terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Homem que amava os cachorros

Ramon Mercader

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O trecho abaixo transcrito é interessante. Foi extraído das fls 175 a 177 do livro “O Homem que Amava os Cachorros”, do premiadíssimo escritor cubano Leonardo Padura. O livro tem 589 fls. Não é uma obra de ficção. Narra a trajetória do espanhol Ramon Mercader, o homem que, como militante comunista, recebeu treinamento na União Soviética e, por ordem de Stalin, a tarefa de eliminar Leon Trotski. O livro foi editado em vários países: Espanha, Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha e no Brasil. Recebeu também diversos prêmios internacionais. ​

A seguir o trecho a que me referi:

O terror da Tcheka (polícia secreta bolchevique) de Dzerzhinski foi o braço obscuro da Revolução, ímpio como devia – como tinha de ser, diziam – e aniquilou às centenas ou milhares os inimigos do povo, os perdedores da luta de classes que se recusavam a ver o desaparecimento de sua forma de vida e de sua cultura da injustiça.

Eles, os vencedores, tinham administrado sem piedade a derrota de seus adversários, e o Partido teve de funcionar como o instrumento da história e da sua inevitável vingança massiva, embora impessoal. Tinha sido uma vingança impiedosa, certamente excessiva, mas necessária: a da classe vencedora sobre a vencida, a disjuntiva “ou nós ou eles”...

Mas os homens que Stalin decidira matar naquele tétrico mês de agosto de 1936 eram comunistas, companheiros de luta, e diante daquela filiação a engrenagem da violência conduzida por Lenin e Liev Davidovitch Trotski sempre se detivera, respeitadora do derradeiro limite. O terror stalinista, aperfeiçoado pelas  perseguições anteriores (camponeses, religiosos, aintelligentsia do país) parecia agora prestes a ultrapassar um marco inviolável.

Liev Davidovitch quis crer que a farsa se deteria à beira do precipício. Stalin, com um resto de prudência histórica, impediria a catástrofe e mostraria ao mundo sua benevolência. Porque já não se tratava do desconhecido Blumkin, nem se assistiam aos castigos posteriores às circunstâncias obscuras em que Kirov morrera.

Vários dos acusados tinham sido companheiros de Lenin e, durante décadas, resistiram às repressões e deportações czaristas, sendo quem eram, tinham inclusive agradado Stalin e representado um papel nada crível naquele roteiro arrepiante: assumiram a culpa dos crimes mais disparatados contra o Estado soviético e, sobretudo admitiam que, da Turquia, da França, da Noruega, as mãos tenebrosas de Trotski e de seu lugar-tenente Lied Sedov tinham dirigido a conspiração urdida por um “centro trotskista zinovievista”, decidido a assassinar o camarada Stalin e a reinstaurar o capitalismo no heróico solo soviético.

Uma insultuosa falta de respeito pela inteligência emanava daquele absurdo legal: o descaramento da representação que tinha lugar em Moscou exigia aos adoradores do dono da revolução uma nova espécie de fé ideológica e um novo tipo de submissão capaz de superar a obediência política para se transformar em cumplicidade criminosa.

Como todos os ditadores, Stalin seguia a velha tradição de acusar seus inimigos de colaborarem com uma potência estrangeira e, no caso de Liev Davidovitch, repetia quase os mesmos argumentos que o governo provisório de 1917 tinha lançado contra Lenin para transformá-lo, com provas fabricadas pelos serviços secretos, em agente às ordens do Império alemão com a missão de entregar a Rússia ao Kaiser. A missão de Trotski, contextualizada, era oferecer a União Soviética ao Fuhrer...

O exilado se indagaria depois como pudera ser tão crédulo a ponto de, por um momento, ter se sentido quase tranqüilo, ter inclusive se convencido de que seria impossível aos delegados do Ministério Público apresentar provas que apoiassem aquelas acusações. Mais ainda: o fato de nas primeiras alegações se falar de cinqüenta detidos e de serem levados a julgamento apenas dezessete homens indicava claramente que estes haviam feito um acordo e, em troca da sua própria incriminação, Stalin lhes pouparia a vida quando a montagem da campanha anti-trotskista e de aniquilação da oposição tivesse atingido seus objetivos propagandísticos.

Mas arvorando aquelas acusações inverossímeis, sem que fosse apresentada uma única prova, o tribunal confirmou a pena de morte de Zinoviev. Kamenev, Smirnov, Evdokimov, Mrachkovski, Bakaiev e outros sete acusados, entre eles o soldado Dreitser, aquele que acompanhara Liev Davidovitch em sua saída de Alma-Ata e lhe permitira (teria sido esse o seu delito?) levar seus papéis para o exílio.

Nas conclusões do julgamento, Liev Davidovitch ouviu também a previsível condenação que esperava: Liov e ele eram acusados de preparar e dirigir pessoalmente - como agentes pagos pelo capitalismo, primeiro, e pelo fascismo, depois – atos terroristas na União Soviética e ficavam sujeitos, caso fossem apanhados em território soviético, à prisão imediata e julgamento pelo Colégio Militar da Corte Suprema.

Quando ouviu pronunciarem aquelas sentenças, Liev Davidovitch, o exilado, sentiu que uma enorme tristeza pelo destino da Revolução o envolvia, porque sabia que no Salão de Colunas da Casa dos Sindicatos de Moscou, e sob uma bandeira que dizia “O Tribunal do Proletariado é o Protetor da Revolução”, a última fronteira havia sido ultrapassada.

Dentro e fora da União Soviética talvez muitos ingênuos e fanáticos tivessem acreditado no que foi dito durante o processo. Mas as pessoas com um mínimo de inteligência teriam de admitir que praticamente todas as palavras ditas ali eram falsas e que tal mentira estava sendo usada para assassinar 13 revolucionários.

O julgamento e a execução daqueles comunistas se transformaria, para todo o sempre, num exemplo único na história da injustiça organizada e numa novidade na história da credibilidade. Significaria o assassinato da verdadeira fé: o estertor da utopia. E também, o exilado estava ciente disso, a preparação do ataque destinado a eliminar o maior Inimigo do Povo, o traidor e terrorista Liev Davidovitch Trotski.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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