sábado, 27 de outubro de 2012

VIDROMOLE

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arlindo Montenegro

Melhor escrever assim, como a coisa é. Pasta. Dejeto fétido. Um professor de latim vivia repetindo: “Qui bene olet, male olet” – o que se pode traduzir como “quem cheira, fede”; que nem aquele casal português em Angola, quando as nativas de uma tribo, sem saber que os visitantes conheciam o dialeto swali, referiam-se ao perfume francês que a européia exalava: “Como fede, esta branca!”

Então, a família chegou ao sitio cedinho. Desta vez trazendo a Lua madura, para o abraço envolvido por 20 anos de ternura. Uma Cris incrivelmente magra e rejuvenescida. Um Gu sem barriga!! E a Ma com permanente sorriso tímido e cativante, corujando a florescente. beleza da cria, Ju. Finalmente o mais jovem ente familiar, em sua forma canina irrequieta, Lola, responsável pela armadilha de vidromole que acabou ferindo o tênis novo.

O sentido do olfato, excitado por emanações invisíveis dos elementos naturais, apenas avisa da presença do que deve ser evitado. Como tênis não sentem cheiro... Coitados! Cumprem sua tarefa de carregar peso que nem burros de carga, guiados e inocentes quanto aos perigos do caminho.

Silenciosamente o vidromole vingou-se da pisada e o Gu sentiu o incômodo. Se fosse uma pessoa estressada teria proferido um “puta merda!” Apenas recorreu à água que recuperou a dignidade odorífera do tênis, adubando um traço de grama.

Depois da refeição à sombra do bambuzal, o passeio até a cachoeira para uns abriu espaço para o sono de outros, interrompido pela rezinga dos caninos, pelo canto do galo e alvoroço das galinhas que, naquele dia, puseram mais ovos que de costume.

Talvez as galinhas foram movidas pela energia do momento de encontro que alimenta a alma da gente, confirmando as poucas certezas da fraternidade essencial que suscita a generosidade do amor, espontâneo, fortalecendo a fortuna de viver.

Na contramão do que se concebe no imaginário comum, melhor ficar com a sabedoria popular que afirma: “o céu e o inferno estão aqui mesmo”, diferente do que ensinam as autoridades religiosas, apontando um local ignoto.

O bem estar, a felicidade, o poder que aflora da reunião de espíritos em convívio amoroso, revela para alguns, que concebem a presença do espírito do universo em cada mente, coração, alma... Conectada à fonte de energia cósmica.

Poucos dias antes um daqueles representantes religiosos havia cobrado do morador, bem ali na cancela, uma visita à sua igreja. O matuto, risonho, traçou no espaço um arco, como abraçando toda a natureza e disse: “Pastor, aqui está minha igreja.” O visitante baixou a vista e comentou:

- Eu o invejo. Queria poder estar neste paraíso.

- Liga este rádio do carro aí.

O outro ligou a aparelho, mudou de canais, num desfile de músicas e falas, até que surgiu um idioma estrangeiro e a informação do orgulhoso proprietário:

- É bem potente. Pega emissoras até do exterior. Ganhei de presente.

-Também tenho um presente para o senhor – disse o matuto e entregou uma caixa com abobrinhas, couves, beringelas e alfaces recém colhidos.

O homem agradeceu e foi-se envolvido pelos sons do rádio e barulho do motor. O matuto voltou aos afazeres, pensando que a gente nascia com um espírito transmissor/receptor permanentemente ligado à estação transmissora da Inteligência Cósmica.

Naquele dia, entre pessoas tão queridas, pareceu-lhe que todas estavam conectadas na mesma faixa receptiva, embalados na audição da orquestra dos sons do Universo.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

Nenhum comentário: