sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma nova ponte de Cassandra



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Valdesio Guilherme de Figueiredo

O filme Le Pont de Cassandra (The Cassandra Crossing), de George Pan Cosmatos, foi lançado pela MGM em 1976. No enredo, os passageiros de um trem transcontinental de luxo foram infectados por um grupo de terroristas com um virus letal muito contagioso.

O coronel Stephen Mackenzie (interpretado por Burt Lancaster) decide desviar o trajeto para que os passageiros sejam conduzidos para um centro de descontaminação. Mas, no novo percurso existia uma ponte desativada e velha.

O suspense está na consequência da decisão tomada: caso a ponte não resistisse, todos morreriam e a tragédia refletiria negativamente sobre os objetivos do movimento terrorista.

Limitarei meus modestos comentários somente à situação brasileira, deixando de lado os países vizinhos da América do Sul os quais, hoje, nem sei se poderia chamá-los de amigos.

Vivemos um Brasil sem terremotos, maremotos, outros abalos sísmicos ou inclemência de clima, mas sem segurança, sem saúde, sem ensino de qualidade, sem moradia e alimentação dignas e sem respeito à propriedade.

O noticiário brasileiro está, diariamente, repleto de mortes de jovens por troca de um celular, acidentes que vitimam dezenas de pessoas devido ao mau estado das rodovias, ou falta de fiscalização nelas e balas perdidas partidas de troca de tiros entre traficantes de droga, ou mesmo entre policiais e marginais, que sacrificam inúmeros cidadãos.

Ainda que a Constituição da República prescreva que o Estado é responsável pela segurança do cidadão, já se troca segurança pública por defesa social, à revelia da Carta Magna. Ora, a segurança é abstrata (sensação ou estado), enquanto a defesa, por ser uma ação, é concreta.

E onde estão ambas?

Diremos que o país é grande demais para ser policialmente mobiliado de forma adequada, ou que a falta de segurança é fruto de uma campanha difamatória e desmoralizadora das polícias?

No campo do ensino os professores são mal pagos e pouco motivados. Particularmente no estudo da História do Brasil aplicam um processo pedagógico de forma ideologizada e unilateral, mostrando uma versão dos fatos sob a ótica da elite dominante, em livros escolares estrategicamente distribuídos pela rede pública, cujo objetivo explícito é mostrar as ações históricas à juventude estudantil apenas na interpretação do lado “vencedor”.

O sistema de saúde pública funciona precariamente em hospitais, postos e unidades com escasso número de médicos e em uma estrutura inadequada.

Quem vai querer seguir a profissão médica com os salários calculados em cima das tabelas do SUS?

Ainda bem que o brasileiro tem índole pacífica, nada semelhante aos seus semelhantes do Oriente Médio, ou do norte da África. Creio que as autoridades brasileiras responsáveis pelo estabelecimento das medidas políticas de garantia dos direitos fundamentais estejam até com uma ponta de inveja dos irmãos muçulmanos.

Guerra civil, ou rebelião em curso sob as vistas da ONU e da OEA, preocupada com a morte de um cadete, ou com a extinção de polícias militares?

Aliás, as condições sob as quais o cadete faleceu, são as mesmas pelas quais passaram centenas, ou milhares, de jovens com vocação para a carreira militar.

Vamos, portanto, homenagear não somente um, mas todos os que pereceram, ao longo dos anos, quaisquer que tenham sido as condições, durante a realização dos cursos Básico e das Armas e Serviços.

Nunca é demais relembrar alguns conceitos bélicos, como por exemplo:

“Rebelião é o levante de populares, espontaneamente ou conduzido pelas circunstâncias, contra o governo, as autoridades, ou a ordem estabelecida, com o fim de impedir a execução ou o cumprimento de atos administrativos, legislativos ou judiciais, ou desobedecer aos mesmos.”

Fala-se muito em garantia dos direitos humanos. Quem poderá defendê-los? Os responsáveis por isso os desrespeitam através da corrupção, surrupiando os recursos públicos destinados à educação, saúde, moradia e segurança, como que à mão armada.

E a garantia ao direito de propriedade, aliada à proteção do meio ambiente?

Estes vêm sendo desrespeitados sob as vistas complacentes dos órgãos de controle político.

Sabem como são procedidas as invasões na Amazônia? Os grupos invasores atacam através da zona de preservação das fazendas, cortando toda a madeira de lei encontrada e, depois, avançam contra a sede onde se encontram as famílias, estuprando as mulheres e matando a criação indiscriminadamente. Isto já aconteceu até em propriedade particular de um presidente da república.

Seria o caso, talvez, de a Comissão da Verdade apurar os delitos cometidos por autoridades contemporâneas contra a sociedade brasileira, que vêm aplicando uma tortura branca ao negar-lhe os direitos fundamentais sob o desvio dos recursos do erário para tal garantia?

Submeter a população à falta de saúde, de ensino e de moradia digna seria uma forma de tortura?

Gostaria de saber!

Mudando de assunto, vemos a aplicação das atribuições de autoridades brasileiras no sentido de revanche, ou de vingança, contra ações praticadas pelas Forças Armadas sob a égide da Constituição vigente à época.

Será ainda atribuição das Forças Armadas a garantia dos poderes constituídos, da lei e da ordem, ou isto é coisa do passado?

E tudo vem acontecendo na intenção, creio eu, de esvaziar a autoridade do Comandante do Exército, atribuindo-lhe uma submissão à “ordem vermelha”. Gostaria de lembrar, particularmente aos militares, que o Comandante do Exército não decide sozinho; existe a seu lado um Alto Comando formado por generais de exército, não um secretariado ou uma equipe de assessores, mas um colegiado de alto nível com quem compartilha as decisões tomadas.

Continuemos fortes, atentos e informados, para atuar quando se fizer necessário, não participando, por exemplo, de operações de ocupação de comunidades sob a alegação – ou a ilusão - de que dessa forma conseguiremos recursos para adquirir equipamentos que o Estado deveria fornecer.

Também vamos tentar impedir, pela ação de presença, que barbaridades continuem a ser praticadas contra uma população, sem o poder de reação e, por fim, vamos continuar avaliando os imensos enriquecimentos repentinos sem o trabalho que os justifiquem.

Que Alá nos proteja e que Deus impeça que nosso trem chegue à ponte de Cassandra.

Valdesio Guilherme de Figueiredo, General de Exército Reformado, é Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar.

Um comentário:

Anônimo disse...


Caríssimo General
Para quem acompanha “o estado de coisas” atual, verifica-se que o exército brasileiro não anda “ombro a ombro” há muito tempo! As outras forças também... não...
Essa estrutura verticalizada, hierarquizada e engessada é dirigida segundo seu texto por um colegiado de alto nível e não somente pelo seu comandante. Logo, a responsabilidade é coletiva, de toda a cúpula militar e levando as últimas consequências, de todos os militares que tem como característica principal, atualmente, a passividade.
Numa avaliação superficial, conclui-se que as decisões do colegiado de alto nível, nos últimos tempos são pautadas pela omissão e o completo alinhamento com o desgoverno do partido dos trabalhadores.
Como fica o valor militar, a ética e os deveres militares? A honradez?
Verifica-se que nem todos os militares concordam com “este estado de coisas”. A cisão nas forças armadas já ocorreu... “os não cooptados pelo sistema”, talvez, possam, ainda, contrariando forças descomunais, alterar o rumo da história.
Seremos todos, em algum momento, responsabilizados pelo conjunto das nossas ações e omissões.
POR RAZÕES ÓBVIAS NÃO ADOTEI LETRAS MAÍUSCULAS.