sexta-feira, 10 de julho de 2015

A Nova Face dos Movimentos Antiglobalização


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I.S. Azambuja

Táticas denominadas “liliputianas” dão aparência de espontaneidade ao que, na realidade, constitui uma gigantesca articulação

Desde a realização do 1º Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, RS, em 2001, circulam na Internet textos diversos deixando clara a existência de uma articulação dos milhares de movimentos comunistas e de antiglobalização em todo o mundo.

Tais movimentos não se articulam de maneira hierárquica, em torno de um partido ou de uma entidade de massas, como ocorreu desde o final do Século XIX com os diversos partidos e organizações de esquerda. 

Hoje, após a queda do Muro de Berlim, seguida do fim do Partido Comunista da União Soviética e do desmonte do comunismo internacional, com o desaparecimento dos secretários-gerais e dos apparatchiks, como poderia essa militância tão desorganizada, que acredita que todos os problemas a serem enfrentados são conseqüência da desregulamentação global, processo que – é verdade - vem concentrando o poder e a riqueza em cada vez menos mãos, juntar-se para responder aos esforços daqueles que querem organizá-la? 

Para isso vem sendo implantado um novo modelo: o das chamadas “redes”. Sem esse sistema de “redes”, que atua basicamente através da Internet, não teria sido possível convocar as mobilizações com um mínimo de burocracia e hierarquia, uma vez que a época dos manifestos, discutidos em intermináveis reuniões, está sendo superada pela cultura de intercâmbio frenético e compulsivo da informação. Os grupos permanecem autônomos, porém sua coordenação internacional é hábil e seu efeito, com freqüência, devastador, face à sua capacidade de atuar comparativamente a uma nuvem de mosquitos (*).

As “redes” utilizam a Internet para tudo: desde catalogar as últimas reuniões do G8 e demais organismos internacionais, bombardear a Shell ou a Esso com fax e e-mail, difundir panfletos contra a exploração do trabalho infantil pela Nike, defender as tartarugas marinhas da Amazônia ou pedir a liberdade de Múmia Abu-Jamal, prisioneiro negro nos EUA.

Elas configuram um tipo de (des)organização que não possui estruturas hierárquicas e nem um centro de direção, valendo-se apenas dos “nós”, em cujas intercessões unem-se horizontalmente milhares de organizações que contestam, de uma ou outra forma, a atual ordem mundial. Elas podem crescer infinitamente sem que ninguém esteja obrigado a ceder sua própria individualidade a qualquer estrutura hierárquica.

Essa vem sendo uma forma de propiciar um mínimo de coesão aos chamados movimentos antiglobalistas e colocar um pouco de ordem ao caos das ruas, bem como ao emaranhado de causas e palavras-de-ordem nas seguidas manifestações quando das cúpulas de chefes de Estado da União Européia e reuniões de organismos internacionais, como o FMI,  Bird,  BID,  OMC,  G8,  como  as  que  ocorreram  em  Seattle,  Davos,  Washington, Nápoles, Praga, Santiago, Cancun, Porto Alegre, Barcelona, Gênova e Bruxelas.

Uma dessas organizações, por exemplo, surgida na Itália, tem entre seus objetivos “recuperar criticamente a experiência histórica e política da nova esquerda e do movimento operário e comunista em geral”, assim como participar nos esforços que vêm sendo desenvolvidos no sentido da “refundação teórica do marxismo”.

O “Fórum Mundial de Alternativas”, outra dessas“redes”, é uma articulação internacional da esquerda radical que detém influência dentro do Comitê Internacional do “Fórum Social Mundial”, que por três vezes teve Porto Alegre, RS como cenário.

A organização em “redes”, de maneira horizontal e não hierárquica, pode ser considerada estratégica. Um exemplo a ser citado é a chamada “Rede Liliput”, cujo líder moral é o sacerdote católico Alex Zanotelli, uma das figuras mais ativas da chamada Teologia da Libertação e da esquerda católica italiana. Pode ser considerado uma espécie de Frei Beto da Itália. A denominação e o estilo de atuação da “Rede Liliput” é uma referência à obra do escritor irlandês Jonathan Swift, segundo a qual uma multidão de anões conseguiu neutralizar o gigante Gulliver.

A estratégia “liliputiana” consiste em tecer uma rede mundial tão abrangente quanto possível, sempre ganhando espaços e influência ante a opinião pública, objetivando obter o isolamento, desprestígio e cerco sempre mais estreito em torno do Gulliver atual, designado pelo neoliberalismo e pelos Estados Unidos.

A tática é a invisibilidade nas ações, inspirada no movimento zapatista de Chiapas, México, buscando dificultar a identificação, pelo adversário, das identidades dos que se lhe opõem.

Nos curtos e médios prazos, o principal objetivo das “redes” vem sendo pôr centenas de milhares de pessoas nas ruas das principais cidades da Europa e EUA, em passeatas contra o governo norte-americano e os países do G-8, quando da realização de reuniões do Fundo Monetário Internacional, Organização Internacional do Comércio, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Organização Internacional do Trabalho, Organização do Tratado do Atlântico Norte, do próprio G-8 e outras instituições internacionais, bem como impulsionar uma Europa fora da OTAN, aliada à Rússia; incentivar uma aproximação entre Rússia e China; e estabelecer contatos visando apoiar por todas as formas os possíveis movimentos de contestação dentro dos EUA, buscando criar na opinião pública norte-americana um contrapeso ao governo conservador e buscando alentar a participação dos crentes, principalmente católicos, nesses movimentos.

Dessa forma, parece não ser sem sentido o fato da Índia – país aonde, nos últimos anos, vêm sendo multiplicadas as insurgências sociais – ter sido escolhida para sediar o 4º Fórum Social Mundial, em 2004. Nessa escolha estaria embutido o interesse estratégico de impulsionar a revolução no Continente Asiático, dando “respaldo social” a essas insurgências.

O sistema de “redes”, além de suas vantagens estratégicas evidentes, vem sendo apresentado por participantes do Fórum Social Mundial como um modelo de “globalização alternativa”, de relacionamento social que estaria resgatando os objetivos anti-hierárquicos e igualitários do socialismo marxista e gramsciano. Isso foi afirmado pelo professor Alexander Vladimir Buzgalin, da Universidade de Moscou, diretor da revista marxista “Alternativas”, em seu estudo “Alter-Globalismo e Novos Movimentos Sociais: Teoria e Política” (2003), distribuído e comentado durante a realização do 3º FSM.

As “redes”, com suas estratégias, seu poder e suas metas, sem dúvida impressionam pelo seu ineditismo e seria um grave erro subestimá-las. No entanto, elas não são invencíveis, pois, simplesmente deixar a descoberto suas metas revolucionárias e deixar claro que por trás da aparente espontaneidade desses movimentos de contestação existe toda uma teoria de ação revolucionária, tira-lhes boa parte de sua força de impacto, o que parece ser o seu “calcanhar de Aquiles”.

(*)
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Antiglobaliza%C3%A7%C3%A3o

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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