quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O Brasileiro e o Ensino


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Holz

Do livro 1889, de Laurentino Gomes destaco a transcrição de um trecho de carta endereçada a Clodoaldo da Fonseca, em meados de 1888 por seu tio Manoel Deodoro da Fonseca, o proclamador da república:

"Não te metas em questões republicanas, porquanto República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa;  os brasileiros nunca se prepararão para isso, porque sempre lhes faltará educação e respeito."

O Marechal Deodoro, além de profundo conhecedor da realidade brasileira de sua época, demonstrou uma grande capacidade de antever futuros cenários do Brasil.

Recentemente escrevi que respeito é uma instituição falida entre nós brasileiros.  Deodoro já o via há 125 anos.

No século dezenove  a educação em nosso país era oferecida a uma parcela muito pequena da população, e aparentemente não primava por um alto nível de qualidade.  Hoje, segundo as estatísticas oficiais, a oferta de vagas escolares contempla quase que a totalidade dos brasileiros em idade escolar, mas a qualidade está abaixo de qualquer crítica, especialmente na rede pública.

Ainda na semana passada foram divulgados os resultados das últimas provas de aferição do nível do ensino no Brasil.  As escolas particulares ganharam de lavada das escolas públicas, o que, infelizmente, não atesta que as escolas particulares tenham um nível elevado, pois quando comparado com outros países, o conhecimento dos jovens brasileiros deixa  muito, muito mesmo, a desejar.

Concomitantemente à divulgação dos resultados acima referidos, um jornal televisivo apresentou uma entrevista com um aluno de escola particular egresso de escola pública, o qual afirmou que estava tendo dificuldade para acompanhar o programa da escola que ora frequenta porque na escola pública o fato de frequentar as aulas já garantia promoção.

A realidade mostra que uma grande parcela de brasileiros com o ensino fundamental completo são incapazes de interpretar um texto que lêem.  Logo reconhecem letras e palavras, mas não sabem o que o conjunto quer dizer. Me perdoem a afirmação, mas para mim isto é ser analfabeto, e que as "autoridades brasileiras em ensino"  não me venham com explicações tipo analfabeto técnico. Analfabeto é analfabeto, nada mais do que isto.

Ouve-se muito sobre empenho governamental pela educação, e ao mesmo tempo se lê sobre o enxugamento de verbas dos programas de especialização e mestrado, ou seja, a formação de professores está sofrendo encolhimento.

Nos 55 anos decorridos entre a lei 5.692, de 11/08/71, que fixou diretrizes e bases para o ensino de primeiro e segundo grau, e os dias de hoje já tivemos no Brasil um sem número de planos e programas para a educação, sem que nenhum tivesse sido aplicado com firmeza de propósitos, pois cada novo governo começa do  zero com um novo plano.  E o nível do ensino oferecido é a cada década mais fraco e falho.

Quando será que teremos um programa de longo prazo para a educação neste país, começando pela preparação de professores, e tendo como foco o ensino fundamental, para depois ir para o ensino médio, o ensino técnico e finalmente para os cursos superiores?

Claro que é um trabalho de longo prazo, para o qual estimo cerca de 3 a 4 anos de preparação de professores, e depois a evolução dos alunos que hoje começarem no primeiro ano do ensino fundamental teríamos pois 4 de preparação, 8 de ensino fundamental, 3 de ensino médio e 4 a 5 de ensino superior, ou seja, aproximadamente vinte anos para começar a colher os frutos desse esforço sob forma de bons conhecimentos e capacidade de trabalho que enseje crescimento da produtividade do trabalhador brasileiro, condição "sine qua non" para um desenvolvimento econômico e social sustentável, o que aliás, todos desejamos.  Me corrijo, parece que nem todos, pois nossos governantes falam e nada fazem por tal propósito.

Pensem nisto enquanto desejo a todos uma ótima semana.


Renato Holz é articulista catarinense radicado no Ceará.

Nenhum comentário: