sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Neymar em defesa do Capitalismo

Fábio Gambiagi, do BNDES.

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Guido Orgis

Poucos economistas conseguem expor suas ideias com uma combinação de exemplos do cotidiano e citações acadêmicas com a desenvoltura de Fábio Giambiagi. Especialista em contas públicas e parte dos quadros do Departamento Econômico do BNDES, Giambiagi é um pensador produtivo. Está lançando seu 26.º livro, “Capitalismo: Modo de Usar”.

O título é uma provocação e parte da análise de que, no Brasil, o sentimento contra o capitalismo fez um estrago que só será corrigido com uma mudança profunda na cultura nacional. Artigos abundantes em economias de mercado, como competição, meritocracia e risco, tornaram-se raridade. Os efeitos são a criação de uma economia fechada e pouco voltada à inovação e à eficiência, com um governo do qual se espera muito e com competência duvidosa para entregar tanto.

O livro de Giambiagi propõe uma reflexão profunda para todos os brasileiros. Na opinião do autor, é antes de tudo o espírito pouco ligado a resultados da população um fator que emperra o desenvolvimento do país. A mudança cultural precisa ser acompanhada de reformas para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a poupança, o investimento e transformar a educação em um instrumento capaz de formar cidadãos prontos para encarar os desafios do mundo.

Na entrevista a seguir, Giambiagi explica que, antes disso, o país precisa de uma arrumação básica, que depende da política, antes de enfrentar o desafio de usar seu “guia” sobre o capitalismo. Aos curiosos: a explicação para o título desta reportagem está na última pergunta.

O Brasil precisa de um ajuste que sofre muita resistência, como vimos em votações no Congresso. O espírito anticapitalista está jogando contra o ajuste?

Há no Brasil, em muitos setores da sociedade, um espírito anticapitalista. Na atual conjuntura, porém, penso que o que está pesando mais é o que denomino de “lógica síria”. O que é isso? É o predomínio da lógica individual de cada grupo, que faz sentido sob uma ótica restrita, mas que produz um resultado desastroso para o conjunto do país. Na Síria, a resultante foi a destruição do país. Aqui não temos esse grau de destruição, mas a lógica de cada grupo está provocando uma guerra de extermínio na política, com consequências deletérias sobre a economia.
Nem as empresas privadas escapam de sua análise. Como formamos capitalistas que não gostam de concorrência?

Em geral, o capitalista não gosta da concorrência. Como dizia Joseph Schumpeter, talvez o melhor intérprete do sistema e a quem o livro rende merecido tributo, “pela sua própria natureza, o capitalismo não costuma ser benevolente com os capitalistas”. Por quê? Por causa do progresso. Quando eu era um garoto, a gente ouvia a expressão “IBM” e isso remetia ao que havia de mais moderno na computação. Hoje nem sei se a garotada sabe bem o que é a IBM, mas todo mundo associa modernidade à Apple. Isso é a expressão do dinamismo, que é marca por excelência do capitalismo. Não é problema que o capitalista não goste da concorrência. Mas se o sistema funcionar bem, haverá competição e ele receberá a mensagem de que ou fica constantemente se atualizando ou sua empresa vai perder market share.

Parece claro que a política de Estado expansionista dos últimos anos não funcionou, mas isso não parece ser suficiente para convencer o país a desmontá-la. Há alguma chance de crescimento sem uma reversão de curso?

Aqui é preciso dividir a resposta em três tempos. Mais do que inocular o espírito capitalista nas pessoas, o que é urgente no momento é deter a queda livre em que nos encontramos e isso implica retomar a confiança de que a política permita algum entendimento. O segundo passo é religar o motor de arranque, para que a economia não fique em ponto morto. No terceiro estágio, sim, espero que possamos aspirar a ter mais dinamismo. O livro trata da situação à qual poderemos chegar no terceiro estágio, mas não da recuperação da confiança, que passa pelo terreno da política.

O governo fez um esforço para rever alguns benefícios sociais, como seguro-desemprego e pensões. Foi algo significativo em uma agenda de reformas? Qual seria o modelo ideal?

Foi muito pouco. O gasto com seguro-desemprego continua aumentando, o que é um resultado da crise; e a mudança da regra das pensões foi minúscula. O problema da situação que se criou é que estamos chegando na fase de “canibalização do gasto social”. É quando no afã de aumentar esses gastos, um gasto vai esmagando o espaço de outro. Por um triz, a antecipação da metade do 13.º salário dos aposentados quase deixa de ser paga na data prevista. Por quê? Porque os gastos com seguro-desemprego e outros benefícios deixam o caixa do governo baqueado. É preciso rever o sistema e definir o que é prioritário.

O país padece de alguns problemas entrelaçados: poupança baixa, gasto público ruim, investimento baixo e infraestrutura inadequada. Qual o ponto de partida para fazer essas condições andarem para o lado certo?

Há três pilares: a) diagnóstico; b) persuasão; e c) articulação. O ministro Levy tem se esforçado, mas é indisfarçável que o diagnóstico dele é prejudicado pelo fato de que a capacidade de persuasão da presidente Dilma é próxima de zero, uma vez que dá a impressão de que ela não acredita nessa agenda. Quanto à capacidade de articulação do governo, dispensa comentários.

O senhor dedica parte do livro à necessidade de melhor educação financeira. O fato de o brasileiro ser “ruim de conta” limita o debate político e econômico?

Esse é um capítulo importante, escrito na dupla qualidade de economista e pai. Eu ficava abismado lendo as patacoadas que ensinavam a meu filho na escola. Mesmo nas escolas da elite, o garoto é treinado para ser um militante do PSTU. Depois, quando perceber que a vida é dura, muitas vezes já estará com a prestação da casa própria vencida e pendurado no cheque especial, por não ter sido melhor preparado. A educação financeira ajuda a gerar cidadãos melhores, mais preparados para enfrentar a vida e mais autoconfiantes. Infelizmente, nesse caminho evolutivo estamos ainda engatinhando.

Se alguém topasse fazer uma campanha pró-capitalismo no país, quais ideias e argumentos seriam mais promissores para transformar o brasileiro em um capitalista de verdade?

Eu faria uma propagando institucional mostrando o Neymar aos 18 anos e o Neymar hoje e perguntando: “Quem você acha que joga melhor? O Neymar de 2010 ou o Neymar de 2015? É o de hoje, não? E por quê? Porque o Neymar aprendeu a disputar jogos no dia a dia com os melhores jogadores do mundo. Assim, ganhou o espetáculo, ganhou ele e ganhou a Seleção brasileira. O nome disso é competição. É ela que gera progresso e faz as pessoas, as empresas e os países avançar”. Aliás, é interessante notar a diferença entre ele e o outro garoto do Santos, o Ganso. Ambos surgiram juntos e eram craques. Só que um deu um passo adiante e foi conquistar o mundo dando a cara a tapa contra os melhores. O outro ficou no Brasil disputando esse campeonato de segunda categoria. O resultado está aí: o Neymar, daqui a pouco, poderá ser candidato a melhor do mundo, e o Ganso é apenas um bom jogador do São Paulo.


Guido Orgis é Repórter do jornal Gazeta do Povo, do Paraná, onde a entrevista com o economista Fábio Giambiagi, autor do livro “Capitalismo: Modo de Usar”, foi publicada em 8 de setembro de 2015.  

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