terça-feira, 29 de setembro de 2015

O Poder Mundial e nós


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Adriano Benayon

Defino o capitalismo como um sistema econômico e político no qual capitais privados vão sendo cada vez mais concentrados nas mãos de poucos oligarcas dominantes.  Isso lhes permite conquistar não só as grandes empresas financeiras e produtivas, mas também o Estado.

Isso acontece sob regimes abertamente fascistas e também sob regimes aparentemente democráticos, em que o dinheiro e a mídia, a serviço dos oligarcas, controlam o sistema político e o resultado das eleições.

O capitalismo nos países centrais, mercê notadamente de guerras que envolveram os aspirantes à hegemonia, tornou-se, ao longo dos últimos 350 anos, um sistema de poder mundial, sob a hegemonia do capitalismo britânico, que depois consolidou sua associação com o norte-americano, formando o império angloamericano.

Atualmente, restam duas potências não subordinadas ao império, China e Rússia, capazes de propiciar equilíbrio na balança do poder mundial. Sem esse equilíbrio, não há como país algum, no mundo, desenvolver-se.

Veja-se a anomia prevalente no cenário mundial, do início dos anos 1990 até há pouco, período em que o império angloamericano cometeu  colossais genocídios: na Iugoslávia,  seguindo-se Iraque, Afeganistão, novamente Iraque, Líbia, para citar só alguns. Agora, em pauta, a Síria.

O auge da tirania imperial corresponde no Brasil aos governos Collor e FHC. Na Argentina, ao de Menem, e mais exemplos vergonhosos mundo afora.

O enfraquecimento e dissolução da União Soviética haviam deixado o planeta à mercê do império, secundado por seus satélites.

Mas a China vem ganhando  poder em todos os campos, e a Rússia reafirma-se como potência nuclear e balística de grande porte.

Isso lhes dá autonomia nas decisões políticas e econômicas, e limita um pouco a tirania exercida pelo império angloamericano em âmbito global.

Se se tivessem mantido abertos à influência do  império, não teriam alcançado o status de potências mundiais. Para tanto, precisaram de regime centralizado e fechado.

As histórias da Coreia do Sul e de Taiwan ilustram a mesma constatação: para se desenvolverem, tiveram governos militares  nacionalistas, devido a circunstâncias especiais:  a presença do comunismo na China e na Coreia do Norte, com apoio do Exército Vermelho da China de Mao Dze Dong. Este havia empurrado os partidários de Chiang Kai Chek para Taiwan (Formosa), onde se instalaram sob a proteção da esquadra norte-americana.

Em suma, os EUA precisavam deixar fortalecer-se aqueles dois países, empobrecidos pela exploração colonial e pela ocupação japonesa, além de devastados por guerras, antes e durante a 2ª Guerra Mundial. Do contrário, seus povos seriam reunidos a seus compatriotas sob governos comunistas.

Em nossa história, como na da Argentina,  houve progressos para o desenvolvimento, exatamente sob regimes autoritários, no período entre-guerras da 1ª metade do Século XX e durante a 2ª Guerra Mundial.

O senador Severo Gomes, desaparecido no mar, em 1992, comentava que a arrancada para o desenvolvimento da Argentina e do Brasil fora possível graças ao relativo isolamento comercial propiciado pela 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e pela depressão dos anos 1930, seguida da 2ª Guerra Mundial (1939-1945).

A melhora das estruturas econômica e social só se pode realizar sob condições de poder central forte, como, no Brasil, as dos anos subsequentes à Revolução de 1930 e no Estado Novo (1937-1945), mercê da consciência nacionalista do Exército e da visão esclarecida e  habilidade do presidente Vargas.

Como tenho exposto, Vargas foi injusta e incessantemente acoimado de ditador por agentes do império, horrorizado com a perspectiva de o País atingir o desenvolvimento econômico e social. 

Por isso não cessavam de injuriar o presidente os adeptos do império angloamericano, fosse fascinados pela democracia de molde ocidental, fosse  a soldo daquele império.

Tive, com frequência, ocasião de trocar ideias com Severo Gomes, empresário e  antigo ministro da Indústria e Comércio (MIC) no governo do general Geisel.  Também, com outros grandes brasileiros: o general Andrada Serpa, o físico Bautista Vidal (secretário de Tecnologia Industrial do MIC com Severo Gomes e criador do Programa do Álcool, Energia da Biomassa), e o Dr. Enéas Carneiro.

Todos tinham consciência plena de que o desenvolvimento só é possível com autonomia nacional e que um dos requisitos para esta existir  é a autonomia industrial e tecnológica, inclusive com  domínio da energia nuclear aplicada à defesa.

O que precede significa que, para o Brasil, é vital ter estratégia que:

1) contemple estarem as potências hegemônicas intervindo permanentemente em nosso País;

2) acompanhe a balança do poder em âmbito global, avaliando a  medida em que o império se veja obrigado a concentrar recursos e atenção em outras regiões.

Dado o nosso recuo econômico, financeiro e tecnológico – crescente  nos últimos decênios - a chance de êxito que possa ter o projeto de sobrevivência do País depende de unir o máximo possível das forças nacionais.

Estas têm sido agudamente divididas em direita e esquerda, ao longo dos últimos 85 anos. O marco foi a Revolução de 1930, a qual abriu a  perspectiva de desenvolvimento do País.

