quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Bempensante


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

Vamos refletir sobre o pensamento de RAMÓN DE CAMPOAMOR (1817-1901), ilustre poeta espanhol:

“En este mundo traidor, no hay verdad ni mentira: todo es según el cristal con que se mira”.

Espécie ameaçada de extinção, o pensador com aurocrítica deve sempre ter em consideração que nunca chega a conhecer completamente os fatos.

O falecido professor argentino Raul Palma teve um programa de rádio chamado “Posibles maneras nuevas de mirar las cosas”.

Foi uma das reflexões mais extraordinárias que ouvi em minha vida.

É creditada a Ortega y Gasset (“modi res considerandi”) em sua obra “Meditaciones del Quijote”.

Um exemplo singelo:

Perguntado sobre o que seria a metade de 8 (oito) um matemático responderia “4”.

Já um artista gráfico talvez respondesse: ”Cortado ao meio verticalmente, teremos um E e um 3”.

O cenário político sempre deve ser analisado com humildade.

Um peixe podre posto numa pilha de peixes frescos apodrecerá a todos; a maioria não o regenerará.

Assim está a classe política. O remédio para o futuro é tornar inelegível para sempre qualquer pessoa que já tenha ocupado algum cargo eletivo, bem como os seus nomeados para cargos de confiança.

Com novas regras eleitorais (voto distrital e facultativo) recomeçaremos do zero nossa democracia.

Alguns inocentes pagarão pelos pecadores. É o preço para não corrermos riscos.


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

4 comentários:

Loumari disse...

O Desporto é a Inteligência Inútil

O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport - ludo, jogo, brincadeira - o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há-de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim...

Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajectos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura.

[Olimpíadas]

"Álvaro de Campos, in 'Espólio de Fernando Pessoa'

Loumari disse...

A Realidade é um Bocado de Sol Simples

É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre.
Criar todos os prazeres, os mais artificiais possível, os mais estúpidos possível, para que a chama atraia e queime.
O problema da sobrepovoação, o problema da sobreprodução eliminam-se criando-se focos de eliminação humana (por meio de todos os vícios), criando focos de inércia humana (por meio de todas as seduções). Fazer suicidas, eis a grande solução sociológica.
É facil ouvir de qualquer megera limpa que «não crê na Lei de Cristo», é animá-la em seguir a não-lei de Cristo. Em três anos está gasta e finda, e então descobre que o pior de não seguir a lei de Cristo é que os outros a não seguem também. E o caixote do lixo recebe-a como às teorias dos mestres a quem ela ensinou.
É nosso dever de sociólogos untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam.
E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo - tudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos, os fortes surgem e a civilização continua.
Porque sempre a Realidade é um bocado de sol simples, um quintal herdado e a certeza de ser um indivíduo.

[Mensagem ao Diabo]

"Álvaro de Campos, in 'Espólio de Fernando Pessoa'

Loumari disse...

Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilusões da realidade e a realidade das suas ilusões. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias de batalhas, versos, estátuas e edifícios. A Terra esfriará sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascença, o soI um dia, se alumiou, deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. Outros sistemas de astros e de satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades fingidas alimentarão almas de outra espécie; outras crenças passarão em corredores longínquos da realidade múltipla. Cristos outros subirão em vão a novas cruzes. Novas seitas secretas terão na mão os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia será outra, e essa Cabala diferente. Só uma obediência passiva, sem revoltas nem sorrisos, tão escrava como a revolta, é o sistema espiritual adequado à exterioridade absoluta da nossa vida serva.

"Álvaro de Campos, in 'Fernando Pessoa - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

Loumari disse...

Só Há Duas maneiras de se Ter Razão

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

[Aviso por Causa da Moral]

"Álvaro de Campos, in 'Espólio de Fernando Pessoa (1992)'