segunda-feira, 29 de junho de 2015

Continente Sombrio


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Em 1989, o desmantelamento do socialismo real foi saudado como o ponto final do longo período de guerras e tiranias brutais na Europa, que atingira o ápice com o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini. 

A Europa, do Oeste ao Leste, voltava à trilha segura da democracia liberal, baseada na defesa das liberdades individuais. No entanto, as coisas não se passaram exatamente dessa maneira, como relata Mark Mazower em seu livro “Continente Sombrio”, com agilidade intelectual e abundância de dados dos últimos 100 anos da História européia, com ênfase na primeira metade do Século XX.

Com um título provocador, Mazower mostra que as coisas na Europa poderiam ter sido muito diferentes. E quase foram. Os corações e mentes dos europeus não foram propriamente conquistados pelos aliados. Foi sobretudo Hitler quem os perdeu, face ao enorme sucesso popular alcançado pelo nazi-fascismo, primeiro na Itália, nos anos 20, e depois na Alemanha, a partir da ascensão do nacional-socialismo, em 1933.

Foram os excessos de Hitler – campos de extermínio, uso exclusivo da escravidão, guerra total – que comprometeram o projeto nazista.
Trazendo sua análise até os dias atuais, Mazower adverte que o ovo da serpente pode não ter sido totalmente esmagado em solo europeu, a julgar pela inoperância das organizações européias diante do conflito na Iugoslávia que durou cerca de 10 anos.

Nem o fim da Guerra Fria extinguiu o velho hábito europeu de lançar a culpa por suas mazelas sobre os americanos e russos, e esperar deles as eventuais soluções.

Em 1992, anunciava-se a construção de uma nova Europa, confiante e unificada, mas a limpeza étnica no Vale do Drina, na Iugoslávia, na primavera e verão daquele ano, mostrou o quanto isso não passava de retórica vazia.

Na década de 30, Hitler instituiu na Alemanha o Estado do Bem-Estar-Racial, esterilizando e exterminando em massa os menos capazes. Era o “racismo científico”.

O fim dos kulaks em 1930, na Rússia, e a implantação das fazendas coletivas, custaram 11 milhões de vidas.

O ano de 1936 marcou o fim da Liga das Nações.

Na década de 30, na Rússia, os trabalhadores que passavam de um emprego a outro eram acusados de “espontaneidade pequeno-burguesa”. 
A centralidade do pensamento racial, bem como a idéia do assassinato maciço industrializado, constituiu a diferença básica entre o império de Hitler e o de Stalin.

Sob Hitler, a germanização envolveu uma política de negação cultural. As universidades polonesas foram fechadas (como as checas algum tempo antes) e, de acordo com a estratégia de “esterilização espiritual”, restringiu-se a instrução à elementar e profissional. Em maio de 1940 Himmler explicou a política educacional nazista: ”A escola deve ter como objetivo único ensinar a contar, no máximo até 500, a escrever o próprio nome, a obedecer aos alemães e ser honesto, trabalhador e bom. Não acho necessário ensinar a ler. Além dessa escola, não deve haver nenhuma outra em todo o Leste”.

Em 6 meses, mais de 2 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram de fome no cativeiro nazista. Os que não morriam de inanição tinha de caminhar até parecerem mais esqueletos de animais do que seres humanos.

A partir de dezembro de 1941 alguns centros de eutanásia passaram a utilizar unidades de gás fixas, operadas por especialistas, para eliminar o restante da população judaica. Os técnicos da SS desenvolveram dois tipos de gás – o Diamond, com capacidade para 25 a 30 pessoas, e o Saurer, com capacidade para 50 a 60 – e monitoravam as operações cuidadosamente, sobretudo em condições de mau tempo. “Desde dezembro de 1941, processaram-se 97 mil com 3 unidades e as máquinas não apresentaram defeito algum”, informou um relatório. Outros técnicos em eutanásia foram designados para Treblinka e Sobibor.

Nesses e em outros campos de extermínio foram construídas câmaras de gás, que eram ampliadas na medida em que surgiam problemas de capacidade. Auschwitz, concebido para prisioneiros políticos poloneses, também se ampliou.