Em seguida, o  império angloamericano fomentou novos separatismos e passou a investir mais intensamente em cooptar e corromper locais, notadamente na mídia, como Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, dono dos Diários Associados, a maior cadeia jornalística da época.

Já no mandato de Vargas assumido em  1951, indagado Chatô,  por que atacava o presidente e abria total espaço na TV a Carlos Lacerda, seu virulento e audacioso adversário, respondeu: “se ele desistisse de criar a Petrobrás, eu passaria apoiá-lo e lhe daria espaço em minha rede de comunicação”.

Outro, foi o notório Roberto Marinho, dono de O Globo  desde 1931. Esse, desde 1964, recebeu favores oficiais e fartos recursos norte-americanos para tornar-se dominante na comunicação social.

Mais tarde, o império declarou, através de Henry Kissinger, que não podia tolerar o surgimento de uma potência no Hemisfério Sul. Assim, foram cavados profundos fossos ideológicos entre brasileiros e n  outros modos de intervenção;

Em 1932,  Londres fomentou a falsamente denominada Revolução Constitucionalista,  em São Paulo, que se poderia ter transformado em guerra separatista do Estado onde a   industrialização despontava promissora.

A constitucionalização real veio em 1934, preparada por Vargas desde antes daquela teleguiada “revolução”.  A insurreição comunista,  em 1935, tempo de grande polarização esquerda/direita, reflexo do cenário europeu antecedente à 2ª Guerra Mundial.

Era muito pequeno o número de operários organizados, e a geopolítica dava chances nulas de êxito aos comunistas brasileiros:    poder naval do império britânico absoluto no Atlântico Sul, e proximidade dos EUA.

Sendo incipiente o desenvolvimento do poder militar da União  Soviética (URSS), não havia como esta apoiar o levante comunista no Brasil. Ademais, Stalin dava prioridade à infra-estrutura industrial da URSS. Não apostava na revolução internacional, ao contrário de Trotsky, alijado do poder.

Entre os comandados de Prestes, infiltraram-se agentes do Intelligence Service, o M16 britânico, e os planos dos ataques eram previamente conhecidos das forças legalistas.

O resultado da insurreição de 1935 foi exacerbar a polarização ideológica, de interesse exclusivo do império anglo-americano.

Pior, sua memória tem servido à irracionalidade que faz reprimir, atribuindo-se-lhes ser comunistas, os que se opõem ao império angloamericano ou não fecham os olhos aos crimes deste.

Seguiu-se o golpe de 1937, que instituiu o Estado Novo, repressor de comunistas e outros. A geopolítica e a influência da finança angloamericana determinaram a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial: bases no Nordeste para as FFAA dos EUA e envio da Força Expedicionária à Itália, vinculada a comando norte-americano.

Entretanto, o império não hesitou em patrocinar o golpe de 1945  e as intervenções subsequentes, que prosseguem até  hoje, e  vêm logrando seus objetivos desde agosto de 1954:

a) desnacionalizar e a desindustrializar o Brasil, impedindo o desenvolvimento de tecnologias controladas por empresas nacionais, tanto privadas como estatais;

b)  enfraquecer as Forças Armadas e a capacidade estratégica do País, indústrias básicas, infra-estrutura e o  domínio da energia nuclear;

c) desinformar e abaixar o nível de educação dos brasileiros, investindo na anticultura e na demolição dos valores éticos indispensáveis à evolução de nação próspera e equilibrada;
Esse processo tem sido realizado não só durante governos claramente subordinados aos interesses financeiros angloamericanos (Café Filho, JK, Castello Branco, Collor e FHC).

Também, durante  os demais, que,  no essencial, cederam às pressões imperiais, não obstante terem tido,  setorialmente, patriotas voltados para o desenvolvimento nacional.

Destaque-se, ademais, que eleições dependentes de dinheiro grosso e grande mídia levaram a desastres de origem parlamentar, inclusive a presente Constituição e  emendas.


Adriano Benayon é Doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

Um comentário:

Unknown disse...

Interessante ponto de vista, mas escuto isso a décadas vindo do pessoal da chamada "esquerda", sempre antiamericanos. Porém, por que na Alemanha a intervenção americana tronou o país um gigante economico? Por que a Coréia do Sul tornou-se um gigante na Ásia com o apoio americano? Por que Israel, uma mosquinha na geopolítica mundial tem índices de desenvolvimento enormes, com o apoio americano? Exemplos não param por aí, basta fazer uma pequena reflexão. Será que não está na hora de aproveitarmos o eventual apoio que americanos podem dar ao Brasil, para dar um basta a expansão esquerdista na América Latina, e com isso passarmos ao patamar de 1o. mundo? Será que todos os bons exemplos no mundo, com apoio dos americanos, não pode dar acerto aqui? Não sou americanista, mas tem que fazer o jogo. Não é possível também que durante 80 anos não houve um governo capaz de nos tirar desta miséria economica e cultural que temos aqui, visto que os EUA na década de 1930 e 1940 não era grande o suficiente para interferir na política externa de um país de nosso tamanho. Portanto, concordo em parte com o articulista. Mas só isso não explica a degradação moral e economica do Brasil. Isso é assunto para doutores em cleptocracia, fisiologismo, corrupção, e políticos canalhas que nos dirigem a 500 anos.