sexta-feira, 19 de junho de 2015

Federico Sanchez se despide de ustedes


“O Poder, nos sistemas totalitários, é tão avassalador que, tomando-se por razão de ser as vidas humanas, encarna também a justificação da morte. Foi no campo de concentração de Buchenwald que primeiro Semprun sentiu a opressão imposta pelo partido. Havia uma célula comunista em ação, no próprio campo, organizada por um contra-poder. Jorge Semprun percebeu que existia um sistema opressivo dentro do outro. O comunismo, embora pregue uma sociedade sem classes, não tem nela o seu horizonte real. O horizonte do comunismo, incontornável, é o horizonte do Gulag”. (Orelha do livro “Federico Sanchez se Despide de Ustedes”)

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Jorge Semprun foi militante do Partido Comunista Espanhol utilizando o codinome de “Federico Sanchez”. Filho de um embaixador, nasceu em 1923; em 1939 licenciou-se em Filosofia na Sorbonne; ingressou no PC Espanhol em 1942 e lutou, desde muito jovem, na Resistência Francesa; foi preso em 1943 e deportado para o campo de concentração de Buchenwald, de onde só saiu em 1945, libertado pelas tropas do general Patton. Cultuou a personalidade de Stalin e tornou-se membro do Comitê Central e responsável pelo trabalho clandestino do partido em Madri.

Seu conhecimento direto do que foi a luta anti-franquista levou-o, então, a afastar-se das posições triunfalistas dos dirigentes e o choque com Santiago Carrillo, então Secretário-Geral, tornou-se inevitável. Logo veio a sua expulsão, em 1964. Seu crime: revisionismo. Jorge Semprun foi considerado de direita. De direita por reconhecer a realidade e analisá-la com rigor, condição preliminar a toda vontade séria de reforma e de transformação. Em troca, ser de esquerda consiste em proclamar de maneira voluntarista e dogmática a ruptura social, o salto adiante. Ou melhor, o salto no vácuo.

O renegado abandonou seu nome de guerra e recuperou sua identidade, escreveu diversos livros e foi Ministro da Cultura do governo socialista de Felipe Gonzalez, entre 1988 e 1991. Mas somente em 1963, 18 anos após sua libertação, se sentiu em condições de descrever sua experiência em Buchenwald, com o livro “A Grande Viagem”, pois o cheiro de carne humana queimada, a fumaça do forno crematório afugentando os pássaros, a morte praticada em escala industrial pelo regime nazista, o mal absoluto, que tudo invadiu e devorou, parecia-lhe intransmissível.

Semprun posteriormente, já ministro, assinala que antes de assumir esse cargo tinha mais poder. Tinha mais poder quando era FedericoSanchez, na clandestinidade. Centenas de militantes confiavam nele, pois encarnava uma realidade obscura, porém, naqueles dias, considerada coerente: a Revolução de Outubro, classe operária mundial, futuro radiante, dirigente do partido. Por isso, qualquer que fosse o codinome que utilizasse, adquiria um poder pessoal, delegado, sem dúvida, porém inquestionável.

Em determinadas ocasiões, absoluto poder de vida ou morte, considerando que os militantes colocavam em jogo a sua liberdade e, às vezes, suas vidas, em ações para as quais eram convocados. Um a um, ao longo dos anos, jovens ou menos jovens, universitários ou operários, Semprun os recrutava para ações. Alguns apresentavam dúvidas, dissipadas por ele. Alguns tinham temores e ele os tranqüilizava. Isso tudo durante cerca de 10 anos.

“Todavia, hoje” – relata Semprun – “escuto o eco, reencontro as digitais daquele poder de antigamente. Em qualquer lugar, em um salão, em um café ou na rua, alguém se dirige a mim e me recorda as circunstâncias distantes de algum encontro clandestino. Por que – parece que me pergunta – eu o havia embarcado naquela aventura para depois abandoná-lo à sua sorte? Porém, ele sabe em seu foro mais íntimo, que eu não o abandonei, que foi aquela aventura nossa que nos abandonou, a nós dois, a ele e a mim”.

