sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Para economista, crise pode destruir duas décadas de avanço

André Lara Rezende,
na foto de Iara Morselli/Estadão

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Sonia Racy e Gabriel Manzano

Não é o crescimento em alto ritmo, em si, mas a estabilidade, com regras adequadas, que pode conduzir um país ao desenvolvimento. Receitas inspiradas no “Consenso de Washington” ou no “neodesenvolvimento estatal” não resolvem. O que pode ser útil, na atual situação brasileira, é um “reformismo modernizador” – que passa, sim, pelo Estado, pela Previdência, pelos tributos. E no mundo de hoje qualidade de vida não depende mais, necessariamente, de crescimento material. O desenvolvimento tem de incluir “a valorização da cidadania e do espírito público”.

É de ideias assim, entre tantas, que se compõem as 200 páginas de Devagar e Simples, o novo livro do economista André Lara Rezende, recém-lançado pela Cia. das Letras. Avesso a declarações definitivas sobre certos e errados de um mundo que não para de mudar, ele admite, nesta entrevista a Sonia Racy e Gabriel Manzano, que que “não está claro quão longa e profunda será a crise brasileira, e muito menos como dela sairemos”. Mas deixa a advertência: “Tudo o que se avançou em duas décadas pode regredir se ela não for superada o quanto antes.”

De mudança para Nova York, onde  será sênior visiting professor da School of International and Public Affairs da Universidade Columbia, o filho de Otto Lara Resende (e, talvez, seu maior admirador) André, carioca de 64 anos, ex-banqueiro, ex-integrante de governos brasileiros, está hoje voltado às letras e à reflexão.

O economista também gosta de disputar corridas de carro, está pedalando 240 quilômetros de bicicleta por semana e já praticou salto a cavalo. Um dos pais dos planos Cruzado e Real, ex-presidente do BC que também comandou o BNDES, Lara Rezende avisa: “Não gosto de falar de coisas já feitas e vividas. O que passou, passou. Não sou mais ator de nada”. O que lhe interessa – e ele o diz com ênfase – “é o que temos pela frente.”

Nos 13 capítulos do livro – uma compilação de textos publicados nos últimos 15 anos – seu olhar sobre a economia se entrelaça com história, sociologia e até ciência para, no conjunto, harmonizar uma visão de macroeconomia com um amplo quadro da sociedade e suas circunstâncias.
Muitos títulos dos ensaios falam por si. Como este: Não há lugar para velhos remédios. Ou ainda O otimismo cético: 15 anos de século 21. Há conceitos recorrentes – como o de que “é preciso repensar o papel do Estado”. E o olhar é sempre rigoroso. Ao abordar o medo de se assumir reformas, diz que o preço é “uma mediocridade cautelosa, uma política de pequenos curativos sucessivos, que é frustrante”.

Em um capítulo inédito, Em busca do heroísmo genuíno, Lara Rezende passeia o olhar pelos limites do conhecimento e da percepção, para afirmar: uma possível receita para a vida humana “é ter esperança, apesar de não se saber o que esperar”. Aqui vão os melhores momentos da “conversa” por e-mail. “Falo melhor escrevendo”, justifica. O economista não quis falar sobre a atual situação econômica ou dar receitas para se sair dela. Tampouco se dispôs a discorrer sobre política passada, atual ou futura.

Armínio Fraga e José Roberto Mendonça de Barros mencionaram o “fim de uma era” – ao falar sobre o papel do Estado e a atual crise brasileira. Concorda?

O fim de um ciclo parece mais correto. Um ciclo político, que teve início com o fim do regime militar, consolidou-se em torno de dois partidos, o PSDB e o PT, representantes de propostas alternativas para a condução do país, e com o PMDB, como o partido essencialmente sem proposta, pragmático, mas sem o qual é difícil governar.

Mendonça fala em um “modelo heterodoxo que fracassou espetacularmente”. Isso se deveria ao peso da ideologia na formação de muitos economistas?

Não me parece que classificar propostas de condução macroeconômica como ortodoxas ou heterodoxas ajude na compreensão dos problemas. Ao contrário, na maioria das vezes é uma simplificação esquemática para que se possa, preguiçosamente, tomar partido sem analisar. Classificar de forma caricatural é um artifício recorrente dos que professam crença ideológica. Ideologia e fé têm em comum o horror à análise racional dos fatos.

Que tipo de cenário tem em mente, diante da ideia, admitida por muitos estudiosos, de que nos próximos 12 meses o País vai piorar antes de melhorar?

É evidente que estamos numa crise séria, com dimensões políticas, econômicas e morais. Ainda não está claro quão longa e profunda será. Muito menos, como dela sairemos.

Em um dos artigos de seu livro, sobre as manifestações de junho, você elegeu a crise de representação e o projeto de Estado que não mais servia à sociedade como causas do mal-estar do País. Seu diagnóstico hoje é o mesmo? Ou a crise econômica, mais as Lava Jatos, pedaladas e panelaços tornaram o quadro mais grave?

