terça-feira, 23 de junho de 2015

As contradições do Antiamericanismo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Para merecer o título de superpotência mundial, um país deve ocupar o primeiro lugar em quatro domínios: econômico, tecnológico, militar e cultural. Os EUA são atualmente o único país – e o primeiro da História – que preenche essas quatro condições de uma só vez em escala planetária.

A União Européia, por sua vez tem avançado muito lentamente na busca da concretização de um centro único de decisão diplomática e militar. Como, sem unidade, poderia ela fazer contrapeso à política externa norte-americana, desde que, para esboçar uma ação, por mínima que seja, precisa de antemão obter a unanimidade dos atuais 25 países-membros?

A União Européia (UE) aos poucos se transformou num paquiderme, face ao inchaço do aparato institucional, já conhecido como eurocracia. Os números impressionam, mas nem só de gente vive a eurocracia. Somente o Conselho Europeu produz diariamente cerca de 3 mil documentos, o que significa mais de 35 mil páginas. Já a Comissão Européia, braço executivo da UE, gera cerca de 10 mil documentos por ano, além dos cerca de 1.500 comunicados à imprensa. O Parlamento Europeu, por sua vez, sequer consegue contabilizar a papelada. O que se sabe é que sua biblioteca acumula mais de 150 mil publicações internas.

Com a admissão dos dez novos membros, chegaram também nove novos idiomas, para os quais os documentos terão que ser traduzidos. Outro elemento complicador da engrenagem eurocrática é a necessidade de rotação da presidência do Conselho, a cada 6 meses exercida por um país. Embora a estrutura central fique em Bruxelas, a cada semestre desloca-se parte do centro do Poder para a capital da vez. A estrutura do Parlamento Europeu também contribui para a confusão administrativa. Os cerca de 700 deputados alternam sessões em Bruxelas, em Estrasburgo e em Luxemburgo.

A conta de tudo isso é salgada. A previsão orçamentária para gastos administrativos em 2005 foi de 6,36 bilhões de euros. Mais de R$ 24 bilhões!

Todos sabem que foram os europeus que tornaram o Século XX o mais negro da História. Provocaram dois cataclismos sem precedentes, que foram as duas guerras mundiais; foram eles que inventaram os dois regimes mais criminosos jamais infligidos à espécie humana. E isso em menos de trinta anos!

Se à decadência européia pelas duas guerras mundiais e pelos dois totalitarismos forem acrescentados os transtornos resultantes das seqüelas deixadas no Terceiro Mundo pela colonização, é lá, na Europa, o local onde devem ser procurados os responsáveis, pelo menos em parte, pelos impasses e convulsões dos subdesenvolvidos. Foi a Europa, ou mais precisamente, foram a Inglaterra, a Bélgica, a Espanha, Portugal, a França, a Holanda e, mais tardiamente, e em menor grau, a Alemanha e a Itália, que conquistaram ou tentaram apropriar-se de outros continentes.

À situação criada pelas tentativas européias de suicídio, constituídas pelas duas guerras mundiais e à propensão dos europeus para engendrar regimes totalitários, também intrinsecamente suicidas, veio juntar-se, a partir de 1990, a obrigação de absorver o campo em ruínas deixado pelo comunismo.

Deve ser louvada a perplexidade do cidadão de Montana, por exemplo, ou do Tenessee, treinando para a intervenção norte-americana na ex-Iugoslávia. Ele pode perguntar-se que interesses têm os EUA em mergulhar no lodo sangrento dos Bálcãs, obra-prima multissecular do inegável talento europeu. Mas nesse caos mortífero que construiu com suas próprias mãos, a Europa revelou-se incapaz de pô-lo em ordem sozinha. Foi necessário, para fazer cessar ou diminuir os massacres balcânicos, que os EUA se encarregassem da operação, sucessivamente na Bósnia, no Kosovo e na Macedônia. Os europeus agradecem de imediato, tratando-os, no entanto, de imperialistas, e chamando-os de isolacionistas vis no momento em que eles falam em retirar suas tropas.

Determinadas críticas infundadas revelam as fraquezas e os fantasmas daqueles que as formulam. Por certo, como todas as sociedades democráticas, a sociedade americana tem muitas deficiências e merece numerosas críticas e a imprensa americana não cessa de fazê-las. Contudo, para exprimir algo mais que a fobia de seus detratores, seria necessário que essas críticas fossem justificadas e os defeitos fossem verdadeiros. Elas seriam legítimas e úteis se baseadas em um mínimo de argumentação racional.

Mas quando Vladimir Putin diz que foram os “crimes” da OTAN – o que significa, segundo ele, os EUA – no Kosovo, que “desestabilizaram” a Iugoslávia – desestabilizada por si só desde 1991 -, está-se em presença não de uma crítica racional, mas de uma mentira deliberada.

Confusão semelhante reina nos espíritos a propósito das realidades econômicas. Por um lado, os estrangeiros censuram os americanos por desejarem “impor aos outros um modelo econômico e social”. Por outro, quando ocorre uma desaceleração nos EUA, os outros países sofrem, mais ou menos, com seus compromissos. Todos, neste caso, ficam à espreita da “retomada” da economia americana, esperando que as suas próprias se grudem nela. Fica no ar uma perplexidade: como é que uma economia considerada tão ruim, da qual ninguém, pretensamente, desejaria copiar as receitas, tem a capacidade de servir de locomotiva ou de freio às economias de tantos outros países?

Por outro lado, o princípio denominado de “razão de Estado”, indiferente à moral e ao interesse dos outros, produziu fracassos na política internacional desde a Guerra de 1914-1918. Ele foi substituído pelo princípio da “segurança coletiva”, levado dos EUA à Europa por Woodrow Wilson, em 1919, e reafirmado com vigor por Franklin Roosevelt e Harry Truman em 1945. A política internacional inspirada nesse princípio é de invenção norte-americana e funciona desde 1945 sob a direção dos EUA. Dificilmente existiria outra que pudesse conduzir a um mundo mais aceitável.

Para que essa política internacional de segurança coletiva – incluindo, evidentemente, a luta contra o terrorismo - não desse lugar a uma “hiperpotência” (palavra cunhada por Hubert Vedrine, ministro francês dos Negócios Estrangeiros no governo da “esquerda plural”, que considerou muito fraco e banal o termo “superpotência”, muito embora o prefixo grego “hiper” tenha o mesmo sentido do latino “super”), seria necessário que numerosos outros países tivessem a inteligência de se associarem à sua elaboração e implementação, ao invés de falar mal dos promotores.

Finalmente, que a economia do final do Século XX e do início do Século XXI seja ao mesmo tempo globalizada, capitalista e preponderantemente norte-americana não é expressão de qualquer “arrogância” e nem mesmo o efeito de uma escolha. É a conseqüência do encontro operado pelo determinismo histórico entre três séries de fatos devidamente comprovados:

- os cataclismos econômicos e políticos produzidos pela experiência, especialmente européia, das economias fechadas entre as duas guerras;

- a demonstração, ampla e definitivamente estabelecida, da incapacidade do socialismo em fazer funcionar uma economia, seja qual for e por pequena que seja;

- o enfraquecimento dos europeus, devido às suas próprias aberrações, acumuladas ao longo de toda a primeira metade do Século XX. Esse enfraquecimento implicou, por contraste e de forma por assim dizer mecânica, a escalada dos EUA.


Artigo escrito com dados extraídos do livro “A Obsessão Antiamericana”, do francês  Jean-François Revel, editora UniverCidade, 2003.


Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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