domingo, 30 de novembro de 2014

Siga o dinheiro e pegue os ladrões!


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

Especialistas em combate à lavagem de dinheiro têm uma diretriz básica para se obter sucesso na prevenção e repressão a este crime muito comum no mundo globalitário. A dica simples é: "Siga o dinheiro e pegue os ladrões". O complexo é perseguir os caminhos da grana, geralmente obtida em negociações corruptas entre grandes empresas e o poder público. Atualmente, os mesmos experts no assunto indicam o lugar onde tal investigação fica mais complicada: as Ilhas Seychelles. Follow the Money...

Trata-se de uma república presidencialista cuja capital é Victória, um paraíso fiscal situado no continente africano, mais precisamente no Oceano Índico Ocidental. Lá estaria o mapa da mina da Lava Jato, do Mensalão e de outros megaescândalos ainda nem revelados. Uma grande dica de investigação é saber que jatinhos, que passageiros ilustres ou seus laranjas passaram pelo moderno aeroporto internacional de Mahé.

No começo de junho deste ano, o Alerta Total revelou que pelo menos 170 milhões de Euros pertencentes à família de um próspero político brasileiro foram movimentados de bancos na Europa para contas no duplo paraíso fiscal e estético das Ilhas Seychelles. Apelidada de “Filho de Peixe”, a operação confidenciada pela “turma do dólar cabo” foi alvo da lupa de investigadores dos EUA. A corrupta família brasileira centraliza seus depósitos bancários no Panamá. No entanto, faz a grana circular entre a França, a Itália, Seychelles e o Brasil.

A enorme transferência de euros foi feita em favor do esquema brasileiro, na semana passada, foi interpretada como uma manobra defensiva. O grupo político que faz a movimentação atípica de moeda estrangeira tem a certeza de que será alvo, em breve, de ações da Polícia Federal, sofrendo denúncias posteriores do Ministério Público e da Justiça Federal. A blindagem está quase no fim. Falta um tantinho para a casa cair...

A família do fenômeno empresarial e seus parceiros de negócios vêm chamando a atenção não só de investigadores tributários e policiais, mas também dos grupos que atuam no mercado paralelo de dólar – alvo da Lava Jato. O grupo faz bruscas operações de mudança do controle de ações de empresas dos setores de alimentação e telecomunicações. Também faz muitos negócios na compra de diamantes africanos. Por aqui, investe em imóveis - uma burrada, facilmente identificável - e em construção civil.

No mercado acionário, existem evidências de que “laranjas” são escalados para substituir os reais detentores das ações. O objetivo da manobra é preservar a fortuna e não comprometer o santo nome da família do empresário, caso estoure alguma bronca policial ou judicial - há muito tempo esperada, porém nunca efetivada. Especialistas na área de dólar cabo avaliam que a ação defensiva dessa máfia não conseguiu enganar os investigadores da Operação Lava Jato. Já foi desvendado onde se encontra o elo mais frágil da corrente que movimenta o sistema que lavou mais de R$ 10 bilhões em dinheiro público ilegalmente desviado.

O grupo mafioso tupiniquim caiu na malha fina de monitoramento da Drug Enforcement Administration – a agência anti-drogas do Departamento de Justiça dos EUA. No cruzamento de informações, ficou clara que uma das práticas comuns da super lavanderia de dinheiro é o financiamento ao tráfico de drogas – dando um destino supostamente de investimentos em moeda estrangeira ou ações da grana disponibilizada pelas máfias colombianas e mexicanas.

No meio dos negócios que parecem lícitos ou "investimento direto estrangeiro", a verba dos traficantes se mistura com o dinheiro público roubado no Brasil. Os cambistas que fazem isto estão manjados. O que ficou como uma evidência no escândalo do Mensalão se materializou na Operação Lava Jato – que ainda tem muitos fatos graves a investigar e, se possível, divulgar, até a prisão dos verdadeiros peixes grandes. O grosso da picaretagem está mapeada. Só falta fisgar os tubarões ou outros grandes moluscos menos votados.

O Petrolão é mais em cima...

  
A turma de investigadores da Lava Jato ainda tem uma missão muito dura que poderia ser facilitada pela CPI da Petrobras, se os parlamentares quisessem, realmente, fazer um trabalho sério. Quem deveria ser chamado a dar explicações sobre tudo que acontece por lá é o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que é o atual responsável pelo Comitê de Auditoria da Petrobras. Também seria bom questionar possíveis deficiências da chamada Auditoria SOX feita pela KPMG, entre os anos de 2005 a 2011.

Investidores da Petrobras também sugerem que a CPI convoque o diretor de Finanças da companhia, que também responde pela área de relação com os investidores. O ultrablindado Almir Guilherme Barbassa tem mais poder que o presidente executivo da empresa. Está no cargo desde 2005. Ele poderia detalhar as atividades da PFICo (Petrobras Finance International Company), entre 2005 e 16 de dezembro de 2013, quando a empresa foi incorporada apressadamente pela Petrobras, junto com a RNEST (Refinaria Abreu e Lima) e o Comperj (Complexo Petroquímico de Itaboraí) - todas citadas nos escândalos da Lava Jato.

