domingo, 27 de setembro de 2015

Uma fábula pós-Orwelliana


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Roberto Gotaç

Imagine um local onde vivem aves rasteiras, algumas dotadas de lindas e grandes cristas, outras ostentando-as de tamanhos medianos e a imensa maioria, sem crista. 

As aves que ostentam os mais belos apêndices na cabeça ocupam os poleiros lá de cima do viveiro, sendo que o poleiro da ave que exibe a mais rútila de todas as cristas se situa num nível ligeiramente superior ao de todas as outras.

As das cristas intermediárias, barulhentas, se arrumam nas traves logo abaixo e as destituídas de adorno, no piso. 

Em cima, fica guardado o cofre e, de lá, as finanças de todo o grupo, ultimamente em crise, são controladas, o que desperta o descontentamento de uma boa parte das semi-nobres que ameaçam defenestrar o grupo dominante - cuja ascensão recorrentemente é suspeita de fraude - e ocupar os altos píncaros do espaço, embora haja entre elas quem defenda, por mera conveniência,  as irresponsabilidades cometidas pelas encasteladas. 

A situação, no entanto, de uns tempos para cá, deteriorou-se sobremaneira, com discussões e ameaças cada vez mais acaloradas e ameaçadoras. 

O resultado é o surgimento de sérias pressões para que a da crista mais rútila abandone o poleiro glorioso, possibilidade por ela repelida com veemência, havendo também a eventualidade de ser ela arrancada lá de cima à força, embora nenhuma ave do meio tenha a coragem de ser categórica a esse respeito. 

Diante da situação das finanças, no entanto, cada vez mais crítica, e do alto grau de desentendimento entre os grupos, se viu ela obrigada a agir pessoalmente, passando a convidar as cacarejantes do poleiro abaixo a partilharem frequentes refeições lá em cima, durante as quais promete-lhes benesses de poder em troca de apoio a providências destinadas a solucionar graves problemas gerados por ela e suas auxiliares, ao longo das últimas ocupações superiores, tudo a alto custo, a ser pago pela imensa maioria das situados no piso, cada vez mais desesperadas pela diminuição da ração  e pela crescente desocupação, o que as impossibilita de correrem atrás da subsistência digna. 

Como as condições do aviário vão evoluir, poucos se atrevem a prognosticar. 


Paulo Roberto Gotaç é Capitão de Mar e Guerra, reformado.

Nenhum comentário: