sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Quem foi?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos Alberto Sardenberg

Quase todo mundo concorda: enviar ao Congresso um Orçamento com déficit previsto para 2016 — no momento em que as agências de classificação de risco estavam de olho na capacidade do governo de controlar suas contas — não foi apenas um erro. Foi monumental.

Por causa dessa manobra infeliz, o Brasil perdeu o grau de investimento na Standard & Poor’s e pode ser rebaixado também por outras agências. Ora, quanto tempo levaria para recuperar o grau de investimento?
Três anos, se o país fizer tudo certinho, rápido e tiver bases econômicas boas; uma década se o rebaixamento o tiver apanhado em más condições gerais, inclusive políticas.

Tal é o resultado de pesquisa feita pela economista Julia Gottlieb, do departamento de estudos do Itaú.

O Brasil está no segundo grupo, pois cai no grau especulativo com dívida bruta passando dos 70% do PIB (deveria ser menos de 40%), inflação bem acima da meta e baixo nível de poupança.

Assim, o governo e as empresas brasileiras poderão ficar muitos anos pagando juros mais caros para obter financiamento externo e tendo acesso limitado aos mercados. Logo, menos investimentos, menos negócios, menos empregos.

Esse o tamanho do erro. O próprio governo o reconheceu e saiu com um programa empacotado às pressas para anunciar um superávit (duvidoso) para o ano que vem.

Ora, de quem foi a ideia original? Quem disse para a presidente Dilma que não teria nada demais apresentar um orçamento com déficit?
Sim, é importante saber, pois esse gênio não poderia continuar no governo.
Reparem: há um problema de credibilidade. As agências, os mercados, as pessoas desconfiam da sinceridade e da capacidade do governo de fazer o ajuste das contas. Se no cérebro (?) da administração tem um quadro que pensou tão errado — e continua lá — está claro que se perde ainda mais credibilidade.

Os primeiros suspeitos são os ministros Aloizio Mercadante, da Casa Civil, e Nelson Barbosa, do Planejamento. Todo mundo sabe que o ministro Joaquim Levy lutou contra essa mancada até o último momento.
Mas permanece nos meios econômicos e políticos uma ponta, enorme ponta de dúvida. E se a desastrada ideia tiver sido da própria presidente Dilma?

Dirão, que saia Dilma. Mas não é assim que cai uma presidente eleita.
Mas ficando, por quanto tempo for, a presidente ao menos deveria tentar recuperar sua capacidade de administrar a política econômica. Nesse caso, já está devendo duas desculpas: uma pelos estragos do primeiro mandato; outra, pelo orçamento com déficit, mesmo que tenha sido ideia de outro.

Ela pegou, não é mesmo?

Aliás, se ela não demitiu ninguém por causa disso, é um sinal. Talvez não tenha desejado cometer injustiças.

E se foi um auxiliar, não seria razoável esperar algo como “Foi mal, desculpaí, já estou vazando?”


Carlos Alberto Sardenberg é Jornalista. Originalmente publicado em o Globo em 24 de setembro de 2015.

Um comentário:

O Brasil ainda existe? disse...

E se foi parte da engenharia de desconstrução praticada pelo PT, a mando do Foro de São Paulo desde que assumiu o Poder?