A CPI deveria observar um detalhe que passou despercebido de muita gente no mercado. Tais incorporadas foram avaliadas pelo seu valor contábil. Investidores denunciam a evidência de que isso inclua propinas, superfaturamentos e outras irregularidades menos votadas. Tais operações contaram com a anuência da PwC (PriceWaterhouseCoopers) - empresa que responde pela auditoria externa da Petrobras. Tudo comandado pelo Barbassa, que pessoalmente presidiu a Assembleia Geral Extraordinária de 16 de dezembro de 2013. Na reunião, foram registrados os protestos contrários do investidor Romano Allegro, e dos representantes dos acionistas minoritários Mauro Cunha e, dos empregados da empresa, Sílvio Sinedino.

A CPI também deveria pedir explicações aos diretores da Petrobras sobre os negócios da Petrobras Global Finance B. V. – uma caixa preta sediada em Rotterdam, na Holanda, e da pouco conhecida coligada da Petrobras, situada em um paraíso fiscal: a Cayman Cabiúnas Investment Co. Uma questão que precisa ser indagada ao Almir Barbassa, pelos parlamentares, é: como acontece a rolagem diária das dívidas da Petrobras com grandes bancos internacionais? Quem leva comissões (de praxe, e legais) sobre tais operações milionárias? Onde, como e a quem tal pagamento é feito?

Quem tiver coragem e capacidade de seguir o dinheiro vai pescar muito mais que supostos ladrões...

CVM na berlinda


A Comissão de Valores Mobiliários também pode ser questionada pela CPI da Petrobras.

A CVM deveria explicar, oficialmente, por que não agiu, de forma diligente e rápida, em relação aos vários pedidos de investigação feitos pelo investidor minoritário Romano Alegro, desde 2005, questionando várias operações supostamente lesivas aos acionistas da petrolífera.

O Ministério Público Federal, no desdobramento dos processos da Lava Jato, tem tudo para incluir a CVM como co-ré por não ter cumprido efetivamente seu papel de fiscal do mercado de capitais no Brasil.

A CVM corre o risco de ser questionada pela SEC (Securities and Exchange Commission) dos EUA no processo que investiga falhas de governança da Petrobras que causaram grandes prejuízos aos investidores.

Ildo Sauer na CPMI da Petrobras (II)

  
As entrevistas de Ildo Sauer disponíveis no site “Maracutaias na Petrobras” envolvem categoricamente a presidente Dilma em atos lesivos à Petrobras, que, segundo ele, são merecedores de uma investigação da Polícia Federal ou do Ministério Público.

Além disso, o site permite uma constatação de alto interesse da CPMI: bem antes do caso Pasadena, cláusulas contratuais lesivas à Petrobras já faziam parte de sociedades por ela constituídas. Tal constatação fica incontestavelmente comprovada na Gemini – sociedade cujo objetivo é produzir e comercializar Gás Natural Liquefeito.

Para tornar ainda mais explosiva a situação, uma grande coincidência: as cláusulas contratuais lesivas acima referidas constam do Acordo de Quotistas da Gemini firmado em janeiro de 2004 – época em que Dilma acumulava os cargos de Ministra de Minas e Energia e presidente do Conselho de Administração da Petrobras,  e Sauer era o diretor de Gás e Energia da Petrobras, a área responsável pela Gemini.

Tendo sido o Acordo firmado em janeiro de 2004 – mais de nove meses antes da aprovação da participação da Petrobras na sociedade (que ocorreu em outubro de 2004) – é de todo indispensável que se esclareça se o órgão colegiado que aprovou a participação da Petrobras na Gemini tinha, ou não, conhecimento da existência do prematuro Acordo.

Ninguém pode ter qualquer dúvida sobre a gravidade da situação: como a presidente Dilma afirmou que só autorizou a compra da refinaria de Pasadena porque foi enganada por um tendencioso relatório que omitia duas cláusulas contratuais, o que dizer se tiverem omitido o fraudulento Acordo de Quotistas do órgão colegiado que aprovou a participação da Petrobras na Gemini?


O triste de tudo é: O País está parado. Não cresce. Não se desenvolve. A corrupção sistêmica avança, apesar do grande esforço de alguns que ousam combatê-la. Os políticos ficam cada vez mais ricos. Os cidadãos honestos, cada vez mais com cara de idiotas, diante da evolução e progresso dos canalhas.

O Brasil precisa ser reinventado. Enxugar o gelo, como agora, nada resolverá. A picaretagem é camaleônica. Adapta-se aos ataques. A metástase do crime não consegue ser contida. A sacanagem se reproduz. Uma chance de mudança seria atingir, em cheio, a célula cancerosa que comanda a safadeza. O problema é que tal alvo é aparente. Ele obedece a forças que controlam o Brasil de fora para dentro.

Ou o Brasil muda seu modelo, e declara sua independência de verdade, ou tudo continuará do mesmo jeito ou até pior.



Brincando sério


E como ficam os direitos humanos dos corruptos?


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O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 

A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 30 de Novembro de 2014.

Golpe, Modelo e Dívida


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Adriano Benayon

O Brasil vive momento grave, com a grande mídia, pedindo golpe de Estado para derrubar a presidenta recém-reeleita.

Os golpes em nosso País são recorrentes, e já houve muitos além dos  mais conhecidos, que são os  de caráter predominantemente militar: 1937, 1945, 1954, 1961 e 1964.

O jornalista Luiz Adolfo Pinheiro intitulou seu bom livro, “A República dos Golpes”, publicado em 1993, que abrange somente os anos de Jânio Quadros a Sarney

Não só no Brasil historicamente, mas cada vez mais no mundo atual, os instrumentos principais dos golpes inspirados pelas potências imperiais têm sido instituições civis, como o legislativo e o judiciário.