Em um de seus livros – “Autobiografia de Federico Sanchez” – escreveu um capítulo intitulado “Para o Conhecimento Exclusivo do Comitê Central”. Desse capítulo é o resumo abaixo:

“Muito pouco se pode esperar dos grupos de filiação leninista, maoísta ou trotskista, porque todos eles saíram da mesma matriz, do mesmo molde, porque nenhum deles voltou a questionar os problemas da vanguarda proletária, todos tidos como historicamente resolvidos com a experiência bolchevique. Enquanto não se atacar na raiz leninista as questões do partido, sua ligação com as massas, sua concepção de autonomia operária, não teremos acrescentado grande coisa. Enquanto o partido nos obstruir o horizonte como um monólito, nada teremos resolvido.

‘O partido resume tudo’, já o disse Fidel Castro. E ponto final.

Convém, no entanto, afirmar algumas verdades históricas.
Em primeiro lugar, tem-se que compreender que o partido comunista não pode ser o fim, mas um meio, um instrumento conjuntural, sempre passível de modificação, do movimento revolucionário. Um instrumento entre outros, como são os sindicatos, as organizações de massa, as associações de bairro, os movimentos ecológicos. Ou seja, todas as formas organizadas de luta que permitam ou favoreçam a ampla participação popular.

De todas elas, o partido se distingue por duas características principais que constituem a um tempo a sua força e a sua fraqueza. A primeira é a permanência histórica, ao longo de ciclos ininterruptos e quaisquer que sejam as dificuldades objetivas de sua organização. A segunda, sua aplicação predominante na esfera específica do político. No entanto, a permanência da organização, tão necessária por um lado, é uma fonte geradora de rotinas e ritos, de preguiça mental e de submissão. E sua inclinação para agir na esfera política, indispensável porque não pode haver empresa revolucionária que não abranja a questão do Poder, é assim mesmo alienada e reduzida. A política é o Estado e a revolução comunista não tem sentido sem a supressão do Estado.

Tudo o que foi dito significa, em suma, que a revolução não deve estar a serviço do partido, mas este a serviço da revolução. Ver-se-á que o Partido – assim com maiúscula como escreve Fidel Castro – da codificação staliniana de um certo leninismo, terminou convertendo-se no fim supremo do movimento comunista. Produziu-se uma total inversão de valores e de objetivos históricos. Já não parece que o fim supremo de todo revolucionário – por longínquo e difícil que ele resulte - consista em fazer a revolução, mas em manter o Partido (continuo com a maiúscula).

Manter a unidade, a disciplina, o pensamento correto - e sabe-se que o único critério deste reside nas decisões dos chefes -, a ideologia quase religiosa do Partido, qualquer que seja sua estratégia política, e ainda é claro, diga-se, que a dita estratégia só conduz a uma série ininterrupta de fracassos.

O Partido se converteu num fim em si, num ente devorador e metafísico, cuja principal vocação consiste em perseverar em seu próprio ser. E isso implica que os elementos de adesão acrítica, para-religiosa ou paralisante, predominem sobre os elementos racionais.

Portanto, volto a repetir, todo o passo para frente que pretenda se livrar dos obstáculos do stalinismo sem uma recaída na tradição anterior da social-democracia – ambas as vias têm provado a sua esterilidade e daria calafrios calcular quantos milhões de mortos que elas causaram nas classes trabalhadoras deste século – exige que seja radicalmente reposto o problema da relação entre a classe e sua possível vanguarda.

A segunda verdade, que aflora da experiência histórica, pode parecer escandalosa. É que, em vista dos fatos, o partido comunista não serve para nada. Quero dizer: não serve para os fins que motivaram e justificaram a sua criação, dentro dele e em oposição ao movimento social-democrático predominante no princípio deste século. Não serve nem para tomar o Poder nem para instaurar o socialismo.

Tomar o Poder? No caso da revolução cubana, que é o mais recente exemplo histórico, não é necessário argumentar-se longamente que o poder não foi tomado pelo partido comunista (que se denominava Partido Socialista Popular), senão contra ele ou, pelo menos, à margem dele e a despeito dele. Quando Fidel proclamou que ‘o Partido é tudo’ que ‘nele se sintetizam os sonhos de todos os revolucionários’, não somente está flutuando no céu das verdades teologais, como está falseando a história do seu próprio país, de sua própria revolução.