As manifestações de meados de 2013 foram a expressão de um mal-estar, quando o País, ainda que aos trancos e barrancos, tinha progredido, superado a inflação crônica, conseguido avanço nos indicadores sociais e queria mais. Queria melhor qualidade de vida, mais mobilidade urbana, mais segurança, melhor educação e serviços públicos de qualidade. Queria também a melhora da representatividade política. Eleições livres são apenas um dos pilares da democracia representativa, mas para que a sociedade se sinta adequadamente representada o Estado e as instituições não podem ser patrimonialistas e arbitrários, criadores de dificuldades de toda ordem. Hoje, infelizmente, a situação é diferente, não progredimos, ao contrário, regredimos e muito. Estamos no início de uma recessão econômica que pode vir a ser profunda e da perspectiva de uma longa estagnação. Tudo o que se avançou nas últimas duas décadas pode regredir se a crise não for superada o quanto antes.

De que modo você compara os desafios de arrumar a economia hoje com os que viveu (com toda a equipe) em 1994, pré-Plano Real? Em termos de espaço político para propor soluções, dificuldades para criá-las, e força para impô-las?

Os ensaios do meu livro foram escritos nos últimos quinze anos, durante os quais meu objetivo foi tentar compreender e ajudar a compreender os desafios da economia, do Estado e da vida contemporânea. Para isso, tenho certeza, é preciso um distanciamento das pressões da conjuntura, de tudo aquilo que é a matéria-prima do dia a dia da política e do jornalismo. Embora eu considere a verdadeira ação política da mais alta relevância, não sou mais, nem tenho intenção de voltar a ser, ator – no sentido de quem participa diretamente – da vida política. Faltam-nos atores competentes. Assim como diagnosticou Ortega Y Gasset, em A Espanha Invertebrada, sobre a Espanha na primeira metade do século 20, também hoje no Brasil, há uma dramática falta dos “melhores” na política e na vida pública.

Na apresentação do livro, você junta três precondições para o Brasil de hoje: repensar o Estado, valorizar a vida pública e assumir o crescimento como um imperativo. Qual partido, ou qual força social levaria isso adiante hoje?

Repensar o Estado e valorizar a vida pública são duas questões essenciais no mundo contemporâneo. No Brasil, como em toda parte. Quanto ao crescimento, ao contrário, o que sustento é que é preciso deixar de considerar o crescimento econômico como um imperativo, como a solução de todos os problemas. A qualidade de vida, na grande maioria dos países, mesmo nos de renda média como o Brasil, não está mais necessariamente vinculada ao crescimento material. Não é a maior produção de automóveis que irá aumentar a qualidade de vida – para usar um exemplo gritante – mas sim a qualidade da segurança, da educação, da saúde e da mobilidade urbana.

Ainda em seu livro: em um mundo que respira alta tecnologia e muda a toda hora, “a democracia representativa e o próprio Estado-nação serão questionados e precisarão se adaptar”. No Brasil de hoje, acha que o poder e a sociedade estão se adaptando?

Aqui, como em toda parte, seremos todos obrigados a nos adaptar. A questão é saber se essa adaptação será inteligente e natural, ou traumática, imposta pela nova realidade.

Você define nos ensaios uma visão velha de mundo, marcada por nacionalismos, crescimento material, consumo supérfluo, embates ideológicos. Considera “possível que o modelo de representação democrática constituído há mais de dois séculos, para sociedades menores e mais homogêneas, tenha deixado de cumprir o seu papel e precise ser revisto”. O que imagina que se poderia pôr no lugar? Tem esperança de que o mundo, em 2050, esteja melhor?

A menos que venhamos a passar por algum grande cataclismo, ou um novo e agora verdadeiramente mundial conflito armado, o mundo será cada vez mais integrado pela tecnologia da comunicação. O mundo da internet é globalizado, mais do que nunca, um mundo de massas. Os Estados nacionais e a democracia representativa precisam ser repensados e revistos para não ficarem definitivamente anacrônicos.

Em um de seus textos, Em busca do heroísmo genuíno, você repensa os últimos 500 anos do Ocidente e afirma que uma possível receita de vida para os homens “é ter esperança, apesar de não saber o que esperar”. Quanto pesa, nessa percepção, o fato de vivermos em um planeta cujo clima vai piorar e onde os recursos têm prazo de validade?

Em busca do heroísmo genuíno é um texto diferente, por ser mais filosófico. É uma reflexão pessoal, que procura sintetizar as ideias de muitos autores que li, ao longo de muitas décadas, sobre a questão primeira, que é a dos valores e dos objetivos na vida. Não se pode dele nada inferir sobre otimismo ou pessimismo, especialmente sobre a sociedade e a humanidade. São reflexões sobre o caminho individual de cada um de nós, um caminho que não pode ser delegado, que deve ser necessariamente percorrido só consigo mesmo.

O que quis dizer ao sentenciar que o planeta chegou ao seu limite? Como o mundo deve proceder em relação a esse tema? E o Brasil em particular?

Não tenho a pretensão de sentenciar nada. Parece-me evidente – pois não exige mais do que alguns minutos de análise dos dados – que não poderemos continuar a crescer e utilizar os recursos escassos, como fizemos nos últimos séculos, sem esbarrar nos limites físicos do planeta. Simplesmente isso.


Sônia Racy e Gabriel Manzano são jornalistas do Estadão, onde a entrevista com o economista André Lara Rezende, autor do livro "Devagar e sempre", foi publicada em 7 de setembro de 2015.

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