Foi no âmbito da polícia civil que se articulou a conspiração concluída na área militar, que depôs o presidente Vargas em 1954.

A famigerada, desde o Estado Novo, Delegacia de Ordem Política e Social – DOPS, chefiada pelo simpatizante nazista, Cecil Borer, foi que armou o atentado da rua Tonelero, envolvendo a guarda pessoal do presidente e a ela atribuindo o crime.

O alvo era o próprio major Vaz, para acender a revolta Aeronáutica e na opinião pública, e não, Carlos Lacerda, o encarniçado adversário de Vargas, com o simulado e inexistente tiro em seu pé.

Por que a DOPS? No auge da Guerra Fria, os nazistas e simpatizantes foram recrutados em massa pelos serviços secretos das potências angloamericanas, para reprimir os “comunistas”, rótulo ao qual buscavam associar todos os que, como os nacionalistas, desagradassem àquelas potências.

Voltemos a 2014: no período eleitoral, delegados da polícia federal, a que se atribui serem simpáticos ao PSDB,  vazaram informações do inquérito (operação Lavajato), em que investigam irregularidades em contratos entre a Petrobrás e  grandes empreiteiras de obras de infra-estrutura.

Há poucos dias, acabam de prender executivos dessas empreiteiras, as quais, além de atingidas pelo escândalo, com repercussões sobre futuras contratações, serão provavelmente condenadas ao pagamento de pesadas multas.

Desavisados moralistas exultam com essa suposta demonstração  de que as instituições do País estejam  combatendo eficientemente a corrupção. O PT louva a presidenta por ter sancionado nova lei, que permite agir também contra os corruptores.

O povo ilude-se e acredita que seja isso mesmo que está em causa. Desconhece a natureza do jogo  prevalecente nas altas esferas do poder, notadamente as do poder mundial. Para isso concorre o tsunami de ignorância gerado pelos investimentos que nela faz a oligarquia concentradora transnacional, há um século.


A mega-corrupção exercida por essa oligarquia coopta colaboradores em todas as estruturas econômicas e institucionais e, ironicamente, usa, a seu serviço, a corrupção derivada, a de menor porte, aumentada inclusive em decorrência do investimento na anticultura e na destruição dos valores éticos.

É essa, a derivada a que aparece,  quando sua exposição serve aos objetivos da estratégia imperial, produzindo grande comoção em amplos segmentos da população e desviando o foco dos reais problemas e de suas fontes geradoras.

Sem acesso às informações sobre como a oligarquia financeira  envolve os poderes constituídos do Estado, infiltrados por seus interesses,  o povo concentra seu ódio sobre os corruptos expostos pela corruptíssima grande mídia. Deveria desconfiar de que, se são expostos, é porque são os que estão causando menor dano ao País.

Por que as grandes empreiteiras estão sob o fogo da repressão? Elas constituem o principal núcleo de poder econômico no País que ainda não foi controlado pelo capital estrangeiro. São exportadoras de serviços, ocupam pessoal qualificado e se tornaram conglomerados, que investem até mesmo em tecnologia de uso militar.

Ademais, o escândalo que domina as atenções envolve também a principal estatal do País, ou seja, uma das poucas empresas gigantes sob controle nacional, apesar de infiltrada por quadros ligados às transnacionais do setor e a bancos da oligarquia financeira angloamericana.

Para fechar, convém ter presente a penetração de ideias e a cooptação por parte de entidades estrangeiras na Polícia Federal, notória desde que a Delegacia Antitóxicos recebe ajuda de sua congênere norte-americana.

Não se deveria tampouco ignorar a política das numerosas agências de inteligência dos EUA de atrair as simpatias de quadros das instituições-chave do País, como a Polícia Federal.

O foco na corrupção, ignorando a fonte da mega-corrupção, é  instrumento do poder oligárquico mundial.  Em geral, estão alinhados com este, os que mais gritam contra a corrupção.

Um dos fatos fundamentais obliterados é que, no âmbito dos carteis financeiros e econômicos, a ética pode ser tema de discurso, mas não faz parte do objetivo central, o poder, nem do objetivo imediato, o lucro, independentemente de como seja obtido.

Expor as reais razões do escândalo  das relações entre grandes empreiteiras e a Petrobrás não é dizer que nelas houve corrupção. Isso, porém, está sendo usado para favorecer grupos transnacionais, tradicionais comitentes de n tipos de corrupção.

Entre eles, os permitidos pelas leis e políticas impostas aos países, tais como tolerar as práticas monopolistas e demais formas de abuso do poder econômico.

Não menos danoso para o Brasil é ferir de morte as empresas privadas e públicas em que se mantém os últimos bastiões de autonomia tecnológica no País, alvo que é do “apartheid tecnológico”, decorrente de os carteis transnacionais dominarem o mercado, reforçado por acordos internacionais, como o TRIPS  no âmbito da OMC.

Os promotores da desestabilização da presidenta da República e do golpe em curso são de dois tipos:

a)  os colaboradores do sistema imperial, que nos impõe, desde 1954, o modelo de dependência financeira e tecnológica, e utilizam hipocritamente o pretexto da moralidade para desnacionalizar e desindustrializar ainda mais a economia;

b) os enganados pelo alienado discurso moralista e são arregimentados para solidarizar-se com a repressão destinada a eliminar as empreiteiras e acabar de desnacionalizar a Petrobrás.

Isso não significa que não se deva expurgar a estatal de seus quadros corruptos. Se isso for feito, como se deve, vai-se notar que a maior parte deles é ligada a grupos e a interesses das transnacionais estrangeiras, lá colocados.

