sábado, 13 de abril de 2013

Dilma e os 40 ministros


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fernando Gabeira

É muito difícil fazer a revolução, é muito difícil vencer, mas as dificuldades mesmo começam quando se chega ao governo - essa frase é de um personagem do filme A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. Sempre me interessei pelo tema na literatura que descreve as transformações na cabeça das pessoas que alcançam o poder. O personagem de Pontecorvo referia-se a uma guerra de libertação nacional contra o colonialismo francês, algo muito mais dramático do que a vitória da esquerda brasileira em 2002.

Minha experiência no Brasil me leva a ressaltar um ponto decisivo na corrosão dos objetivos estratégicos - quando existem - dos vencedores de uma luta prolongada: o desejo patético de continuar no poder, desde o primeiro dia em que nele se instalam. A contradição entre o discurso modernizador e as atitudes do governo fica muito mais clara no período eleitoral, embora exista todo o tempo.

Dilma Rousseff convidou o empresário Jorge Gerdau para colaborar na racionalização administrativa do governo. Gerdau foi decisivo na modernização do governo do Estado do Rio de Janeiro. Temos uma dívida de gratidão com ele, que investiu dinheiro do próprio bolso no projeto. O único efeito colateral dessa operação bem-sucedida foi o aumento do prestígio do governador Sérgio Cabral. Nada de muito grave que não pudesse ser anulado com uma noitada em Paris, a bajulação do dono da Delta, guardanapos amarrados na cabeça e as mulheres exibindo os sapatos Christian Louboutin como se dançassem um passo de cancan.

Apesar de todo o trabalho de Gerdau, Dilma criou mais ministérios. Oficialmente temos 39. Com o marqueteiro João Santana funcionando como ministro especial, podemos chamá-los de a presidente e seus 40 ministros. A racionalidade foi para o espaço porque existe apenas o patético desejo de continuar no poder.

Como se não bastasse, Dilma resolveu prolongar a redução do IPI dos carros até o fim do ano. Qualquer pessoa sensata que ande pelas ruas das metrópoles brasileiras sabe que estamos chegando ao limite e a falta de mobilidade urbana é um grande desafio à produtividade nacional. Isso para não mencionar os portos, como o de Santos, com filas quilométricas de caminhões. Não conseguimos exportar nossa produção com fluidez, a mercadoria adormece no asfalto. E quando importada de avião não consegue ser liberada pela burocracia.

É surpreendente como uma esquerda que se inspirou no marxismo, mesmo sem o ter lido bem, com raríssimas exceções adota o caminho irracional com tanta naturalidade. Falando com um americano do setor de petróleo, ele se mostrou perplexo com a decisão da Petrobrás de comprar uma refinaria em Pasadena, nos EUA. O equipamento é superado, custou alguns milhões de dólares mais do que valia e nos deixou com o mico nas mãos. Não posso afirmar que essa irracionalidade esteja ligada às eleições, assim como a tentativa de entregar ilhas do patrimônio nacional ao ex-senador Gilberto Miranda. Mas se alguém ganhou dinheiro com o negócio desastroso, os dólares têm toda a possibilidade de aparecer nas campanhas.

Muitos gostam de enriquecer, comprar imóveis em Miami, alugar aviões, etc... Mas o dinheiro da campanha é sempre sagrado: the show must go on. Isso num contexto geral mais obscuro, em que eleitoralmente é possível saber quem ajuda o governo, mas, pelo fechamento do BNDES, é impossível saber quem o governo ajuda.

O trânsito para a total irracionalidade é mais nítido na esquerda venezuelana, que usa o mesmo marqueteiro do PT. Num dos anúncios criados por Santana, Hugo Chávez aparece no céu encontrando-se com Che Guevara, Simón Bolívar. Nicolás Maduro, o candidato chavista, vai mais longe: afirma que o comandante Chávez reaparece em forma de passarinho quando se reza por ele. Breve teremos passarinhos trinando nos campos verdes, a encarnação de Chávez protegendo nosso sono, aconselhando-nos nos dilemas cotidianos e, claro, batendo pesado na oposição.

Como foi possível sair da leitura de Marx para um realismo fantástico de segunda categoria? Como foi possível do caldo das teses de Marx sobre Feuerbach, mostrando a origem social do misticismo, ou do tempero de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, a crença de que exista um canto no céu onde se encontram os ícones da esquerda latino-americana e que eles viram passarinho para nos indicarem o caminho da libertação? Mesmo sem parecer muito inteligente, não creio que Maduro leve a sério essas histórias da transfiguração de Chávez.

No caso de Lula, posso falar com mais propriedade. Ao nomear Dilma a mãe do PAC, houve uma nítida inflexão em suas ideias sobre o mundo. Lembro-me de que em 2002, na Caravana da Cidadania, ao visitarmos São Borja, onde Getúlio Vargas está enterrado, Lula hesitou em levar flores ao seu túmulo. "Não seria fortalecer um populismo desmobilizante?", perguntou. Certamente Lula não acredita que a sociedade democrática seja uma réplica da família, na qual os governantes fazem o papel dos pais e os eleitores, de filhos obedientes.

A verdade é que a esquerda no poder deixou para trás muitas convicções. Oscila entre o paternalismo e o misticismo religioso. Suas fontes não são apenas as religiões de origem cristã. Inconscientemente, já pratica o vodu, sobretudo a ouanga, um feitiço para envenenar simbolicamente os adversários por intermédio de seus sacerdotes eletrônicos. Não percebe que o destino final de seu sonho de poder é a criação de uma nação de zumbis, manipulando gadgets, povoando supermercados, mentalmente mortos por falta de oxigênio no cérebro.

