domingo, 19 de julho de 2015

59 anos do XX do Congresso do PCUS


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

O pronunciamento de Nikita Kruschev continha poucas coisas que já não fossem conhecidas e que não tivessem sido denunciadas.

“O que era insuportável não era o fato de Stalin ter sido um tirano e nem saber que Trotski esteve a soldo da Gestapo, ou que Bukharin organizou sabotagens e crimes terroristas. O que era insuportável era ter vivido à luz glacial dessa crença esquizofrênica, numa divisão aberrante e castradora da consciência moral e teórica” (Jorge Semprun)

Muito tinta já foi gasta escrevendo sobre o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) que condenou a política e os erros de Stalin na condução da pátria do socialismo. No entanto, acreditamos que nem tudo tenha sido dito ou, pelo menos, da forma que agora será exposto.

Nesse Congresso – realizado de 14 a 25 de fevereiro de 1956 - o discurso secreto de Nikita Kruschev, pronunciado no último dia denunciando os crimes de Stalin, foi também um ato de arrependimento pessoal, uma vez que ele havia sido um estreito colaborador do ditador nos anos 30. Comunistas poloneses passaram o texto à Inteligência de Israel que logo o repassou para a CIA. Esta, por sua vez, através do Departamento de Estado, o deu ao New York Times que o publicou na íntegra.

Pode ser deduzido que, ao atacar Stalin e, por extensão, a suposta infalibilidade do Partido Comunista, Kruschev, sem se dar conta, minou os fundamentos do regime soviético e do comunismo no mundo.

Na realidade, o Informe continha poucas coisas que já não fossem conhecidas e que não tivessem sido denunciadas. As torturas, as “confissões” e os assassinatos dos anos 30, a deportação de povos inteiros após a II Guerra Mundial, a paranóia que gerou a noção de “inimigo do povo” e a constante fabricação publicitária de “centros anti-soviéticos” que deveriam ser exterminados, foram descritas e denunciadas por Kruschev.
Mas o que ficou em evidência foi que, a partir de então, não se poderia impedir que esse discurso se convertesse no primeiro precedente de uma nova etapa na qual seria impossível atribuir somente aos “contra-revolucionários trotskistas” ou à burguesia internacional a denúncia da era stalinista.

O texto abaixo é irônico. Foi escrito por Jorge Semprun, membro do Comitê Central do Partido Comunista Espanhol, expulso em 1964 por ter – como ele mesmo diz – “resolvido passar a pensar com a própria cabeça”. Jorge Semprun esteve preso no campo nazista de Buchenvald, sendo libertado ao final da guerra, em 1945. Aliás, libertado não. Ele simplesmente saiu do campo, pela porta principal, pois os guardas já haviam fugido em face de aproximação das tropas aliadas.

Escreveu Jorge Semprun sobre o XX Congresso do PCUS:

“Podemos imaginar a cena:[*]

O XX Congresso foi realizado em uma grande sala do Kremlin. Podemos facilmente imaginar a média de idade dos delegados, as roupas que usavam. Aliás, para a média de idade não precisamos imaginar; temos os dados numéricos. Sabemos muito bem que o sistema político russo é um despotismo gerontocrático. Mas essa característica do sistema não resulta do fato de Stalin ou Brejnev terem lido Platão, oh, não, de modo algum!

Provém de uma exigência sociológica interna. Os dados numéricos confirmam essa afirmação. Em fevereiro de 1956, no XX Congresso do PCUS, segundo o relatório apresentado por Aristov em nome da comissão de mandatos, 79,7% dos delegados tinham mais de 40 anos, dos quais 55,7% tinham de 40 a 50 e 24% mais de 50 anos. Isso quer dizer que a imensa maioria dos comunistas presentes ao XX Congresso tinha pelo menos 20 anos no momento em que foi iniciado o terror contra o próprio partido. No momento em que Stalin colocou Iejov à frente da NKVD (já viram um retrato de Iejov? Já contemplaram o seu rosto atormentado, o olhar insano, o ar de quem saiu diretamente de Os Possessos, de Dostoievski?) para liquidar os termidorianos que estavam no Poder e recuperar os 4 anos de atraso sofridos pelos organismos de segurança, segundo Stalin, na luta contra os inimigos do povo.

O terror, portanto, não pertence à pré-história, para esses homens e mulheres de idade madura, reunidos à noite, para uma sessão especial a portas fechadas, na grande sala do Kremlin. Eles devem recordar, sem dúvida. O terror faz parte da história deles, da sua experiência adulta. Além do mais, se acreditarmos nos números apresentados por Aristov, quase 70% deles havia aderido ao partido a partir de 1931. A maior parte dos delegados, portando, não só havia atingido a idade adulta, a idade do homem, no momento em que o terror de Stalin se voltava para as próprias instituições e elites da nova sociedade de exploração, entre as quais começava a despontar o horizonte do Termidor, mas essa maioria de delegados havia aderido ao PCUS precisamente nessa época.

