domingo, 11 de outubro de 2015

Aula de Política


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Duela a quien duela (como diria Fernando Collor).

O presidente João Batista Figueiredo é um dos maiores frasistas da História. Seu modo de reconstituir a realidade em palavras desconcertou os brasileiros – do final dos anos 70 à primeira metade dos 80 -, como em 1979, quando perguntado por um garoto sobre o que faria se seu pai ganhasse o salário mínimo.

– Eu dava um tiro na cuca – respondeu o general, sem hesitar.

As palavras do último comandante do regime militar marcam um período do país. Da mesma forma, a frase “Saio da vida para entrar na História”, escrita por Getúlio Vargas em 1954, como legenda de seu suicídio, é o emblema de uma época.

Por meio das tiradas de políticos como Collor, Figueiredo ou Vargas e muitos outros, é possível vislumbrar as fases do Brasil. Engraçadas ou infelizes, estudadas ou involuntárias, sérias ou irônicas, as frases servem para recontar a biografia da República.

A Era Vargas

Getúlio Vargas (1883-1954):

“Política é esperar o cavalo passar.”

“Voltarei nos braços do povo.”

“Saio da vida para entrar na História.”

Os anos JK

Juscelino Kubitschek (1902-1976), ao assumir a Presidência (1956):

“Esta é a última seca que assola o Nordeste.”

A renúncia

Jânio Quadros (1917-1991):

“Fi-lo porque o quis.” (embora tenha passado para a História como se tivesse dito “Fi-lo porque qui-lo”)

A Legalidade

Leonel Brizola (nascido em 1922), pelo rádio, durante a Legalidade, em 1961:

“Povo de Porto Alegre, meus amigos do Rio Grande do Sul, venham para a frente deste palácio, numa demonstração de protesto contra esta loucura e este desatino.”

O Regime Militar

Marechal-presidente Humberto Castello Branco (1900-1967):

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”

General-presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985):

“Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho.” 

Ministro Alfredo Buzaid (1914-1991), da Justiça:

“Não há tortura no Brasil.”

Ulysses Guimarães (1916-1992), na Bahia, em 1978, quando a Polícia de Choque avançou com cães:

“Respeitem o líder da oposição!” (Os soldados recuaram).

General-presidente João Batista Figueiredo (nasc 1919):

“Durante muito tempo o gaúcho foi gigolô de vaca.”

“Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo.”

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”

“Todo povo é uma besta que se deixa levar pelo cabresto.”

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”

Confirmando a abertura política:

“É para abrir mesmo. Quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento.”

Perguntado, em 1979, por um garoto, sobre o que faria se seu pai ganhasse o salário mínimo:

“Eu dava um tiro na cuca.”

O colégio eleitoral

Tancredo Neves (1910-1985):

“Para a esquerda eu não vou. Não adianta empurrar".

Ao dizer que campanha eleitoral era “uma luta para machos” e ser acusado de machista por uma deputada:

“Não é nada disso, minha filha. Macho é hoje uma palavra unissex.”

Quando alguém tentou contar-lhe um segredo que “ninguém podia saber”:

“Então não me conte. Se você, que é o dono do segredo, não consegue guardá-lo, imagine eu.”

Paulo Maluf (nasc. 1931):

“No Brasil, o político é veado, corno ou ladrão. A mim, escolheram como ladrão.”

A nova República

Ministro Dilson Funaro (1933-1989), da Fazenda, pai do Plano Cruzado:

“Vamos viver em outro mundo a partir de hoje.”

Deputado federal Roberto Cardoso Alves (nasc. 1927), sobre a votação do mandato de cinco anos para José Sarney:

“É dando que se recebe.”

Luiz Inácio Lula da Silva (nasc. 1945):

“Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico.”

Roberto Campos (nasc. 1917), em artigo sobre os direitos femininos na Constituição, em 1988:

“Elas gostam de apanhar.”

A volta da eleição direta

Empresário Mário Amato (nasc. 1918):

“Se Lula ganhar esta eleição, 800 mil empresários vão deixar o país!”

Lula:

“Para se eleger, Brizola pisaria até no pescoço da mãe.”

Leonel Brizola, ao se aliar a Lula, no segundo turno, contra o candidato Fernando Collor:

“Não seria fascinante fazer, agora, a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?”

Cardiologista Enéas Carneiro (nasc. 1938):

“Meu nome é Enéas.”

A era Collor

Fernando Collor (nasc. 1949), no segundo turno, acusando Lula de planejar um calote na poupança:

“Eu sou contra o calote e o ‘beijo’ que o meu adversário quer dar na dívida externa e na dívida interna – aí incluída a caderneta de poupança.”

“O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos.”

“A poupança é sagrada.”

“Vou liquidar o tigre da inflação com uma única bala!”

“Nesse presidente, ninguém coloca uma canga.”

“Eu tenho aquilo roxo!”

“Duela a quien duela.”

“Continuarei governando até o último dia de meu mandato.”

“Não me deixem só.”

Ministro Antônio Rogério Magri (nasc. 1941), do Trabalho, sobre o uso de carro oficial para levar sua cachorra ao veterinário:

“A cachorra é um ser humano, e eu não hesitei.”

“Penso muito durante meus momentos de solidez.”

Primeira-dama Rosane Collor de Mello (nasc. 1963), sobre sua lua-de-mel:

“Vamos passar 15 dias no Egito e depois vamos ao Cairo.”

Empresário PC Farias (1946-1996), tesoureiro da campanha de Collor:

“Se alguém queria me agradar com dinheiro, eu não tinha como recusar.”

“Sei bater o olho num sujeito e dizer se ele é honesto ou não.”

Violência

Paulo Maluf, na campanha para prefeito de São Paulo, em 1992.

“Se está com desejo sexual, estupra, mas não mata.”

Separatismo

Ciro Gomes (nasc. 1957), ao criticar os separatistas do Sul:

“As pessoas que defendem isso têm um desvio homossexual.”

Eleições 94

Sociólogo Fernando Henrique Cardoso (nasc. 1931):

“Sou mulatinho, tenho um pé na cozinha. Não tenho preconceito.”

Ministro Íris Rezende (nasc. 1933), da Justiça:

“O crime, muitas vezes, é inevitável.”

Ministro Eliseu Padilha (nasc. 1945), dos Transportes, comparando Pelé ao asfalto:

“São dois pretos admirados por todo o Brasil.”


Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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