No início de 1943, Richard Korherr, principal estatístico da SS, elaborou para Himmler um relatório sobre o progresso da solução final, informando que 1.449.692 judeus poloneses já haviam recebido o “tratamento especial”. Ao término do conflito, haviam sido assassinados entre 5 milhões e 6 milhões de judeus europeus. Em alguns países, como Polônia e Grécia, liquidou-se praticamente a comunidade inteira. Outros grupos étnicos também foram dizimados, notadamente 200 mil a 500 mil ciganos, sérvios, poloneses, ucranianos e russos.

Comparando com as técnicas primitivas utilizadas por outros expoentes do genocídio, a Endlösung demonstrou a superior eficiência genocida de uma operação efetuada por uma burocracia moderna com equipamento industrial.

O ouro arrancado dos dentes das vítimas de Auschwitz lotou 72 trens, que rumaram para Berlim.

Como a URSS na década de 30, o Reich em guerra tornou-se uma economia baseada no trabalho escravo. 

Segundo Friedrich Von Hayek, economista austríaco que em 1944 escreveu o livro “O Caminho da Servidão”, a idéia de um socialismo democrático não passa de uma confusão de termos. Qualquer tentativa de realizar essa síntese inexoravelmente encaminharia a sociedade para o totalitarismo. Em 1944, porém, Hayek era uma voz que clamava no deserto.

O deslocamento na época do conflito e após a II Guerra destruiu inumeráveis famílias em todo o continente. Em 1947 havia cerca de 50 mil órfãos na Checoslováquia e 280 mil na Iugoslávia. Cerca de 10 mil crianças sobreviveram à guerra escondendo-se em bosques, em condições de absoluta penúria. Na Holanda, aproximadamente 60 mil crianças precisavam de ajuda; em Bucareste, 30 mil não tinham teto. Muitas dessas crianças não sabiam mais quem eram e de onde vinham.

Durante anos as emissoras de rádio e a imprensa publicaram listas de desaparecidos. Em julho de 1948, três anos após o fim da guerra, ainda faltava identificar cerca de 4 mil crianças.

Os pequenos órfãos desconfiavam de demonstrações de afeto, eram propensos à violência e, muitas vezes, perigosos. Sua emancipação do domínio da lei moral podia manifestar-se no crime, em repentinos e incontroláveis acessos de raiva ou em brutalidades com crianças menores ou mais fracas. Todavia, sua atitude displicente diante da violência também se revelava em suas brincadeiras.

Enfermeiras inglesas se surpreenderam com o estranho comportamento de um grupo de crianças judias que sobreviveram aos campos de concentração. Encerradas num mundo que excluía todos os forasteiros, essas crianças aparentemente não esperavam nenhuma ajuda ou apoio por parte dos adultos. Se uma delas sumia do grupo, as outras concluíam com indiferença: “Ora, morreu”.

O almirante Doenitz, sucessor de Hitler, assinou a capitulação em 7 de maio de 1945. Até ser preso com o restante do Alto Comando alemão, duas semanas depois, chefiou um governo efêmero e cada vez mais controverso.
Em abril de 1947, a proclamação da Doutrina Truman assinalou o início de uma política mais decisiva e francamente anticomunista de Washington para com a Europa. Assinalou, também, o início da Guerra Fria.
A República Democrática Alemã foi oficialmente proclamada em outubro de 1949.

Com a dissolução do Komintern em 1943, Stalin queria indicar que renunciara à revolução mundial. A criação do Kominform, em 1947, no entanto, marcou a deterioração das relações de Moscou com os aliados.
Na Guerra Fria, cada um dos lados usava contra o outro a guerra psicológica e clandestina que desenvolveram contra Hitler. Espião tornou-se o soldado característico da Guerra Fria.

O “Evangelho da Segurança Nacional" acarretou a expansão de vastas organizações estatais de vigilância e espionagem. As atividades dos Serviços de Inteligência deixaram de ser vistas como um apêndice das operações militares.

A paz brutal da Guerra Fria proporcionou à Europa o bem mais precioso – tempo -, que permitiu uma extraordinária e inesperada regeneração de sua vida econômica e uma ampla transformação de seus hábitos políticos.
Apesar dos ritmos diferentes, o modelo adotado por Moscou na Europa Oriental era idêntico: um governo de coalizão, no qual o Partido Comunista preponderava; a marginalização e a repressão dos partidos e grupos dissidentes.

Estudamos o sistema soviético e o tomamos como exemplo”, Tito dissera a Stalin, “mas estamos desenvolvendo formas um tanto diferentes de socialismo”. Depois que a Iugoslávia foi expulsa do Kominform, as lideranças de outros países fizeram de tudo para não ser acusadas de defender “um comunismo nacional”. Atribuiu-se a brecha aberta no bloco soviético a “traidores desprezíveis e lacaios do imperialismo”, a “bandos de espiões provocadores e assassinos”, a “cães que, atrelados pelos americanos, roem ossos imperialistas e latem para conseguir capital americano”.

A necessidade de reconfirmar a infalibilidade soviética acarretou não só expurgos e expulsões maciças, que abalaram o partido e a máquina estatal, mas também uma série de julgamentos exemplares, mormente na Hungria e na Checoslováquia. O esforço para demonstrar lealdade a Moscou, desmascarando “agentes inimigos”, espalhou o terror como um vírus no seio do partido soviético. 

Em agosto de 1948 o ministro romeno Lucretiu Patrascanu foi preso; no mês seguinte Wladyslaw Gromulka, outro “desviacionista nacionalista”, perdeu o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista Polonês. Líderes albaneses e búlgaros foram detidos e julgados. Na Hungria, Laszló Rajk foi transferido do Ministério do Interior para o do Exterior em agosto de 1948 e preso em maio do ano seguinte.

Primeiro em Berlim Ocidental, depois na França e na Itália, a insatisfação dos jovens com a esquerda expressou-se numa crítica radical ao desenvolvimento social no pós-guerra. Em dezembro de 1966, pouco antes do Natal, por exemplo, estudantes organizaram uma manifestação junto ao Ku’demm, símbolo da nova cultura consumista de Berlim. Atacaram “o mito da democracia ocidental” e recorreram a críticas marxistas ao consumismo para expressar o vazio e o autoritarismo que viam ao seu redor.

Para uma geração posterior, e talvez mais cínica, o torvelinho de 1968 era menos impressionante que seus protagonistas, mais um estardalhaço que uma conquista duradoura, um produto que era resultado, sob muitos aspectos, do mesmo progresso que os estudantes atacavam e ainda por cima um produto não-representativo.

Apesar do rápido crescimento da população estudantil, só uma pequena parcela da juventude envolveu-se de fato nos tumultos: em meados da década de 60, apenas 5,5% dos jovens de 20 anos eram universitários no Reino Unido, 8,6% na Itália, 7,7% na Alemanha Ocidental e 16% na França. Faltava clareza às suas reivindicações: a ênfase no presente e na liberdade absoluta atrapalhou a formulação de exigências corretas. Quando, por fim, se expressaram de modo organizado, essas reivindicações assumiram a forma de um extremo sectarismo marxista – Stalin, Mao e a“grande República da Albânia”.

Os acontecimentos de 1968 criaram, assim, uma ala esquerdista periférica, fragmentada e dogmática, tentada à violência e incapaz ou sem vontade de compreender as proporções do triunfo do capitalismo. Essa ala tinha estilo de vida próprio, com intermináveis proclamações, críticas e teses públicas, bem como uma paixão por gurus intelectuais cujos pronunciamentos não impediram que seus seguidores fizessem uma leitura totalmente errônea da situação política. Tal afastamento das realidades do Poder alcançou sua expressão culminante na terrorista Facção do Exército Vermelho, da Alemanha Ocidental, que se considerava uma guerrilha urbana engajada numa luta antiimperialista sob o slogan “Vitória na Guerra do Povo”.

Na Itália e na França os protestos de milhares de estudantes logo foram complementados por uma onda de greves, com milhões de sindicalistas exigindo uma participação mais justa na sociedade em crescimento. Contudo, havia uma diferença: os estudantes queriam acabar com o capitalismo; os trabalhadores queriam desfrutar mais de suas benesses.
Seria a última vitória da velha classe operária num Século de luta organizada, antes que a recessão, o desemprego em massa e a reestruturação global a destruíssem em pouco mais de uma década.
 

