sábado, 6 de outubro de 2012

A história e a matemática

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por José Carlos Leite Filho

Não faz muito tempo, ao tentar entabular uma conversa com um diplomando universitário carioca perguntei-lhe o que sabia da Guerrilha do Araguaia. A sua resposta foi surpreendente: “nada, nunca ouvi falar”. E a conversa não prosperou.

Justifico assim a necessidade de uma regressão histórica para o assunto que pretendo abordar. Nas décadas de 50 e 60, tempo da “guerra fria”, dois países disputavam a supremacia mundial liderando blocos distintos de nações; de um lado, os Estados Unidos, defensor da democracia e, consequentemente, das liberdades e dos direitos humanos; do outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), buscando um utópico expansionismo comunista, sistema que longe de justificar a predominância do estado sobre a iniciativa privada mostrou-se sanguinário e opressor, ceifando vidas dos seus opositores.

Foi a época dos “paraísos” da Alemanha Oriental, com o seu triste Muro de Berlim, e de Cuba, do ditador Fidel Castro, onde se chegou até a construir, secretamente, sob o patrocínio soviético, uma infraestrutura de base de mísseis visando um ataque aos Estados Unidos.

Hoje, a história é outra. A URSS esfacelou-se, junto com a maioria dos seus satélites, e os defensores do comunismo, por um desbriado mimetismo político, tornaram-se soi-disant amantes da liberdade e da democracia, com exemplos vários nos esquerdistas brasileiros, preferencialmente ditos socialistas, esquecidos dos caminhos percorridos que os levaram à luta armada com a prática de crimes diversos, tais como o terrorismo e outros conexos já que, para eles “os fins justificam os meios”.

A implacável derrota, aqui também ocorrida, mercê de ações legais repressoras, em especial de combatentes do Exército, parece não ter gerado penitentes, mas sim ressentidos rancorosos que vêem no momento político uma boa oportunidade de reescrever a história e dela ainda auferir um multifacetado bônus. Essa proveitosa mudança impõe uma justificativa adequada e daí o uso de procedimento matemático nos registros históricos com a troca de sinais nos fatos passados.

Para tanto, a mentira passou a ocupar espaço nos pronunciamentos e nas ações governamentais, deturpando os fatos e, intensamente repetida, pretendendo se tornar verdade. E assim nasceu a novel “Comissão da Verdade”(sic), com armação unilateral, pretensiosa, sem isenção e desavergonhada, mas com retrato oficial de essencial.

Em boa hora acontece o julgamento do “mensalão”, no Supremo Tribunal Federal, escancarando que os nossos socialistas, à frente o mais recente ex-presidente da República, não têm limite no jogo sujo do poder que tanto procuraram esconder e apontar como uma invenção dos seus opositores.

Como arremate para os incrédulos, basta lembrar que os nossos aguerridos guerrilheiros optantes da luta armada tinham como principais coiteiros e conselheiros a URSS, Cuba, China e Albânia, de onde nada era importado a não ser um fracassado treinamento paramilitar, fruto de uma perversa ideologia comum. Talvez esse remexer no passado possa justificar os privilegiados vínculos diplomáticos e laços de amizade até hoje mantidos pelo governo brasileiro e por destacados personagens de nossa vida política, notoriamente José Dirceu e Marco Aurélio Garcia, com regimes autoritários e ditatoriais, em especial Cuba distante faz mais de meio século da democracia.

E a Guerrilha do Araguaia? Espero, para uma conversa futura, que os que se dizem interessados na busca da verdade, além de falar em mortos e suas ossadas, como lhes é gratificante, não se furtem a registrar o que lá foram fazer aqueles pelos quais os sinos dobram, sem menção às ações de plantar, pescar, nem muito menos rezar, e respondam às inquietantes questões: quem escolheu a rarefeita e longínqua área e com que propósito?

José Carlos Leite Filho é General de Exército na reserva – linsleite@supercabo.com.br – Originalmente publicado em “O Jornal de Hoje”-Natal-RN-de 04/10/12)

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