Isso ocorreu principalmente no governo antipátria de FHC, e a maior parte dos corruptos permaneceu na Petrobrás e na ANP, nos governos petistas, conciliadores em relação àqueles grupos. Esse é o caso, inclusive, do pivô do escândalo, o delator premiado.

Enquanto a operação Lavajato ocupa o centro das atenções, e avança em direção favorável ao objetivo de enfraquecer o já fragilizado poder econômico nacional, são esquecidas as causas fundamentais dessa fraqueza.

Estas se situam no binômio modelo pró-imperial-envidamento público. A propósito, o Brasil está com déficit recorde no balanço de transações correntes com o exterior: US$ 85 bilhões por ano.

Essa sempre foi a causa do crescimento da dívida externa, desde que JK (1956-1960) aplicou a política entreguista do golpe udenista-militar de 1954, que cumulou de favores os carteis transnacionais para monopolizarem os mercados industriais do País.

A dívida externa ascendeu a U$ 541,42 bilhões, em agosto último (R$ 1,4 trilhão, ao câmbio atual). A dívida pública interna, a R$ 3,067 trilhão.

O serviço da dívida (juros e amortizações) consome 42% das despesas da União, e realimenta-se  com as taxas de juros absurdamente altas e que, por isso, não podem ser pagas só com recursos dos tributos.

A parte do serviço da dívida que o Tesouro paga com as receitas corresponde ao “superávit primário”.  Elaborei uma tabela, no programa Excel, lançando  o montante da dívida pública interna em 1994,  e  taxa de juros de 3% aa.

Por que 3% aa.? Essa taxa supera a de  muitos países, e não há base para a ideia, sempre impingida ao público, de que se têm de combater a inflação com juros elevados. 

No Brasil, os preços são altíssimos, porque os carteis impõem os que desejam, mais ainda que em outros países. Fosse outra a política, a inflação seria moderada, e não ficaria ao sabor de farsas, como a do Plano Real.

Além dos juros 3% aa., inseri na tabela os montantes do superávit primário, para resgatar dívida,  implicando que não haveria novas emissões de títulos para isso.

Resultado: mesmo sem  superávit primário de 1995 a 1997, pois ele só ocorreu em 1994 e de 1998 a 2001,  a União já teria eliminado a dívida interna, e sobrariam R$ 22 bilhões, em 2001.

Ora, com as absurdas taxas de juros comandadas pelo cartel dos bancos e cumpridas pelo BACEN, e, apesar de superávits primários totalizando, de 2002 a 2013, em valores correntes, R$ 1,082 trilhão, a dívida interna cresceu para quase R$ 3 trilhões.

Assista à palestra "O modelo pró-imperial e o endividamento", com Adriano Benayon, na Universidade de Brasília.



Adriano Benayon é doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

Perspectivas de Mudança na Área Militar


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Ricardo da Rocha Paiva

Dizem que "em time que está ganhando a gente não mexe". Eu particularmente, se fosse a "comandanta" em chefe, para não ter problemas na área militar, manteria os atuais comandantes singulares. Há que se considerar, todavia, dado o andar da carruagem e o grau de cooptação, não seria tão difícil encontrar, para este setor, vieses dos tipos "Brancaleone sem rumo", "Kamikase robô desfocado" e "dragão do mar a pique", tão ao gosto da atual governança.

No que se refere à minha caserna VO, algumas fontes têm se referido a possibilidades da qual, em absoluto não me surpreendo, devem estar sendo ventiladas pela politicalha comunopetista, de forma a prover a presidenta do "homem certo no lugar certo", para manter "tudo como dantes no quartel de Abrantes".

Em assim sendo, as elucubrações para o Exército, entre outras, passam pela grande ausência no episódio do dia 29 de março de 2012, na área do CML, quando os "velhos soldados", nossos antigos instrutores e comandantes, alguns veteranos da FEB, foram covardemente "escrachados" pela maré vermelha infame, à frente do Clube Militar, no Rio de Janeiro.

Passeiam também pela onisciência que, quando em Marabá, no mesmo ano de 2012, por ocasião da passagem de comando da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, não escapou às perguntas de um repórter sobre a precariedade da estrutura da Força Terrestre, denunciada nacionalmente pela imprensa, tendo respondido que as reportagens eram verdadeiras, mas que as fontes, generais da reserva, estavam desatualizadas quanto à realidade (fato comentado no artigo O PONTO E O CONTRAPONTO, de minha autoria).

Eu fico a imaginar sobre esta tal realidade. Qual é a realidade atual deste nosso Exército que, um dia, já foi liderado por oficiais-generais como o Duque de Caxias, o Marechal Floriano Vieira Peixoto, o Marechal Humberto de Alencar Castelo, ou mesmo o General Walter Pires Carvalho de Albuquerque? Qual é o grau de determinação de um alto comando que não consegue lograr as condições necessárias para que sua força, de 6ª potência econômica mundial, possa dissuadir a ameaça constante dos grandes predadores militares que nos espreitam, enfim de cumprir a sua missão precípua de defesa da Pátria?

Qual o seu grau de fidelidade/companheirismo, quando se omite na garantia da integridade de seus antigos combatentes, veteranos da luta contra as guerrilhas comunistas dos chamados “anos de chumbo”? Qual o seu grau de autoridade e auto respeito, quando permite que as “alcateias vermelhas” invadam quartéis, construam bustos de notórios subversivos defrontando nossas unidades, impeçam o uso das denominações de honra e glória de nossas brigadas?

