quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vanguarda do Atraso


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Maurício Mantiqueira

Antigamente sentia raiva dos idiotas que não enxergavam a inexistência de oposição política no Brasil.

Hoje sinto dó. As evidências é de que todos os políticos são sócios. Alguns, sócios ocultos numa “conta de participação”. Outros, simples comanditários ou comanditados.

Há também os quotistas de responsabilidade limitada e por último, os acionistas de sociedades anônimas (ou quase).

Jovens advogados confundem Sociedades por Ações com Anônimas. O primeiro termo é gênero que tem duas espécies: as já referidas Anônimas e as Comanditas por Ações.

A degradação do ensino, desde o curso primário até o pós-doutorado, tem formado analfabetos funcionais e “gênios” de fancaria.

No âmbito do direito privado, os estragos que possam ser causados por profissionais despreparados são mensuráveis em moeda ou em mágoas familiares.

No entanto, no mundo do Direito Penal, qualquer fúria inquisitória causa danos irreparáveis à honra dos desgraçados.

Se alguém , depois de muitos anos (ou décadas) de uma ação penal for finalmente absolvido, já terá perdido sua reputação, seus clientes, amigos e parentes, que se afastaram com medo do contágio do “leproso”.

Os investigadores e julgadores de pouca idade tem apenas uma vantagem em relação aos mais velhos: menos oportunidades de serem corrompidos ou tentados.

De resto é um desastre; verdadeira ejaculação precoce.

Em tempo: "Vanguarda do Atraso" foi o termo que o falecido humorista Millôr Fernandes usou para designar José Sarney quando ele assumiu a Presidência, em 1985, naquele golpe dado pelo General Leônidas.

Desde então, outros companheiros do Sarney vêm fazendo jus ao título desonorífico, desbancando o próprio monarca absolutista do Maranhão.


Carlos Maurício Mantiqueira é um livre pensador.

4 comentários:

Loumari disse...

A Vida Vazia da Cidade

Instalámo-nos, portanto, na cidade. Aí toda a vida é suportável para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu há muito. Falta tempo para o exame de consciência. As ocupações, os negócios, os contactos sociais, a saúde, as doenças e a educação das crianças preenchem-nos o tempo. Tão depressa se tem de receber visitas e retribuí-las, como se tem de ir a um espectáculo, a uma exposição ou a uma conferência.
De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.

"Leon Tolstoi, in "Sonata a Kreutzer"
Russia 9 Set 1828 // 20 Nov 1910
Escritor

Loumari disse...

Estamos Nós Realmente Salvando o Mundo?

Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.
Mas nem o mundo está sendo salvo nem ele nos salva enquanto seres de existência única e irrepetível. Alguns de nós estarão fazendo coisas que acreditam ser importantíssimas. Mas poucos terão a crença que estão mudando o nosso futuro. A maior parte de nós está apenas gerindo uma condição que sabemos torta, geneticamente modificada ao sabor de um enorme laboratório para o qual todos trabalhamos mesmo sem vencimento.

Se alguma coisa queremos mudar e parece que mudar é preciso, temos que enfrentar algumas perguntas. A primeira das quais é como estamos nós, biólogos, pensando a ciência biológica? Antes de sermos cientistas somos cidadãos críticos, capazes de questionar os pressupostos que nos são entregues como sendo «naturais». A verdade, colegas, é que estamos hoje perante uma natureza muito pouco natural.

E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Uma subtil e silenciosa preguiça pode levar a abandonar a reflexão sobre o nosso próprio objecto de trabalho. Aos poucos cedemos ao comité de não mais colocarmos em causa quem somos, o que sabemos, o que fazemos. As últimas décadas tenderam a tecnicizar as ciências biológicas. De novo, insistem connosco em que as soluções virão de sofisticadas tecnologias e de que pouco vale questionarmos os desafios políticos e sociais do nosso tempo. À força de termos que sobreviver vamos aceitando encaixes, ofertas e arranjos. A ideia de que não vale a pena tentar uma outra utopia conduz à acomodação e ao conformismo intelectual.

A própria ideia de Ciência que nos parece isenta e acima de toda a suspeita é uma ideia tão exclusivista que pode ser entendida como uma ideia gulosa. Gulosa e glutona. Engorda não por comer mas por fazer dieta. E essa dieta consiste em ignorar outras sabedorias, outros sistemas de conhecimento.

Mia Couto, in 'Pensatempos'
Moçambique n. 5 Jul 1955
Escritor/Biólogo

Loumari disse...

O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses.
(José Saramango)



A globalização e a doutrina que a sustenta, o neoliberalismo, tem aumentado os problemas da miséria, da fome, do desemprego nas nações onde tem sido aplicada.
(Baptista Bastos)



O Mundo de hoje balança entre o desastre ambiental, a violência bruta das catástrofes naturais e políticas desastrosas. Vivemos no tempo da consagração plena das duplas morais, duplas contabilidades, duplas verdades.
(Eduardo Dâmaso)



Em verdade, o mundo não está para ressurreições. Já basta o que basta.
(José Saramango)

Loumari disse...

Perante o mundo não lançamos o nosso olhar, mas apenas a nossa boca. Não nos melhoramos, mas apenas consumimos. O grito de Nietzsche já foi interpretado de mil formas. Deus morreu! Verificação de facto, mera glosa evangélica, anúncio de um programa, ou alerta, provavelmente cada uma destas versões tem a sua parte de verdade. Mas tenhamos a coragem de o afirmar. O problema da nossa época é as pessoas terem apagado Deus para ficarem em frente de si. O resultado é que ficam em geral à frente de bem pouca coisa.
" Alexandre Brandão da Veiga"