terça-feira, 28 de julho de 2015

Aluguel do Brasil


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Roberto Gotaç

Ao médico e ao louco, dos quais, segundo o ditado popular, todo mundo tem um pouco, convém acrescentar o economista, pela enorme influência  de sua atividade no dia a dia da população. 

Segundo esta perspectiva, é lícito esperar que qualquer cidadão consciente ouse comentar e opinar a respeito de ideias e sugestões expostas em trabalhos da lavra de profissionais da área.  

O longo artigo  "O Ajuste inevitável...ou o país que ficou velho antes de se desenvolver", de autoria dos economistas Mansueto Almeida Jr., Marcos de Barros Lisboa e Samuel Pessoa, publicado na edição de  26/07/2015 do Alerta Total, tenta desenhar uma análise da atual conjuntura da economia brasileira e projeta para os próximos anos os desdobramentos da crise com a qual o país está presentemente engalfinhado. 

Ao afirmar que o país perdeu o controle de suas contas públicas a partir de 2009, enfatiza, no entanto, que os problemas que vêm despontando vão bem além meramente dessa perda de rumo e que as medidas de ajuste ora em curso constituem mero paliativo, uma espécie de empurrão com a barriga, com a agravante da provável e gradativa deterioração da situação, face a um processo cumulativo que deverá sem dúvida ocorrer a médio prazo, o que significa que o tempo joga contra.  

O texto, recheado de dados que procuram mostrar de forma quantitativa o tamanho do problema, reflete, por outro lado, um tom profundamente pessimista e indica a dificuldade de se conseguir chegar, caso nada de profundamente radical substitua as abordagens hoje adotadas, a uma solução no visual das próximas, digamos, duas décadas, dando a entender que o agravamento da crise atual, com os subjacentes e inseparáveis  aspectos estruturais, levará o país à insolvência,.colocando em risco o já precário bem estar dos brasileiros que estão nascendo hoje. 

O remédio apontado pelos autores, que, no entanto, não deixam de acentuar a necessidade de um ajuste, é, em linha gerais, mais ou menos coincidente com a visão de qualquer cidadão razoavelmente informado, ou seja, enfatiza a urgência de mudança radical, com seus inerentes ônus políticos, difíceis de assumir, nas diretrizes de gastos oficiais, principalmente os vinculados ao nosso "contrato social', caracterizado pela vertente populista, e na equivocada, segundo eles, matriz econômica adotada entre 2009 e 2014, tudo naturalmente associado à modificação da postura e atitude dos homens públicos, todas as alternativas com pouca chance de materialização num prazo que permita a chegada do possível socorro. 

Por outro lado, verifica-se, com base em observações dos eventos específicos ocorridos durante os últimos governos, que os economistas são seres estranhos quando o assunto é a condução da respectiva área, talvez a mais importante  de qualquer quadro de assessoria direta do presidente - hoje composto por 39 ministérios, um recorde na história da república - seja no seu aspecto micro como no macro. 

Os que estão designados pelo poder oficial para decidir, afinados, portanto, com as respectivas linhas políticas governamentais, tentam convencer insistentemente o resto da sociedade de que estão no caminho certo, apesar às vezes de evidências contrárias. 

Os que estão fora do círculo coordenador, criticam pesadamente o grupo que está no timão. 

É verdade que algo semelhante deve acontecer em qualquer comunidade profissional, é a natureza humana. Todavia, em Economia, onde é difícil tentar outro experimento com as mesmas condições de contorno - o mesmo regime presidencialista, o mesmo povo, eleitores ainda deseducados, etc - que vigoravam quando o primeiro deu errado, as consequências podem se agravar. 

A verdade é que eles dificilmente se ajudam desinteressadamente, fato confirmado pela constatação de que o presente texto, apesar de brilhante, não vai além de um terrível sinal de alerta, sem muitas sugestões que realmente sejam úteis a quem está com a batata quente nas mãos. Na realidade, são técnicos com grande tempero político, fato que constitui a essência da própria ciência econômica. 

Não há dúvida, porém, que o quadro delineado pelos autores é macabro e se o futuro confirmar os prognósticos sombrios apontados no artigo, acho que o melhor é acompanhar Raul Seixas e alugar o Brasil.


Paulo Roberto Gotaç é Capitão de Mar e Guerra, reformado.

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