Em vez de avançar por meio da prática e da autocrítica, de aprender com os próprios erros e contribuir para o alargamento do horizonte intelectual, a esquerda em alguns países latino-americanos optou pelo atraso e pela superstição simplesmente porque tem pavor de perder o governo, como se não houvesse vida fora dele. Assim, uma jovem rebelde dos anos 60 se transformou na Mãe Dilma, apoiada pelo Pai Lula, e seu 40.º ministro produz filmes sobre a esquerda no céu para os herdeiros de um passarinho chamado Chávez.

Fernando Gabeira é jornalista. Originalmente publicado no Estadão de 12 de abril de 2013.

6 comentários:

lgn disse...

O Sr. Gabeira erra num fundamento, não existe socialismo que dê certo. Ele parece ser ingênuo supondo que os idealistas de 60 tinham um projeto e o abandonaram. Quem sempre interfere e detona a utopia socialista é a realidade, a inevitável realidade.

Sergio Oliveira disse...

Gabeira escreveu em seu artigo Dilma e os 40 ministros:
Lembro-me de que em 2002, na Caravana da Cidadania, ao visitarmos São Borja, onde Getúlio Vargas está enterrado, Lula hesitou em levar flores ao seu túmulo. “Não seria fortalecer um populismo desmobilizante?”, perguntou.
Não teria sido em 1994?
Em Vento Sul – 18.02.1994 – Viagem ao coração do Brasil – 4ª Caravana, ele escreveu:
“ Alegrete é terra de Osvaldo Aranha. Lula não se referiu a ele. Mais tarde passará em São Borja e está disposto também a não falar em Getúlio Vargas. Lula acha demagogia visitar o túmulo de Vargas sem ter afinidade histórica com ele. “
O ato de ignorar Getúlio fez com que Almir Pazzianoto escrevesse o texto intitulado O ESQUECIDO DE SÃO BORJA.

Anônimo disse...

Lembro de uma frase profundamente célebre do articulista, proferida em discurso na camara dos deputados, na época em que foi expulso do PT, e não conseguiu a entrevista de despedida com o Chefe da Casa Civil, após longo chá de cadeira, sendo que o sub-chefe tinha sido solto nos anos 70 pelo sequestro do embaixador, perpetrado pelo hoje jornalista, que também tem vetado seu visto de ingresso aos EUA, pelo que eu saiba:
- ACHO QUE SONHAMOS O SONHO ERRADO (ou coisa assim).
Ele em parte se redimiu. Agora mais 40 anos de cana, não pelo sequestro do embaixador, mas pela ingenuidade .

Anônimo disse...

Não é só a chegada ao poder que muda as pessoas e Gabeira não é exatamente um exemplo de coerência.

Participou do sequestro do embaixador americano, mas depois, virou um gato gordo, ou melhor um viado maconheiro.

Foi pego em flagrante traficando drogas no aeroporto de Brasília. Deveria ter sido preso, mas se mandou alegando imunidade parlamentar (que não se aplica a esse tipo de crime).
Há alguns anos divulgou com "orgulho" que havia dado o c# para muitos homens, assim como aquele viado do "grupo gay da bahia".

Lula deu entrevista para a Playboy de junho ou julho de 1979 onde declarou que, quando morava no nordeste, fazia sexo com animais. Bodes e jumentos era o que havia lá. Também disse que tentou estuprar um menino na cadeia, o que faz dele estuprador viado e pedófilo.

Então Gabeira, o que foi que te mudou? Foram as drogas ou foi dar o rabo?

José Antonio disse...

Sinceramente, duvido que Lula tenha construído esta frase: "Não seria fortalecer um populismo desmobilizante?". Primeiro, porque ele nem entenderia o seu sentido e segundo, porque é típica de comunista/socialista de botequim, que discute a divisão da riqueza do país e a estatização dos meios de produção e vai para casa em área nobre com um carro caro e do ano.
Quanto ao desvio de rumo ao assumir o poder, também não tem sentido, haja vista que Lula nunca teve coerência política e, desde os tempos de sindicato, se associou a quem lhe interessava para atingir seus objetivos pessoais. Atitude que manteve durante esses 10 anos de seu governo, quando nessa trajetória traiu aliados, se associou a "inimigos" ditos fidagais e fez tudo o que condenava e vociferava no conforto da oposição.
Com relação à mudança do Senhor Gabeira, entendo que uma pessoa possa mudar no decorrer de uma vida, especialmente quando reflete sobre suas escolhas feitas na juventude, fase que não se tem clareza suficiente e nem experiência para discernir o certo e o errado. No entanto, há que ter sinceridade nessa mudança, senão se caracteriza um deslavado oportunismo.
Já o socialismo é um regime inexequível, pois não há como igualar os desiguais, nem tampouco conceber que o Estado é o melhor gestor dos meios de produção. Por outro lado, o capitalismo desmedido, que se associou à democracia, tem demonstrado ser um grande criador de crises econômicas, onde a maioria acaba arcando com todo o ônus da ganância de poucos.
Deste modo, só se construi uma nação livre e saudável com democrácia, ética, respeito e justiça na relação entre capital e trabalho, bem como com um Estado circunscrito apenas nas suas competências básicas.
Por fim, como previsto, a Venezuela elegeu Maduro com a benção do passarinho, num pleito pra lá de suspeito, com boca de urna, intimidação ao eleitor, carros de som nas imediações dos locais de votação, sem falar na suspeição do próprio órgão encarregado das eleições. Mesmo com todos esses elementos contrários Caprilles ficou muito próximo da votação de Maduro. Portanto, como temos o tempo que Caprilles não teve, isso fortalece nossa esperança no sentido de tirarmos essa corja de bandidos que se apoderou das instituições de nosso país.

Anônimo disse...

Pôrra! Aqui tem tanto contador de estórias que dá náuseas! Adeus.