No Leste-Europeu os custos eram visíveis na pele e nos pulmões da população. Na década de 80, a poluição constituía um lembrete assustador da fracassada tentativa comunista de dominar a natureza. A Europa Oriental se transformara num desastre ecológico, com rios morrendo e florestas áridas, cidades sujas, monumentos em ruínas e pessoas doentes.

Emitia mais anidrido sulfuroso que a Comunidade Européia – a Alemanha Oriental emitia essa substância quatro vezes mais que a Ocidental. No entanto, longe de ser repudiada, essa industrialização antiquada, dispendiosa, improdutiva e prejudicial ao meio ambiente – recebia o investimento de sempre. Os chefes do partido estabeleceram bases de poder em torno das velhas indústrias, que resistiam aos desafios de pretensos modernizadores e até, como no caso da Polônia de Gierek, os conduziam à liderança nacional.

A obsessão pela indústria pesada também criara um vasto operariado do qual o regime se arvorara em porta-voz: como se poderia sacrificá-lo no altar da racionalidade econômica? Os regimes comunistas não podiam, por motivos políticos, ajustar a economia por meio da deflação ou do desemprego maciço, como ocorria no Ocidente.

Assim, adotaram a estratégia oposta e, em vez de tirar os trabalhadores do emprego, prefeririam deixar que os consumidores continuassem sofrendo com a escassez e a má qualidade dos produtos. Entretanto, os trabalhadores também eram consumidores e nem sempre correspondiam aos sentimentos do regime. Em 1980, o surgimento do sindicato Solidariedade, na Polônia, mostrou a ameaça que representam trabalhadores voltados contra o partido que dizia governar em seu nome. 

A consciência de que a realidade sobrepujava a teoria socialista em vez de ser dominada por ela, fatalmente levou o partido a descrer da própria missão de governar. Essa foi a principal tendência política de boa parte das duas últimas décadas do comunismo: não à emergência da oposição aberta e sim ao lento declínio de um partido que acreditara em si mesmo. Com o fim da crença na ideologia socialista e de qualquer esperança de suplantar o Ocidente economicamente, no início da década de 1980, o partido passou a ter pouca serventia. Degenerou-se numa nomenklatura privilegiada e num instrumento cada vez menos capaz de administrar uma crise.

Os anos Brejnev caracterizaram-se pela estagnação e pelo conservadorismo ideológico de Mikhail Suslov, o sumo sacerdote da pureza doutrinária soviética. Mas, sob a superfície havia indícios de novas formas de pensar as relações da União Soviética com a Europa Oriental. Yuri Andropov, o sucessor de Brejnev, atuara como embaixador soviético na Hungria em 1956, antes de comandar o principal departamento do Kremlin com os partidos comunistas do Leste Europeu. Ali reuniu à sua volta um grupo de reformadores que na década de 1980 galgaria posições elevadas. Dirigente da KGB durante a maior parte da era Brejnev, percebia com mais clareza que muitos de seus colegas a situação ruinosa do império comunista e, depois da crise polonesa de 1980/1981, falou francamente sobre a necessidade de novas idéias e a urgência de uma reforma econômica.

Estimulados pela morte de Brejnev e pela ascensão do reformista Andropov, em 1983, os eruditos russos envolveram-se num vigoroso debate sobre a existência real de uma comunidade socialista. Já os reformadores falavam de “princípios democráticos comuns de não-interferência em assuntos internos”.

Em 1985 Gorbachev foi eleito Secretário-Geral, tornando-se o apparatchik mais jovem a ocupar o posto. Sua prioridade era interna – enfrentar o desafio econômico da União Soviética, substituindo o modelo de crescimento stalinista (desenvolvimento extensivo baseado na indústria pesada) por um mais moderno, com nova tecnologia e alta produtividade. Seu paradigma era o Lenin da Nova Política Econômica (NEP), pragmático, mas, contudo, fiel à causa do socialismo. Na cabeça desse engenhoso produto do sistema comunista, aperestroika visava, pois, a regeneração da economia soviética, e não a sua destruição. Muito menos a destruição do sistema de partido único.