Estavam lá, portanto, na grande sala do Kremlin, silenciosos, abatidos, alguns perdendo os sentidos, outros chorando lágrimas de sangue ao escutar o relatório atribuído a Kruschev. Estavam lá os homens e as mulheres que haviam aderido ao partido de Stalin, para preencher os vazios abertos por ele com o ferro em brasa da repressão.

Estavam lá os homens e as mulheres que haviam ajudado Stalin a estabelecer o seu poder absoluto, no sentido literal do termo, isto é, absolutamente independente de toda determinação, mesmo em última instância (oh, íntegros doutores da fé marxista), pela economia, pelas estruturas de classe da nova sociedade russa.

Pois o poder pessoal de Stalin foi, sem dúvida, um dos instrumentos dados à nova classe dominante para instaurar o seu domínio – se me perdoarem esta expressão contemporânea, cortando rente os tecidos sociais, na multiplicidade heterogênea dos fatores históricos, pois é evidente que a classe é um conceito mais ou menos operacional, e que os conceitos, mesmo os mais operacionais, não se apossam de nenhum instrumento e não instauram nenhuma dominação a não ser para a necessária, não é preciso dizer, reconstrução histórica, pelos homens, de sua própria história; mas, tendo dito isso, repitamos que o poder pessoal de Stalin, instrumento da nova classe dominante, tornou-o relativamente autônomo no final dos anos 30.

E o sinal mais evidente dessa autonomia foi a capacidade de desencadear contra essa burocracia, da qual ele mesmo se originou e a qual representou durante um período histórico, a repressão pelo sistema de ondas sucessivas e ininterruptas de terror, não somente a submissão devota da burocracia mas também a mobilidade social no interior da mesma, pela destruição e reconstituição permanentes e disfuncionais da elite.

Em suma, foi o terror que assegurou, a partir de certo momento, a circulação dos postos, dos valores e das gratificações sociais dentro da burocracia. E o fim desse período, o fim do terror como motor exógeno e mortífero do desenvolvimento da burocracia, foi o que Kruschev anunciou a todos aqueles homens e a todas aquelas mulheres, na famosa noite de fevereiro de 1956, numa sessão a portas fechadas do XX Congresso. Dali em diante, anunciou ele, uma nova racionalidade, que não seria aquela, aberrante e imprevisível do poder absoluto e particular de Stalin, mas a dos interesses gerais de sua classe – a palavra não seria mais pronunciada, naturalmente. Só se falaria dos interesses do Povo, da Nação, do Estado russo -, presidiria a distribuição dos privilégios e prebendas, o estabelecimento das relações de força e de Poder. Eis a mensagem desse relatório secreto, mensagem completamente compreensível para a centena de delegados vindos das profundezas glaciais da história russa.

Podemos imaginar a cena, sem dúvida.

Nikita Kruschev já estava na tribuna. Martelava suas frases. Gritava, por momentos, e sua voz tremia nos agudos. Despejava verdades monstruosas umas depois das outras. Mas essa voz aterrorizante que descobria a náusea da memória de todos, não era, desta vez, a voz didática e monótona de um Pai todo-poderoso e remoto, inacessível. Era a própria voz de todos ali. Nikita Sergheievitch era um deles e as centenas de homens e mulheres reunidos nessa ocasião sinistra e solene podiam identificar-se com ele.

Como ele, haviam contribuido para derrotar todas as oposições. Como ele, haviam derrotado o próprio partido. Como ele, haviam cantado louvores a Stalin. Muitos deles, sem dúvida, haviam assistido ao XVII Congresso do PCUS, em março de 1939. Lembravam-se, talvez, de que Kruschev já havia subido à tribuna, no dia 13 de março de 1939, para falar nos sucessos do comunismo na Ucrânia. Talvez se lembrassem das palavras de Nikita Sergheievitch, naquele dia longínquo de 1939, no momento exato em que a guerra na Espanha terminava em sangue, derrota e confusão, por causa, principalmente, da nefasta política de Stalin, cegamente posta em prática pelos conselheiros do Komintern e pelo grupo dirigente do Partido Comunista Espanhol.

“Esses sucessos não se produziram espontaneamente”, declarara Kruschev no XVIII Congresso, “foram conquistados no combate contra os inimigos da classe operária e dos camponeses, contra os inimigos de todo o nosso povo, na luta contra os agentes dos serviços de espionagem fascistas, contra os trotskistas, os bukharinistas e os nacionalistas burgueses”. Lembravam-se, talvez, pelos menos alguns deles, da conclusão do discurso de Kruschev em março de 1939: “Viva o maior gênio da humanidade, o Mestre, o Chefe que nos conduziu vitoriosamente para o comunismo, nosso querido Stalin!”
Eles se lembravam do querido Stalin, sem dúvida. Tremiam, ainda, retrospectivamente, com um horror respeitoso e tímido”.

Notas:

[*]  Livro “Um Belo Domingo”, Jorge Semprun, editora Nova Fronteira, 1980.  


Carlos I.S. Azambuja é Historiador.

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