sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Condenados e Legisladores

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Milton Pires

Tenho seguido com interesse a reação da grande imprensa à condenação do deputado Natan Donadon. Livrado da cassação de mandato pelos seus colegas, ele chegou e saiu algemado da sessão de hoje da Câmara dos Deputados. Retornou, depois da sua atividade parlamentar, ao Presídio da Papuda. Ainda não estou entendo, de fato, por que essa sensação toda de estranhamento..o porquê de tanta perplexidade..Me ajudem a compreender.

Imaginem vocês um lugar onde simplesmente não existe qualquer espaço para a mais simples noção de bem comum. Onde algumas poucas pessoas são inocentes e a grande maioria é de bandidos.  Um lugar onde se combina a noite tudo que será feito durante o dia. Um espaço onde não tem valor nenhuma lei escrita, onde impera o mundo dos interesses escusos, dos conchavos, das ameaças e das delações...

Imaginem um lugar de onde se pode, uma vez combinados alguns interesses, parar todo país e quem sabe até mudar a sua história. Uma instituição onde o que manda é o dinheiro e o narcotráfico..onde se pode contratar a morte de pessoas e onde, garantidas algumas condições, se pode desfrutar de regalias inimagináveis...Imaginaram?

Pois bem, agora eu pergunto a vocês – Vocês conseguiram definir com certeza se eu estou falando de uma penitenciária de segurança máxima ou do Congresso Nacional? Se conseguiram; me mostrem como o fizeram pois eu mesmo me atrapalhei com o que escrevi!

Meus amigos, o que torna um homem perigoso não é sua força...não é seu dinheiro, nem suas armas, mas sim o seu caráter. Não vou perder tempo aqui tentando demonstrar isso. Faço o caminho inverso afirmando que isso é tão verdadeiro, tão simples e tão evidente, que – como todas as coisas que guardam essas três qualidades – foi esquecido. Sendo esquecido, uma vez demonstrado de forma cabal provoca o falso deslumbramento.

É dessa sensação que se vale quem quer vender jornal e fazer notícia afirmando “escandalizado” que agora o Brasil tem deputados presidiários. Guardasse o nosso povo a certeza de que não há diferença entre os valores que imperam num presídio e aqueles que regem nosso Congresso e não teria a restrição da liberdade de ir e vir de um marginal de terno provocado tamanha polêmica.

Há muito, mas muito tempo mesmo a democracia no Brasil acabou. Governa o país uma ditadura dos medíocres onde a noção de justiça cedeu a de “participação popular” e onde a mera noção de verdade foi trocada pela de consenso. Já escrevi antes sobre o tema.

Deputados bandidos sendo algemados e mesmo assim mantendo seu cargo não são causa disso. São a consequência. Afirmo ser pré-requisito essencial para vida política no nosso país um caráter em absolutamente tudo idêntico ao dos sociopatas assassinos, estupradores e traficantes que lotam as prisões mais vigiadas. Sustento que a semelhança entre esses dois mundos é tamanha que não há  dinheiro nem luxo capaz de dissimular as coincidências. Essa afinidade funciona como um tapa na cara para quem acredita nas instituições acima dos homens, para quem coloca o mundo da economia acima da cultura e para quem crê que o “hábito faz o monge”.

Ela desafia a máxima das faculdades de Direito ao proclamarem que não existem criminosos; mas sim crimes e atira perante toda sociedade brasileira a vulgaridade do seu cidadão mediano – aqueles entre os quais nos incluímos todos nós, que não somos presidiários nem deputados, mas que nosso silêncio covarde permitimos o surgimento de condições em que não se pode mais fazer a distinção moral deles.

Quando um deputado brasileiro, bandido ou não, permanece indo e vindo algemado às sessões do Congresso, somos todos nós que estamos ali junto com eles. Somos 190 milhões de “depenados” - termo que define a mistura de deputados e apenados, que reflete o brasileiro médio e escandaliza o cidadão mínimo em qualquer republiqueta africana.

Triste maneira de fazer um país gigantesco perceber que o que tem de mais importante não são as suas instituições, mas sim o seu povo, que esse povo, crente numa religião civil de adoração ao poderes colocou neles os piores dentre seus homens e que já não há mais diferença alguma entre condenados e legisladores.


Milton Simon Pires é Médico.

5 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Dr. Milton: o senhor errou! Somos, segundo o IBGE, 200 milhões de depenados. Falta agora contar as penas, e aplicar as devidas a quem de direito. Quando, e como? Só Deus sabe.

Osvaldo Aires disse...

MÉDICOS CUBANOS QUE CONSEGUIRAM ESCAPAR DA VENEZUELA PROCESSAM CUBA, VENEZUELA E A PETROLEIRA PDVSA EM DEMANDA APRESENTADA ANTE TRIBUNAL DA JUSTIÇA AMERICANA, EM MIAMI. PEDEM INDENIZAÇÃO QUE ULTRAPASSA US$ 50 MILHÕES DE DÓLARES.
http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/08/medicos-cubanos-que-conseguiram-escapar.html

Jayme Guedes disse...

Milton, sobre o texto "Um zumbi na Casa do Espanto", do Nelson Motta, assim me manifestei no Gente Decente: "E por falar em espanto, espantoso mesmo é a falta de reação da sociedade. Não se viu nenhum protesto, por mínimo que fosse. Apenas o silêncio da aceitação. Somos, por natureza, um povo condescendente com o crime. Como esperar legislação penal rigorosa de um congresso que demonstra empatia com o crime? Esse parlamento nos define como povo. Como um espelho, reflete a nossa cara e enquanto aceitarmos essa nossa imagem refletida no espelho representado pelo congresso não mudaremos.Quanto à expressão "unindo o espírito de corpo ao espírito de porco" usada pelo articulista, um reparo. Na leitura que faço, o que se une ao espírito de corpo no Parlamento é o espírito de BOLSO."

A curriola progressista chegou, se apossou, gostou e fará tudo para não perder a boca disse...

"Um dia disseram, "Será o celeiro do Mundo".
Hoje, se diz: "Aqui é o .. do Mundo!"



Ó vida… ó mundo…
Ó Governo, Ministérios e Estatais…
Ó Congresso, ó Papuda…
Ó Supremo, ó Superior, 2as. e 1as. instâncias…

Mundo, mundo, mundo
Brasil, brasil, brasil
Quanto mais rezamos
Mais corruptos aparecem
Quanto mais votamos
Mais corruptos aparecem
Quanto mais se agarramos à esperança
Mais corruptos aparecem

Brasil, brasil, brasil
Mundo, mundo, mundo
Felizes aqui
São os de nomes Raimunda e Raimundo!

Mundo, mundo, mundo
Brasil, brasil, brasil
E os demais?
Desrespeitados e mandados para a “…”! "

Joao Sombra disse...

Excelente o seu texto, que deveria ser remetido a cada senador, deputado e a todos que exercem cargos eletivos no país.