Sob muitos aspectos, o programa de reformas de Gorbachev assemelhava-se ao que já se procurava implementar em alguns países do Leste Europeu. Havia, porém, uma diferença doutrinária fundamental. Gorbachev tinha muito mais liberdade que as lideranças da Europa Oriental para especular sobre os aspectos políticos das reformas. Logo se tornou claro que para o líder soviético o sucesso da reestruturação da economia – e da revitalização do socialismo – dependia de maior liberdade de informação – a glasnost – e até mesmo, numa frase extraordinária, da “democratização de todas as partes de nossa sociedade”.

As implicações na política externa demoraram a evidenciar-se. É óbvio que Gorbachev não previu e não desejava o esfacelamento do império soviético, muito menos o da própria União Soviética. Salientou, entretanto, que a futura cooperação entre Estados e repúblicas teria que ocorrer sem qualquer tipo de coerção. “Chegou a hora de abandonar concepções de política externa influenciadas por uma visão imperial”,escreveu em 1987. “É possível suprimir, obrigar, quebrar ou destruir, mas só por um determinado período”.

Uma visão retrospectiva mostra que o comunismo já havia acabado em abril de 1989, quando os comunistas poloneses implicitamente reconheceram a legitimidade do sindicato Solidariedade, convidando-o às mesas-redondas. Nesse momento, porém, poucos previram as transformações que logo se sucederiam em toda a região. Afinal, Gorbachev só assegurou seu programa de reformas depois de derrotar seu principal adversário, o conservador Igor Ligachev, em outubro de 1988.

Acasos e erros sucediam-se, enquanto o império desmoronava. Se na Polônia a mudança se deveu ao enfraquecimento do partido, na Hungria deveu-se à força do partido que, arrogante e demasiado seguro, erroneamente se julgou capaz de controlar uma oposição fragmentada. O que o partido só percebeu, tarde demais, foi que por trás da oposição política havia um anseio popular de mudança, manifestado nas enormes multidões que se reuniram para comemorar o aniversário do levante de 1848, para acompanhar os novos funerais de Imre Nagy ou para assistir ao comício alternativo do Primeiro de Maio, que suplantou o oficial.

Relacionando as transformações ocorridas na Polônia à desesperadora fraqueza da economia local, os governantes da Alemanha Oriental e da Checoslováquia sentiam-se protegidos por sua força econômica. A economia, entretanto, não foi o único fator do colapso. Houve também uma espécie de efeito dominó. Em meados de 1989, quando os húngaros liberaram sua fronteira com a Áustria a fim de chamar a atenção internacional para os sofrimentos da minoria húngara na Romênia, a inesperada conseqüência foi um êxodo de alemães orientais através da Hungria, ressaltando a impopularidade do governo de Erich Honecker. A crise doancien regime estendeu-se por alguns meses na Polônia, mas durou apenas algumas semanas na RDA e na Checoslováquia. Como em 1848, uma rebelião desencadeou outra, porém dessa vez não houve reconquista imperial, pois ninguém acreditava mais em império.

É compreensível, portanto, que muitos observadores ficassem pasmos ante as multidões imensas que surgiram para protestar contra a velha ordem em seus momentos finais. Fazendo, talvez, sua última aparição na história da Europa, essas multidões representavam tanto uma afirmação da falência do comunismo quanto um presságio da instabilidade que poderia advir, se não se estabelecesse uma nova ordem política, mais legítima.

A partir daí, na Europa, em comparação com outras épocas históricas e outras partes do mundo, os habitantes do continente passaram a desfrutar uma extraordinária combinação de liberdade individual, solidariedade social e paz. No início do Século XXI, o panorama internacional era mais pacífico que nunca. Se os europeus conseguirem superar seu ardente desejo de encontrar uma única definição viável de si mesmos e se conformarem com um lugar mais modesto no mundo, poderão aceitar mais facilmente a adversidade e a dissensão que serão tanto seu futuro quanto seu passado. 

Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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