Que perspectivas aziagas companheiros! Quanta tristeza chegará à conclusão de que o nosso EB, por responsabilidade maior de seu alto comando, não é mais aquela força altiva que se dava ao respeito.  Procurar identificar uma única liderança que seja capaz de defender a dignidade do Exército e não encontrar ninguém, nem do “outro lado da colina”!

Cidadão! É simplesmente desesperador a que ponto chegou o binômio espírito de corpo/espírito militar de nossos comandantes mais graduados. Que se diga, estou falando dos que ainda não foram cooptados e isto porque, com aqueles que já se entregaram, não se pode mais contar.

Alerta! Quando brasileiros perguntam pelo Exército, os soldados da ativa e da reserva devem se orgulhar, e a nação tem todo o direito de fazê-lo porque o EB a ela pertence, sendo seus oficiais-generais promovidos, principalmente, para salvá-la quando preciso.

Resta saber quantos deste “colegiado de quatro estrelas”, nas três FFAA, ainda não entregaram o ouro ao bandido, posto que, até agora, estão sendo os fiadores da submissão do País ao nosso maior inimigo!


Paulo Ricardo da Rocha Paiva é Coronel de Infantaria e Estado-Maior, na reserva. Originalmente publicado no Portal Militar em 25 de novembro de 2014.

Confiança e Credibilidade


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Roberto Gotaç

Com as devidas escusas aos profissionais de Estatística por imprecisões conceituais, pode-se definir o intervalo  de credibilidade de um experimento de eventos, como sendo a probabilidade a posteriori, ou seja, a que, com base nos dados atuais, determina  a chance de determinado evento ocorrer dentro de uma faixa de resultados, num momento futuro. 

De certa forma, concluir que a probabilidade de chuva para a próxima semana é de 30%, equivale a afirmar que esta percentagem dá a medida do intervalo de credibilidade da metodologia das medidas climáticas de hoje. 

Por outro lado, o intervalo de confiança traduz a chance de ocorrência no momento, através do emprego dos dados disponíveis. Seguindo a mesma analogia, dizer que a probabilidade de chuva no momento presente é de 70% exprime um intervalo de confiança. 

Tais definições, aplicadas ao caso prático referente à escolha da nova equipe econômica, sugerem que o intervalo de confiança dos selecionados é alto mas o de credibilidade, para ser avaliado, terá que aguardar a chegada de resultados mais concretos sobre a ação do novo time. 


Lamentavelmente, no entanto, em Economia, no máximo aprende-se com as lições resultantes de experimentos anteriores, mesmo que mal sucedidos, não  sendo permitido  proceder como em Física, por exemplo, onde resultados inconclusivos desqualificam os experimentos correspondentes, possibilitando que se monte outro, com as mesmas condições iniciais do que não deu certo. 

Que os futuros gerentes da economia brasileira, vítima de experimentos desastrosos levados a cabo ao longo dos últimos governos, aproveitem os ensinamentos e, através da necessária liberdade de ação a ser garantida pelo governo central, sem a qual pouco farão, sejam eficientes na construção de um intervalo de credibilidade que recupere o prestígio do país junto aos investidores. 


Paulo Roberto Gotaç é Capitão de Mar e Guerra, reformado.

As veias abertas no nosso País – A corrupção na História


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Gelio Fregapani

Certamente houve anteriormente corrupção na administração federal, mas no tempo antigo, tal como pequenas esfoladuras, sangravam mas não chegavam a comprometer a saúde. Certamente a corrupção tomou vulto na construção de Brasília e  terá sangrado a economia, mas compensou.Os sangramentos foram consequencia da necessidade. Sem a corrupção, semi oficializada, certamente não teria acontecido a construção da Capital, que criou condições para a ocupação do Centro-Oeste, sendo a maior jogada geopolítica desde a Independência. Até onde se sabe, não foram para o Governo nem para os partidos.

Com certeza a corrupção diminuiu durante o Governo Militar. A modéstia das posses dos generais-presidentes o comprova. Se houve então alguma corrupção terá sido nos baixos escalões da administração e passou despercebida da rigorosa justiça da época, mas a partir da “redemocratização” romperam-se as veias. A corrupção do Sarney ainda em um caráter regional prossegue sem grandes abalos.

Na era Collor ficou conhecida a “República das Alagoas” que resultou no impeachment, mas pouco se sabe de quanto poderia ter recebido para criar a área ianomâmi. Quem pagaria? O Cartel Internacional do Ouro, a oligarquia financeira internacional, ou seja, à corrupção somou-se a traição à Pátria. Passada a era Collor a corrupção e a traição expandiram-se exponencialmente.

Nada antes se comparou às privatizações/desnacionalizações do FHC. A hemorragia  atingiu as principais artérias da economia e entre as 58 empresas vendidas (em grande parte ao estrangeiro) avultam a Vale do Rio Doce,  as telefônicas, as siderúrgicas, os bancos estaduais, muitas hidrelétricas, linhas de transmissão, distribuidoras etc, vendidas em média por 10% de seu valor. Talvez as mais maléficas atuações de FHC e seu  preposto Reichstul possam ter sido os leilões do petróleo e a tentativa de venda da Petrobras.

Disse o governo de então que arrecadou 85,2 bilhões. O valor justo passaria de um trilhão, mas mesmo assim não teria valido a pena pois as remessas de lucros e a falsa compra de tecnologia passam a representar um sangramento permanente. Quanto FHC e seus asseclas teriam amealhado para trair a própria Pátria? É difícil saber. Imagine o leitor.

