quarta-feira, 1 de julho de 2015

Crise, minha velha conhecida


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por João Carlos Viegas

Quando menino, minha mãe dizia: "Não sei onde vamos parar.", frase que também escutava de minha avó. Ambas diziam isso quando sabiam dos preços no armazém, precursor do supermercado. Meu pai garantia que estavam querendo acabar com o país e culpava Juscelino pelo descontrole econômico do Brasil.

Esse relato mostra os meus primeiros contatos com a crise que, para mim, se materializava no pirulito de uma carrocinha da Kibon. No início, conseguia comprar o produto com uma moedinha, depois, só com uma nota. Que inveja tinha dos garotos das revistas em quadrinhos (todas americanas) que compravam tudo com moedas. Só vim a usar moedas com estabilidade já adulto na implantação do Real.

Nunca testemunhei o país sem crise. Passei pela crise do Petróleo cujo preço estava alto e nem imaginava que veria petróleo em crise por causa do preço baixo. A inflação era a grande vilã que encarecia os livros, a carne, o arroz, o aluguel e tudo que se movia ou era imóvel.

O dólar alto produzia crise e, quando ficou no mesmo patamar da nossa moeda, diziam que precisava subir para favorecer nossas exportações. Com o dólar baixo, as indústrias não faturavam e demitiam os funcionários. Sempre aparecia algum empresário falando em crise por causa do dólar em baixa que só favorecia o rico que bebia uísque importado. O dólar subiu e o preço do pão foi junto porque o trigo é importado. O rico continua bebendo uísque se gostar, já a classe média e o pobre que se virem para ganhar o pão de cada dia.

Já vi o país até tranquilo com brasileiros gastando em supérfluos, viajando ao exterior e investindo no bem estar. No entanto, eram situações que, segundo analistas, precediam a crise que iria vir. Nossos momentos de felicidade eram 'bolhas' prontas para estourar. A crise nunca foi embora ou nos atacava ou nos rondava ou estava do nosso lado aproveitando um momento de descanso.

Por isso, de tão acostumado com ela, só nos resta tratar a crise como alguém familiar que nunca nos abandonou e serve de desculpas ao longo da história brasileira. O governo diz mais uma vez que corta gastos por causa da crise e a gente que se vire como sempre. Afinal, é a crise e, desta vez, não sei onde nós vamos parar.


João Carlos Viegas é Jornalista e Radialista. Originalmente publicado no Facebook do autor em 30 de junho de 2015.

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