domingo, 11 de outubro de 2015

Por que Cunha não cai


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Arnaldo Bloch

O título da crônica é ambíguo. Num primeiro momento, parece que se quer saber, com certa ansiedade e um vício de ensejo, porque o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ainda não caiu. Mas não é isso o que se quer saber. O lixo de Cunha, antes intuído, ou sabido sem se poder provar, só está se materializando agora. Logo, não haveria tempo hábil para se o defenestrar de imediato.

Tempo hábil teria havido, sim, para não se ter conduzido uma das figuras mais nefastas da história da República ao posto de presidente daquela casa.

O que se quer saber, então, com o título ambíguo da crônica?

Se quer saber por que Cunha não cairá.

É um título que, embora imbuído da fantasia de ver Cunha fora dali, fora daqui, fora de vista, fora do horizonte de eventos, rende-se a um pessimismo atroz, alimentado pelas tristes circunstâncias.

Se fosse bagrinho, peixe pequeno, um Severino, Cunha cairia ao primeiro ou ao segundo peteleco, bastando uma interpelação qualquer minimamente inteligente.

Mas Cunha é peixe grande. É cão de caça.

E, acima de tudo, patrocina os interesses de um poderoso exército que conduz a pauta mais retrógrada do país, e arrebanha para suas fileiras todos os que desejam um Brasil truculento, rico em retrocesso.

A bandeira de Cunha é a bandeira do desmatamento. Da revisão da demarcação de terras indígenas, passando a prerrogativa da União para o Congresso, e reabrindo a corrida das mineradoras, dos ruralistas, dos fazendeiros. É a bandeira das armas.

É a bandeira da homofobia.

Da criminalização de toda liberdade (desde que não seja a liberdade de dilapidar o patrimônio público).

Por que Cunha não cai? Por que não cairá?

Porque sua permanência interessa não somente à bancada do atraso, dos valores pétreos, da traição à pátria, da família à 1964.

Interessa também à oposição e, eventualmente, à base e até ao Governo: todos disputam, dependendo do vento, uma casquinha do Cunha.

Aos que se empenham, dia e noite, em aprovar o impeachment de Dilma, Cunha não causa espanto, asco, nada. Causa até admiração.

As revelações diárias sobre o envolvimento de Cunha com o colosso de corrupção na Petrobras, seu balé desesperado para tourear as evidências, sua negativa sistemática e seu silêncio posterior — nada disso importa, nada disso é grave diante da oportunidade de levar à frente a tomada do Planalto.

Para os que têm como prioridade a queda da presidente, a queda de Cunha pode, e deve, esperar. É questão de ordem.

Não importa a estatura ou os serviços prestados pelos políticos da oposição que partilham dessa agenda: vale rasurar suas biografias, vale esfregar as mãos na lama e gritar: diga a Cunha que fique! E vamos todos juntos botar pólvora no canhão do Cunha. Vamos salvaguardar os alicerces da pauta-bomba!

Viva a pauta-bomba!

Vamos obstruir o veto da presidente, e que venham também a este mutirão os insatisfeitos da reforma ministerial! Sê bem-vindo!

São aqueles momentos podres, cada vez mais comuns do Brasil, em que a tese da prevalência do peemedebismo (a classe política virou um grande saco de gatos, como o PMDB) se comprova em tempo real, na práxis: somos todos iguais nessa noite de trevas que não se quer dissipar, e, apesar de vocês (esses seres invisíveis que ainda anseiam por uma guinada ética), amanhã não há de ser outro dia.

Por que Cunha não cai?

Por que não cairá?

Até cairá, mas só quando sua função de circunstância se esgotar, só quando se lhe tiverem sugado todo o veneno.

E haja veneno correndo naquelas veias, e haja veias sedentas por veneno, secas por sangue ruim, no corpo político vigente. É o momento da grande transfusão.

Se o ovo da serpente estiver em vias de frutificar, Cunha só cai depois de Dilma.

E, só então, se for interessante para os que logo acorrerem como cães às casas da República, o bagaço chupado, o que tiver restado do Senhor do Mal, será lançado à masmorra, pelas vias da Justiça ou pelas vias disciplinares da babel legislativa.

Ou será que cai? Hoje? Cai amanhã?

Depois do feriado?

Cairá em rito sumário?

Não cai. Ou alguém aí vê uma disposição moral dentro da Câmara forte o suficiente para suplantar o fel que constitui a liga daquele bolo?

Notável é que a coincidência entre a rejeição das contas de Dilma e a revelação das contas de Cunha não se faz por acaso.

Embora meritórios os dois eventos, a coincidência, em si, é resultante de uma guerra que se trava, em primeiro lugar, em nome de interesses pessoais, de grupos de pressão, de partidos, de empresas, de corporações, e, em último lugar, da sociedade, do povo, do Brasil.

Mas, alguém dirá, isto é política.


Arnaldo Bloch é Jornalista. Originalmente publicado em o Globo em 10 de outubro de 2015. 

Um comentário:

Basilio A Pereira disse...

EU QUERIA SER QUE
NEM ESSE MENINO ARNALDO.