A indignação popular (hoje quase esquecida) foi tão grande que propiciou a eleição de um indivíduo despreparado, inculto, reconhecidamente inepto e para muitos, representando uma ameaça comunista. Apesar da inépcia, o Lula evitou a continuidade das desnacionalizações, mas loteando os cargos entre seus vorazes partidários multiplicou os ferimentos, estes ainda que significativos, quase se eclipsam diante da hemorragia iniciada pelo FHC e não controlada nos governos Lula e Dilma.

Agora, no final do primeiro governo Dilma aparecem providências para diminuir a hemorragia. Diminuir, não estancar. Pois para estancar seria necessário retomar o que foi desnacionalizado. Contudo, graças a boa atuação da Polícia Federal alguns ferimentos serão tratados e quem sabe alguns dos corruptos punidos.

Como seria de esperar, a politicalha toda tenta se aproveitar de tais eventos. O Governo afirmando que sua administração foi a única que permitiu a devassa e a oposição mostrando que os corruptos apanhados são em maioria gente do próprio Governo.

Apesar de tudo fica uma mensagem de esperança: Nem FHC/ Reichstul nem Lula/Gabrielli nem toda a quadrilha que  loteou a Petrobrás conseguiu destruir a nossa Petrobras!!!!  A produção de petróleo no Brasil atingiu recorde em outubro com 2,126 milhões de barris por dia. Outubro foi o nono mês consecutivo de crescimento da produção no país", conforme comunicado oficial.

O maior roubo da História


Revistas, políticos, judiciário, pessoas comuns até jornais do exterior dizem que mensalão e Petrolão foram os maiores roubos da nossa Historia. Sem diminuir a importância dessa ladroagem devemos nos lembrar da venda da CVRD. Avaliada no CONSENSO DE WASHINGTON DE 1982, (FHC presente), por  Rockfeler  e Jorge Soros, de que o valor seria algo em torno de 5,5 TRILHÔES DE DÓLARES.

Pois bem, a CVRD, foi privatizada 15 anos depois, por FHC, por 3,3 bilhões de dólares, compreendendo 7.500 áreas de mineração com as maiores jazidas do mundo, 03 ferrovias, 03 portos de grande calado, 30 navios da Docenave e mais outras menores. Seus funcionários comentam que ainda haveria muito dinheiro em caixa e que o pagamento seria pago com lucro de 06 meses. Que a Vale, estatal, não dava tanto lucro pelos programas de assistência social que executava e que  o preço justo em 1987 seria algo em torno de 7 a 8 trilhões de dólares.

Contudo não podemos nos iludir pensando que não havia corrupção. Havia sim e muita, mas a da venda caberia no livro dos recordes. 

Dinheiro emprestado

Uma pessoa pode necessitar de dinheiro e ter que pedir emprestado, mas para um país que pode imprimi-lo só a necessidade urgentíssima de divisas para compras no exterior (de petróleo ou de alimentos) poderia justificar, mesmo consciente que terá que pagar com juros.

Internamente, quando um governo tem despesas maiores do que suas receitas, se deseja fazer determinadas obras ou o que for, poderá imprimi-lo em vez de contrair um empréstimo.

Ambos causam a mesma inflação e o empréstimo tem os juros e sendo externo, causa a perda parcial da autonomia. Há razões para crer que os pedidos de empréstimo visam mesmo as “comissões”, da mesma forma que as “licitações” dirigidas.

Há que se levar em conta o prejuízo que os juros da dívida tem causado ao nosso País, comendo quase a metade do superávit primário. Vem de longe o golpe da agiotagem da dívida. Esta explodiu com a decisão de FHC que a remunerou a juros exorbitantes. Nós pagamos 11% da divida, talvez os juros mais altos do mundo.

Isto é um crime contra a economia nacional e vem causando a maior parte dos males que enfrentamos,  desemprego, problemas sociais, falta de verbas para obras essenciais, violência urbana, etc. Os EUA pagam 0,5% para os juros da divida interna, a Alemanha paga menos de 1%, a Rússia 1,5%.

O que um bom governo faria, uma vez tendo herdado essa maldita situação? Certamente baixaria os juros.  

– Mas então os credores retirariam o dinheiro emprestado, não é?

Claro que sim e certamente o investiriam em atividades produtivas assim aconteceu quando abolido o tráfico negreiro o capital migrou para a agricultura e indústria, trazendo o progresso. Com juros altos só um tolo empregaria seu capital em um empreendimento produtivo podendo, só com os juros, ganhar mais do que o empreendimento lhe remuneraria.

- E daí? Haveria numerário suficiente para honrar o capital retirado?

- Se não houver, o que fazer?

-  Fácil, imprimir se necessário.


Gelio Fregapani é Escritor e Coronel da Reserva do EB, atuou na área do serviço de inteligência na região Amazônica, elaborou relatórios como o do GTAM, Grupo de Trabalho da Amazônia.

De surpresa em surpresa


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Ana Maria Machado

Há poucos dias, o ministro do STF Luís Roberto Barroso nos instigou a refletir. Falando do mensalão (e o mesmo vale para o petrolão), frisou que o que mais lhe chamou a atenção em todo o caso foi que nenhum dos condenados, em momento algum, revelou arrependimento, culpa sincera ou achou que devia desculpas ao país. Todos se acham vítimas — quando não heróis, guerreiros do povo brasileiro. Acima das leis que valem para os outros. E, espanto dos espantos! Há quem queira lhes dar crédito.

