. Ilustrando: uma abstenção da Sra. Maria das Graças Foster de deliberação do conselho da BR Distribuidora não muda o fato de que esta é uma subsidiária da Petrobrás. Da mesma forma, a abstenção de um diretor da Petros nomeado pela Petrobrás não elimina sua condição de parte relacionada – o que aliás é reconhecido até mesmo no balanço da Petrobrás.
É triste que o óbvio precise ser dolorosamente defendido para finalmente se impor. A inação da CVM em casos como a assembleia da Petrobrás, e a incapacidade de investidores institucionais em acionar a Justiça para fazer prevalecer a verdade colocam em xeque a essência dos freios e contrapesos que deveriam ser a base de nosso mercado de capitais.
Enquanto prevalecer o modelo capimunista, os grandes lesados são os investidores minoritários que ainda apostam em ganhos com atividades empreendedoras – cada vez mais inviabilizadas no Brasil em que o governo tudo se mete, abusa de corrupção e pratica o confisco direto da renda da sociedade com os impostos extorsivos. A Especulação, a Politicagem e a Roubalheira não podem vencer aqueles que são honestos e acreditam em investimentos produtivos.
Romano Guido Nello Gaúcho Allegro, Presidente do Instituto Brasileiro de Ativismo Societário e Governança, é Administrador especializado em mercado de capitais.
Um comentário:
Os nossos vampiros, claro, só podiam ser políticos!
Vergonha nacional e internacional. Quando não roubam dinheiro, roubam sangue.
Já fui dador. Ainda bem que acabei!
"(...)
Os ex-ministros da Saúde Humberto Costa e José Gomes Temporão, além do atual ministro, Alexandre Padilha estão metidos num negocio escabroso de sangue humano.
Humberto Costa quer ser prefeito do Recife e em 2014, governador.
Antes de deixar o cargo em 2005, Costa criou a Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados (CGSH) e mandou fazer nova licitação, engavetada nas gestões-tampão dos peemedebistas Saraiva Felipe e Agenor Álvares e retomada apenas no final de 2007, por José Gomes Temporão. A licitação lançada por Temporão foi vencida pela francesa LFB e o contrato previa o fornecimento de hemoderivados e a transferência da tecnologia de fracionamento do plasma para a Hemobrás, estatal criada por Costa em 2004 e que até hoje não saiu do papel. "Contratamos a empresa numa licitação transparente", afirma Temporão, que diz desconhecer o carregamento de plasma vencido.
(...)"
http://www.pbacontece.com.br/Portal/categorias/brasil/item/3942-governo-deixa-estragar-55-mil-bolsas-de-sangue-escondidas-em-dep%C3%B3sito-denuncia-revista
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