Dirão, sem dúvida, que a revolução de 1917, na Rússia, é um exemplo clássico da tomada do Poder por um partido comunista, pelo partido bolchevique. Ora, isso também não é verdade.

Que fez Lênin em primeiro lugar, em abril de 1917, ao chegar a Petrogrado? Desmanchou, desmantelou a estratégia, a concepção das diversas fases da revolução, a própria estrutura orgânica do partido – seu partido -. Que se saiba, o lema no momento era ‘todo poder aos sovietes’ e não ‘todo poder ao partido bolchevique’.

Com esta última palavra de ordem não teria havido a revolução. É que o germe de universalidade que havia na expressão ‘todo o poder aos sovietes’, se localizava precisamente nesse tipo de vinculação da vanguarda com as massas, que fazia daquela mera expressão concentrada e coerente das aspirações destas; o germe da universalidade residia nas formas soviéticas de um poder de novo tipo.

Quando o partido deixa de ser isso, quando começa a devorar cancerosamente todo o tecido social, a homogeneizar todas as formas de vida social em função de uma concepção despótica, ainda que se pretenda esclarecida, da hegemonia, quando o partido destrói o pluralismo e liquida as formas do Poder soviético, então a revolução russa perde sua significação universal e se converte em uma simples peripécia particular de acumulação do capital social numa sociedade atrasada.

Mais tarde, o fracasso da desestalinização engendrada por Kruschev demonstrou que o sistema de capitalismo de Estado burocrático não pode se reformar a partir de cima, mas que tem que ser destruído pela base. Esta última solução é praticamente impensável, dada a diferença de forças. Em verdade, pensar na situação social dos países do Leste significa pensar no aparentemente impensável. Quem o fizer, exige forjar conceitos novos para pensar. Exige que se reinvente as armas da crítica e a crítica das armas. Quero dizer, de violência popular. A santa, justa, destruidora e positiva violência popular.

Afinal, Fidel Castro tinha razão: ‘o Partido resume tudo’. Nele se resumem e se concentram todos os aspectos negativos da situação, todos os obstáculos no caminho hipotético de uma solução. É preciso acabar com os partidos comunistas de tradição kominterneana.”

E conclui Jorge Semprun, como que falando para si mesmo:

“Você tem toda a razão do mundo. Se analisar friamente a realidade tem toda a razão do mundo. Porém, você pode analisar friamente a realidade do partido? Claro que não. Você sabe que disse a verdade objetivamente. Ao menos parcialmente. Você disse uma verdade que se poderia argumentar e se explicar historicamente ao longo de muitas e muitas páginas. Não vá virar as costas para essa verdade. Muito trabalho lhe custou chegar a ela.

Tempo demais você gastou para conquistá-la, para esquecê-la apenas pronunciada. Porém essa realidade objetiva não recobre toda a realidade do partido. Ou seja, a realidade dos comunistas de carne e osso. Você se lembrará dos comunistas de carne e osso. Você sempre se lembrará. Você se lembrará dos comunistas que lhe abriram a porta e fitaram a você, Desconhecido. E você dizia a contra-senha e lhe abriam a porta e você entrava em suas vidas e nelas introduzia o risco da luta. Do cárcere, talvez.

Você se lembrará dos desconhecidos militantes. Você se lembrará dos comunistas! Sem nenhuma dúvida!

Adeus para sempre, camaradas!”

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

Um comentário:

Anônimo disse...

É incrível como alguém pode cair nessa lavagem cerebral que é Marx e o comunismo. Assim como os seguidores de Maomé, O nazismo, as cruzadas da igreja católica eles simplesmente não se importam com o estrago que fazem na humanidade. Eles nos tratam como loucos, fazem suas atrocidades e ainda dizem que é sua imaginação ou exagero e o pior culpado é a mídia que não se importa (e nem tem ética) de mostrar o errado sendo que no fim do mês caia seu dinheiro. Dizem que a 3ºguerra já começou só não foi ainda declarada. Começo acreditar, porque a cada dia aumenta a pressão pra decidir de qual lado as pessoas estão.