Nenhum se arrependeu. Nenhum sentiu vergonha. Desmentiram Freud, para quem a vergonha, ao causar uma reação involuntária no corpo — o rubor — mostra ser tão forte quanto o desejo sexual ou o asco, que não conseguem controlar as reações físicas que despertam. Mas nossos “heróis” não têm vergonha, não se arrependem, não reconhecem que fizeram nada errado. São juízes de si mesmos e se absolvem.
Isso é surpreendente. Mas os escândalos em série não chegaram a surpreender ninguém. 

Você se surpreendeu ao saber que houve corrupção numa estatal? Ou ao saber que ela envolveu empreiteiros e funcionários pagos com seu dinheiro? A ingenuidade brasileira não chega a tanto. Aceitava essa existência como parte do aparelhamento. Algo inevitável, que se varre para baixo do tapete ou se faz de conta que não há. Quando agora se fala em corrupção espantosa, o espanto não é porque ela existiu.

É com o montante dos valores, o caráter sistemático, a alta hierarquia dos envolvidos, a sua ligação direta com quadros partidários. E com a investigação equilibrada que não entornou antes da hora, não fez estardalhaço prematuro antes das eleições de modo a tumultuar o pleito, administrou bem as delações premiadas, se escorou em informações confiáveis sobre o dinheiro, checou dados com o exterior, talvez recupere parte do prejuízo. E parece caminhar por partes, um passo de cada vez, só indo para a etapa seguinte quando já amarrou a anterior com alguns nós bem apertados.

Mas surpresa? A esta altura não nos surpreendemos facilmente — afinal, vemos corruptos falando em cultura da corrupção, lembrando que todo mundo sempre fez isso, invocando que então se puna o alegado crime de ontem. Quer dizer, tudo nos conformes, a reforçar a versão de que só se faz o que sempre se fez, nada de mais.

No entanto, mais acusados estão colaborando e revelando mais tenebrosas transações a um país estupefato, chamado a pagar a conta. Para respeitáveis observadores, dois fatores contribuem para isso. O primeiro é que o julgamento do mensalão, um ponto fora da curva, rompeu com a tradição de impunidade total e, como lembrou o mesmo ministro Barroso, “foi capaz de condenar e prender o presidente do partido politico que se encontrava no poder e seu ministro mais influente”. 

Além disso, a sociedade vê que operadores ainda têm de cumprir longas penas, enquanto políticos poderosos, por vezes condenados a mais de dez anos, já obtiveram progressão de regime (como a lei garante), estão em casa, e até viajam. Portanto, é compreensível que as famílias de investigados agora pressionem seus chefes a colaborar, para que não paguem o pato sozinhos depois que os políticos escaparem.

E os que mandam em tudo? Não têm mesmo culpa nenhuma? Nenhuma responsabilidade? Não sabiam de nada? Reconhecem que perderam a autoridade e foram enganados por subalternos que lhes davam relatórios fajutos enquanto praticavam malfeitos? Serão culpados apenas de incompetência e boa-fé? Ou sinceramente acreditavam que em nome de interesses mais altos para o país deviam fechar os olhos? Que interesses? Seu projeto de poder? A infalibilidade da causa e do projeto que defendem? Querem que o povo aceite que há um teto de corrupção inerente ao sistema e propõem uma espécie de franquia para isso? De quanto acham que seria palatável? Ou será que se envergonham?

Seria bom se também pudessem ver o que já está claro para muitos. Que governar bem não é ocupar todos os espaços para garantir votos no Congresso. Que campanhas eleitorais não devem pagar fortunas a marqueteiros para construir imagens. Que a reforma política inevitável não precisa jogar montes de alternativas no ventilador e manipular o eleitorado num plebiscito complexo que misture tudo e dificulte a alternância de poder. Pode-se começar com mudanças mais simples: campanhas mais curtas, mais debates diretos e menos partidos.

A Justiça já nos deu importante lição no decorrer desse longo vexame que vem do mensalão e se esparrama agora no petrolão: mostrou que culpado, mesmo poderoso, pode ir para a cadeia. Cabe a todos nós, agora, debater mudanças viáveis e imediatas na legislação eleitoral. Precisamos eleger gente melhor. Respeitadora do artigo único que a Constituição deveria ter, segundo Capistrano de Abreu:

— Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha.


Ana Maria Machado é Escritora. Originalmente publicado em O Globo em 29 de novembro de 2014.

Propensão Genética para roubar


“Só existem dois grupos em verdadeira luta no Brasil: os que estão roubando e os que querem roubar.” 

(Tenório Cavalcanti - mais conhecido como o Homem da Capa Preta, lendário político fluminense e dono do jornal Luta Democrática).

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Waldo Luis Viana

Michel Foucault, célebre pensador, filósofo e médico-psiquiatra francês revolucionou a década de 70, do século passado, afirmando que, afora a demência, todas as doenças mentais são consequência de pontos de vista culturais vigentes na sociedade em certo momento histórico.

Haja vista, a homossexualidade, classificada na década de 50 como doença, incluída no Catálogo Internacional da ONU, e hoje percebida como um comportamento agradável e até motivo de orgulho pelos praticantes, chegados e participantes. Esse movimento acompanha, como repetição ou farsa, os costumes da Grécia antiga, que, no século V aC., apoiavam a homossexualidade como comportamento socialmente aceito, assim como o materialismo e a idolatria de diversos deuses, ditos “olímpicos”.

No Brasil, ganha corpo uma legislação para incorporar a homossexualidade como comportamento aceito e repudia, como delito penal, a homofobia. Só falta uma lei que nos obrigue à prática, contrariando as célebres disposições do Deuteronômio.

Em nosso país, por outro lado, sempre aceitamos o ladrão famoso e rico, o ladrão das elites, como digno de admiração silenciosa e até de elogios cochichados. O honesto subjugado, ou seja, aquele que mesmo que deseje, jamais conseguiria roubar, por medo ou incompetência, sempre admirou a capacidade crítica dos rompedores, dos grandes vigaristas que desafiam as leis caretas e se lançam em enormes tacadas, com suas malas pretas, estilo 007. Os pequeno-burgueses ufanam-se dos protagonistas, transgressores das leis, formadores de quadrilhas, até então inexpugnáveis.

Por outro lado, os brasileiros acham insuportável aquela rama da sociedade que furta galinhas ou pedaços de queijo, os ignorantes que praticam pequenos delitos, seja por fome, pobreza ou falta de instrução: esses recebem a reprovação pública pela ausência completa de “savoir-faire” e abarrotam as Varas criminais, enchendo o saco dos atarefados juízes, que sempre têm mais o que fazer. Resultado: essa escumalha engarrafa as penitenciárias de negros, pardos e pobres, traçando o perfil dos apenados, como uma escória sem voz nem vez.

Os heróis, por conseguinte, estão na outra ponta ou no vértice da pirâmide social. Sua malandragem é socialmente aceita e muito admirada. Grana no exterior, tacadas na bolsa, operações de caixa 2, superfaturamento em obras públicas, contas em paraísos fiscais, empresas de fachadas para “lavar” o dinheiro escuso, laranjas abonados com imóveis e fazendas, comissões do tráfico de drogas e de armas, subornos a políticos e juízes – enfim, há um séquito incontável de bueiros por onde escorre o dinheiro sujo, objeto da secreta admiração de numerosos brasileiros.

Essa disposição psicológica, porém, vem arrefecendo culturalmente por dois motivos: o aparecimento da Internet e o fortalecimento da cidadania através das franquias democráticas. Hoje, a polícia federal, que é uma entidade de investigação digital, pode pegar os grandes ladrões pela gola e o imposto de renda, através da Receita, pode seguir, se quiser, os sinais exteriores de riqueza, como já faz o seu congênere norte-americano há mais de cinquenta anos. Basta "seguir o dinheiro" -- dizem os especialistas...

No entanto, sobra uma peninha nessa discussão: como conceber que pessoas ricas, abonadas às vezes de berço, tentem se locupletar com mais dinheiro e bens, exibindo aquela velha mentalidade de que meter a mão no dinheiro público não é pecado, porque “ele não é de ninguém”?

Tal elite patrimonialista e atrasada poderia sofrer o julgamento reverso às considerações de Foucault, no passado. De admirados personagens, esses donatários da corrupção seriam classificados como indivíduos geneticamente perturbados por afecção patológica, catalogável internacionalmente. Não que isso os eximisse de culpa ou de cadeia. Mas seria um avanço tecnológico para a compreensão forense desses comportamentos delituosos, típicos de certos empresários e políticos.

Aliás, com as instâncias recursais permitidas pelo nosso Código de Processo Penal, somadas à belíssima figura constitucional da presunção da inocência, que  só favorece os delinquentes ricos ou os executores de crimes hediondos, muitos escapam das malhas da lei e só são condenados quando as penas já estão prescritas ou quando o próprio criminoso já morreu, tornando a punião do delito uma tarefa completamente paranormal.

A propensão genética para furtar ou roubar não está adstrita apenas à cleptomania, que afeta indistintamente, como doença, até personagens de boa reputação. É uma tendência mais profunda que deveria ser estudada, de modo mais atento, nesse país, em que os grandes tubarões têm necessidade de engolir grandes quantias, formando quadrilhas e lobbies cujos vestígios agora aparecem na insegurança das brechas deixadas pela informática.

Os grandes ladrões não atiram, são perfumados, vestem ternos caros, possuem colarinhos brancos, empregam centenas de pessoas que nem desconfiam de suas atividades e até cumprem, de fachada, belos papéis sociais. Fico pensando como deve ser duro para um juiz, de causas cíveis, ganhando menos de 30 mil reais ao mês, julgar causas de 200 milhões de dólares de réus louros, de olhos azuis, sorridentes e confiantes à esperada das sentenças. Tais magistrados são torturados, porque são funcionários de Estado sem participação nos lucros ou qualquer comissão pelas sentenças. Como a Justiça sempre ganha, no processo acusatório, seja de uma parte ou de outra, o dinheiro das causas reverte para palácios suntuosos, olhados de longe pelo povo admirado que, quase sempre, neles não entram.

Sou, por conseguinte, inteiramente favorável a que os juízes, desde a primeira instância, recebam comissões sobre as sentenças, a partir de certo patamar e do grau de morbidade das causas, incluindo aí as consequências sociais e exemplares dos delitos e que os médicos forenses possam avaliar neurológica e psicologicamente o comportamento de nossos delinquentes milionários, a fim de ofertar ao mundo uma contribuição brasileira para a mitigação de uma doença tipicamente nacional: a nossa velha propensão genética para roubar e se apropriar, alegremente, do que é alheio.


Waldo Luís Viana é escritor, poeta, jornalista e economista e não tem nenhum juiz na família.